entrevista: Diego Albuquerque

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Raul Luna, Rodrigo Édipo e Diego Albuquerque são curadores da MI – Música Independente em Pernambuco. Foto: Corujas/Divulgação

“Diego Albuquerque é, atualmente, o mais importante crítico musical de Pernambuco” – Júlio Rennó (ex-outros críticos)

“Selecionar discos para download passa longe da crítica, não há crítica sem texto” – Barbara Woolfer (Revista de Cinema)

“Não é possível mensurar a contribuição que o site Hominis Canidae e a revista MI têm para a música brasileira. Como também não nos damos conta do quanto se tornou irrelevante a crítica musical na mídia impressa tradicional. Quando há…” – Alberto Infante (Diário Austral)

“Não faço mais download. O streaming e os LPs são o meu presente e o futuro de muitos. Aguardem e verão!” – Anônimo

 

A conversa que se segue é sobre o calor das horas, sua urgência. As tags Curadoria, Crítica, Coletânea, Mixtape e Protestos são a pauta de minha entrevista com Diego Albuquerque, editor dos sites Hominis Canidae e Altnewspaper, que divide com alguns parceiros; além da curadoria da revista MI – Música Independente em Pernambuco, que muito brevemente lançará a sua 4ª edição.

Resolvi resgatar os heterônimos nesta entrevista para que eles pudessem opinar sobre assuntos com a capacidade de argumentação que eu ainda não tenho. No mais, aproveitem a conversa que nas próximas entrevistas e publicações dos Outros Críticos deverá se aprofundar. Outras vozes estão por vir. Aguardem e verão!

por Carlos Gomes.

 

O site Hominis Canidae publica mensalmente coletâneas com músicas postadas no site, já a revista MI, tem publicado mixtapes com artistas pernambucanos. Como você diferencia a sua participação na curadoria desses dois trabalhos?

Os objetivos e o processo de feitura de ambos são completamente diferentes. Na realidade, os conceitos de coletâneas e mixtapes podem ser vistos de maneiras distintas também. No Hominis, a coletânea mensal funciona como um resumo do mês, onde eu escolho metade, e Paulo Marcondes a outra metade, tudo dentro do que postamos no mês atual. Eu mesmo sempre peço opiniões externas, pra tentar diversificar as linhas e gostos dentro das coletâneas do blog. Normalmente, a última música é uma faixa inédita no blog, seja de uma banda também inédita, ou uma nova música de algum artista com quem já temos contato. Não contamos uma “história”, nem seguimos um estilo único nas coletas do HC, apenas resumimos o mês com os sons que achamos mais interessantes.  As mixtapes da MI normalmente seguem um tema ou linha de pensamento específico ou próximo. Existem mixtapes apenas instrumentais, tem uma que segue a linha dos trabalhos de tecnobregas feitos em formatação caseira. Além do fato de que são três cabeças que meio que interagem juntas, normalmente através de e-mail. Raul Luna manda uma ideia ou lista de faixas e eu e Rodrigo Édipo opinamos em cima, e por aí vai. A curadoria é diferente até pela questão do limite físico, já que a revista MI atua no estado de Pernambuco. O Hominis é nacional, normalmente postamos diversos estados durante o mês, então é difícil coincidir, mesmo que vez por outra aconteça.

Você concorda com a tese de que o Hominis Canidae é mais do que um depositário de discos, atuando também com crítica musical? Mesmo que não haja seleção dos discos postados, será a coletânea um aprofundamento dessa crítica?

