Estórias Roubadas #7

O comerciante, a esposa, o pintor e sua amante

Enquanto guarda os seus pincéis, o pintor observa os gestos abruptos do casal. A pose que ostentaram há pouco parece ter se perdido numa espécie de lembrança mais nebulosa do que as suas pinceladas sobre o carvalho. Tem sede. O Sr. Giovanni faz menção a um criado que acaba de entrar, solenemente, nos aposentos. Embora não tenha dito uma palavra, o pintor imagina que o comerciante conseguiu comunicar ao servo o que queria, dada a segurança e presteza com que ele se retirou do quarto. Nada falam, os três em silêncio. A tinta óleo escolhida por ele – ele e o irmão vinham se debruçando sobre essa técnica – levava mais tempo para secar.

A sra. Giovana aproximou-se do quadro e após observá-lo durante alguns instantes, perguntou muito friamente ao marido e senhor: O que acha meu senhor? Acha que nosso querido amigo conseguiu captar a vida harmoniosa e tranquila que levamos? O marido permaneceu em silêncio e aproximou-se do quadro com sincera curiosidade. Antes, começou a falar sem olhar para a mulher ou para o artista que guardava seu material, tivesse ele captado aquilo que entre nós já se perdeu minha senhora. Por um momento o pintor hesita e polidamente pergunta ao comerciante se deseja que ele refaça algo, a técnica do óleo, por secar mais lentamente, permitia trabalhar sem pressa sobre detalhes e imperfeições. O homem, austero, diz não ser preciso. Ninguém conseguiria capturar o que não existia mais, foram suas palavras.

O criado retornou com água para a garganta seca do artista. O comerciante pediu licença para retirar-se, pois tinha negócios a tratar com comerciantes ingleses. O servo permaneceu como um cão de guarda enraizado na porta dos aposentos. Ao terminar de guardar seu material o pintor percebeu que a Sra. Giovana olhava longamente para o quadro. Sua beleza acendeu nele lembranças mais quentes do que os pigmentos que utilizara para retratar os lençóis e tecidos que cobriam o leito do casal. Aproximou-se ainda solenemente da mulher e, com indisfarçada doçura, perguntou o que achava do quadro.

Tão vivo e belo quanto a semente que trago no meu ventre, disse-lhe sorrindo muito levemente. O espelho, disse ela ainda, deve ter consumido muito tempo. É de uma riqueza magnífica de detalhes. Sim, sabia que seu gosto lhe permitiria apreciar o detalhe do espelho. Como eu poderia deixar de perceber meu doce Johannes. Num gesto delicado tocou o nome do próprio pintor inscrito no fundo da cena por ele pintada, entre o lustre e o espelho; e logo após tocou levemente o ventre.

 

Por Jan Van Eyck*, Peter Greenaway** e Fábio Andrade

 

* Jan Van Eyck foi um pintor flamengo do século XV que teve como seu mais importante trabalho a obra “O casal Arnolfini”, em que ele retrata o rico comerciante Giovanni de Arrigo Arnolfini, de origem italiana, e sua esposa Giovana Cenami. O quadro é o ponto de partida para o roubo desse mês, que à medida que foi se esboçando costurou nessa narrativa uma outra referência que é…

** Peter Greenway, cineasta inglês que dirigiu o filme “O cozinheiro, o ladrão, sua esposa e o amante”; numa verdadeira trama sugestiva intersemiótica.

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Fábio Andrade Escrito por:

Poeta e professor do curso de Letras da UFPE.

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