Esculpindo a crueza

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Foto: José de Holanda

por Gabriel Albuquerque.

A contemplação do belo, o lirismo e noções de beleza estética são critérios recorrentes na apreciação musical – “que emocionante, que música bonita!”. Caminhando na contramão desse trajeto, uma movimentação recente de músicos e bandas de São Paulo questiona essas noções convencionais, abrindo novas possibilidades para o degastado formato canção. Influenciados pelos vanguardistas da Lira Paulistana do fim da década de 1970 e meados de 1980, como Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé, as bandas Metá Metá e Passo Torto e os trabalhos solos de seus integrantes: Romulo Fróes, Juçara Marçal, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Thiago França, trazem à música o incômodo, o ruído, o grotesco. Tudo aquilo que é torto, enfim.

Em seus dois primeiros discos, o Passo Torto aplicava esses elementos no terreno do samba – os seus integrantes se conheceram nas rodas de samba do bar Ó do Borogodó, no bairro de Pinheiros. O primeiro álbum, o acústico Passo Torto (2011), era marcado por crônicas cinzentas da vida em uma grande cidade. A sequência Passo Elétrico (2013) agencia uma reconfiguração do samba com guitarras e cavaquinho com pedais de distorção que criam paisagens sonoras urbanas, caóticas e urgentes, emulando um ambiente de uma “cidade que cai”, de prédios que “morrem, transpiram e escarram”. Um cenário musical pós-Adoniran Barbosa e sua “Saudosa Maloca”, pós-Paulo Vanzolini e sua “Ronda”, pós-Sampa, de Caetano Veloso.

No entanto, o terceiro e recém-lançado disco Thiago França (em referência ao saxofonista do Metá Metá, que é sempre confundido como integrante da banda), marca um distanciamento do samba e o encontro de vanguardas paulistanas de épocas distintas: Ná Ozzetti, ex-cantora do Grupo Rumo, completa o quarteto fixo formado por Kiko Dinucci, Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Marcelo Cabral. O projeto é fruto de uma série de shows conjuntos no SESC Santo Amaro (SP) e da relação mútua de admiração entre os músicos. “A carreira solo de Ná, nossos trabalhos, tudo tem a ver com São Paulo. Cantamos a especulação imobiliária, a superpopulação”, disse Dinucci em entrevista ao jornal O Globo, evidenciando as afinidades entre as propostas estéticas de ambos os lados.

Portanto, a presença de Ná Ozzetti não é um elemento desconexo ou aleatório. Pelo contrário, a cantora participa ativamente e se envolve no processo criativo. Ela é a autora da melodia de “Onde é Que Tem”, “Este Homem” e “Bloco Torto”, além de cantar em todas as faixas do disco. A sua voz suave, doce e macia funciona como um contraponto às texturas secas e tortuosas da banda, acrescentando uma dramaticidade que leva a música do Passo Torto a outras dimensões e formando um trabalho maduro e coeso em seu conjunto.

O disco é atravessado por um olhar cinematográfico (“o cinema é melhor”, como diz uma das músicas, ou ainda o “cinema-canção”, como escreve o músico pernambucano Caçapa no release) que enquadra cenas e personagens quebrados e taciturnos. A lúgubre “O Cadáver” fala de um corpo abandonado no mato (“O cadáver/ Sob a luz do sol/ Disfarçado/ Entre o matagal/ Esperando quem lhe dê mão/ Encarnado/ Abraçado ao chão”). A psicótica “Beth” fala de um assassinato “sem nenhuma emoção” de uma anti-musa decadente e esquecida (“Beth escurecida/ Dentro de um cinzeiro/ Já foi mais bonita/ Foi meu travesseiro/ Beth luz do dia/ Cheiro de domingo/ Cheira incenso agora/ Cheira nostalgia”). “Este Homem” narra o suicídio, desde o despejo do veneno ao corpo seco, sem imagem e sem imaginação – uma leitura sombria e hipnótica de “Comprimido”, de Paulinho da Viola. São quadros de histórias marginais sobre personagens abatidos, banais (como o “homem médio desprovido”, um pouco só, um pouco mal, um pouco desleal de “Homem Comum”). Não exatamente crônicas, mas sim imagens do insólito e desamparo. Relances e recortes do desalento.

A música é áspera, seca, dura. Os ciclos hipnóticos de Campos e os golpes brutos de Dinucci (ambos nas guitarras) se juntam ao baixo pujante de Cabral e criam um labirinto sonoro ruidoso carregado de tensão, que preenche o ambiente com um clima denso, maníaco e ameaçador. Ao mesmo tempo, a ausência dos instrumentos de percussão cria uma sensação de vazio, de falta. E sob tudo isso está Ná Ozzetti, uma voz límpida e segura em meio ao pandemônio.

Thiago França é o encontro de gerações e o choque de contrastes. É sobre outras formas de experimentar e sentir a canção (enquanto formato e música em si). Como na letra de “O Cinema é Melhor”, o Passo Torto e Ná Ozzetti estão esculpindo a crueza do destino banal.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #8 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

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Gabriel Albuquerque Escrito por:

Estudante de jornalismo, integrante do grupo de pesquisa LAMA (UFPE).

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