Estórias roubadas #1

AS MANHÃS, OS INÍCIOS

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá. Achou natural que o grande réptil se esforçasse para manter o corpo enorme e escamoso dentro do cubículo que chamava de quarto. O grande pescoço dava quase uma volta inteira no cômodo, e a grande cabeça, quase do tamanho de uma cadeira, estava pousada sobre a escrivaninha velha que sua avó tinha lhe deixado de herança. Era uma boa escrivaninha, dessas que não se fabricam mais, toda no cedro.

Os olhos do bicho estavam vidrados nele. Talvez também ele estranhasse aquela situação. Piscavam aqueles olhos estranhos, vindos de outras eras. Percebeu que ele estava como que paralisado, oprimido, na verdade, pelo exíguo espaço que mal comportava seu corpo enorme. Ocorreu-lhe uma ideia que achou engraçada, embora pudesse causar um sério dano não só ao quarto, mas a toda a casa. E se ele esticasse o longo pescoço pela janela em busca de comida? Sim, pois, com certeza, era herbívoro senão já o teria devorado. Quebraria a janela e aterrorizaria os vizinhos, banqueteando-se com os jardins mal cuidados. Imagina estar pegando o jornal no terraço e se deparar com a cabeça de um enorme lagarto saindo da janela da casa do lado?

Só não riu para não provocar nenhuma reação inesperada no animal que poderia esmagá-lo num piscar de olhos. Olhou para os lados, como se procurasse ter certeza de que o quarto ainda se mantinha em pé. Teve tempo ainda de olhar a hora que o despertador digital marcava ao lado da cama, em cima do criado-mudo. Tinha meia-hora antes de se preparar para o trabalho. Virou-se de lado, cobriu-se e voltou a dormir novamente. Não lhe passou pela cabeça que o dinossauro ainda continuaria ali meia-hora depois.

por Fábio Andrade & Augusto Monterroso* 

 

*Augusto Monterroso Bonilla é um escritor hondurenho que ficou conhecido por ser autor de relatos breves e minimalistas. Parece ser dele aquele que é considerado o menor conto do mundo – “O Dinossauro” (que é justamente a primeira frase desta narrativa: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”).
Imagem de capa: Disponível no site Raspas.

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Fábio Andrade Escrito por:

Poeta e professor do curso de Letras da UFPE.

Um comentário

  1. 8 de fevereiro de 2013
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    De grandioso interesse para a imaginação, o quanto podemos retirar disto é a riqueza, baseado nas entrelinhas é que é a alma do escrito. Parabéns…. de seu eterno aprendiz Ricardo Alves

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