Estouramos a bolha?

Com o cancelamento do Sónar, anunciado na segunda-feira da semana passada, alegando a “instabilidade do mercado de entretenimento” brasileiro, voltamos para um debate que há algum tempo vem tomando corpo dentro da produção cultural no país: a (possível) crise do mercado. Será que estamos caminhando para uma saturação do ramo de eventos musicais no Brasil? Será que a bolha do mercado de festivais e shows do mercado nacional estourou?

Muitos fatores colocaram o Brasil numa posição privilegiada dentro das novas lógicas de circulação das grandes turnês mundiais, por exemplo: a estabilidade da economia brasileira (sobretudo com o aumento de poder de consumo da classe média), atrelada à crise econômica internacional (principalmente na Europa), e as novas práticas de consumo musical (que privilegiam os concertos ao vivo às vendas de discos).

Com isso, o mercado da América do Sul, principalmente o brasileiro, passou a ser bem mais frequentado e foi possível perceber, nos últimos 10 anos, um grande crescimento na oferta de shows de artistas internacionais de pequeno, médio e grande porte nas principais cidades do país.

Em paralelo, não demorou muito para surgir novos festivais de grande porte (como o Planeta Terra e SWU, por exemplo) e fomentar o interesse das grandes franquias para o nosso mercado. Basta ver a volta do Rock In Rio ao Rio de Janeiro em 2011, os primeiros Lollapalooza Brasil e Sónar São Paulo em 2012, inclusive a circulação do boato que o Coachella teria interesse em aportar por aqui em 2014.

Mas, nem tudo são flores nesse mercado. Em paralelo ao crescimento da oferta de shows, cresceram também os problemas: os processos inflacionários dos ingressos (motivados pela disseminação das carteiras de estudante falsas) e cachês de artistas internacionais (devido aos leilões de artistas entre as produtoras), a disputa cada vez mais acirrada por patrocínios e, principalmente, a concorrência entre os próprios festivais e outros eventos de grande porte.

Segundo reportagem do O Globo, o preço médio dos ingressos no Brasil cresceu de R$ 35 para R$ 190 entre 2001 e 2011. Uma das razões para isso são os “leilões” de artistas que fazem que os preços de cachês superem de longe aos pagos em outros países do continente. Geralmente, quando um artista é contatado por uma produtora brasileira ou demonstra interesse em levar a turnê para o país, o agente oferece o show para várias empresas leiloando o show para quem pagar mais.

Os preços negociados nos leilões de artistas caem diretamente no preço dos ingressos, o que no Brasil é outro problema devido à lei da meia-entrada. Com a disseminação de carteirinhas de estudante falsas, o público sem o benefício acaba pagando o valor dobrado, já que os cálculos do custo real do festival são feitos em cima da meia. Como consequência, vemos uma dificuldade crescente dos festivais para esgotar seus ingressos, tendo que recorrer a sites de compra coletiva ou outras estratégias para desencalhar ingressos. Basta ver a oferta de ingressos para shows como Lady Gaga, Madonna e até para o Lollapalooza desse ano no Peixe Urbano.

Mesmo com esses problemas, acredito que essa fase de instabilidade do mercado se deve, em grande parte, aos problemas de patrocínio. Com o aumento do número de festivais, cresceu-se também a concorrência por patrocínios privados, concessões e incentivos públicos. Ou seja, é cada um por si, todos querendo se dar bem. Mas a concorrência não só entre as produtoras, festivais e eventos de música. Vale lembrar que essas verbas de patrocínios também são investidas nos megaeventos que serão realizados no Brasil nos próximos anos, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, o que deve pesar bastante no direcionamento das estratégias de marketing das grandes empresas.

É claro que sempre existirão dificuldades no setor. O ramo dos shows não é um filão de dinheiro fácil, muito pelo contrário, está longe disso. Se há espaço, patrocínio e público para todos os festivais no cenário brasileiro, não se sabe. O que se sabe, por enquanto, é que o SWU não deve acontecer mais (mesmo sem ser anunciado o fim), o Planeta Terra passa por dificuldades para se afirmar e o Lollapalooza, que acontece no próximo fim de semana, já admite prejuízo na segunda edição seguida. Isso é o que sabemos…

por Victor de Almeida.

Imagem de capa: Cartaz editado do show que o Pet Shop Boys faria no Sónar SP 2013.

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Victor de Almeida Escrito por:

Pesquisador, professor e músico. É produtor do festival LAB.

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