Cara, no início tinha a crítica de minha escolha, dos meus gostos, entendeu?! Isso meio que já deu uma cara para o que seria o blog. Então, nós criamos um nicho, um grupamento de estilos e bandas, mas não sei se isso chega a ser crítica. Depois resolvemos abrir para todo mundo mandar material para entrar por lá para download, essa seria a característica de depósito que eu queria criar, mas já existia um caminho e um foco no HC, quando abrimos para receber material. E nós tentamos ser o mais democrático possível com a disponibilização de trabalhos no blog, mesmo que tenha sim alguma coisa de crivo entre nossas escolhas. Vez por outra recebemos trabalhos que estão muito longe do que o blog normalmente mostra, e já vemos nosso leque de possibilidade como bastante amplo, mas sinceramente não sei se chega a ser crítica musical. Quem sabe uma nova forma de ver esta crítica, mas não sei.

O Altnewspaper tem uma característica mais crítica para mim, mas Édipo diz que eu faço crítica no Hominis também, mesmo eu tentando ser o mais democrático possível. Eu brinco dizendo que eu criei a crítica sem crítica, já que nós não passamos nossas impressões sobre a maioria dos discos que postamos. Normalmente pegamos alguma resenha da net e linkamos na postagem. As coletas mensais podem sim ser um tipo de crítica, pois nós damos algum destaque a sons que postamos ao longo do mês, mas eu tenho um enorme pé atrás com relação a isso, quem sou eu (ou quem somos nós, já que tem o Paulo) para dizer o que é bom ou ruim?!

Além das mixtapes, a MI também lança uma coletânea encartada a cada edição da revista. Como a revista, a longo prazo, deverá ser uma fonte importante da música produzida em Pernambuco, o crivo para a escolha dos entrevistados e músicas da coletânea é mais severo do ponto de vista crítico? Vocês sentem essa responsabilidade?

Cara, tudo que fazemos na MI é bastante pensado, inclusive a escolha das faixas para o CD que vai junto com a revista. No caso, a coletânea encartada com a revista tem uma faixa de cada banda que está presente em entrevista naquele volume. As faixas são as que nós achamos mais bacanas, vez por outra pode aparecer uma faixa inédita de algum artista da revista, querendo que ela saia na coleta encartada com exclusividade e isso pode ser bacana.

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Recortes da Revista MI #3. Design por Raul Luna.

Acho que sentimos mais a responsabilidade no mapear da cena, ou seja, nas escolhas dos artistas que estarão nas nossas revistas. As escolhas desses artistas influenciam diretamente nesse CD encartado na revista, mas, em minha opinião, a música que vai naquele material é bem menos relevante do que as falas e ideias do artista na entrevista.

A música instrumental tem tido um olhar privilegiado tanto do Hominis quanto da MI. O HC chegou a lançar a coleta Sem Voz (2010), com 10 bandas. A música instrumental tem ocupado lugar de destaque nas curadorias que você participa? Ou com o desenvolvimento do mercado de música independente, as bandas instrumentais não podem mais serem vistas como um nicho de mercado?

Falando por mim, eu gosto de música instrumental. Por isso o Hominis tem muita banda instrumental, porque inicialmente eu mandava discos que eu tinha em casa e eu tenho muitos trabalhos de bandas instrumentais. Então eu sempre presto atenção na cena instrumental brasileira, logicamente que a crítica também está presente, ainda mais falando na escolha de artistas para a revista, que tem um numero bastante reduzido dentro de um universo. No caso da MI, tanto eu, quanto Raul Luna e Rodrigo Édipo têm apreço pela cena instrumental, não necessariamente o post-rock, mas o instrumental como um todo.

Mas falando mercadologicamente, a cena instrumental sempre será um nicho, e nesse nicho teremos diversos estilos diferentes, ou os tais subnichos. Acho bem complicado que a música instrumental (principalmente a feita no independente) venha a se tornar popular. Não estou aqui falando da bossa nova, que tem uma representação instrumental e com bastante retorno. Nem do contexto histórico, já que a música clássica já foi e ainda é bastante popular em vários locais do mundo, assim como o Jazz, e ambos transitam pela música instrumental. Existem sim os nichos. Os mais “experimentais” eu acredito que nunca deixaram de ser vistos como nichos dentro do mercado. Vez por outra esses nichos podem estar em maior evidência, mas nunca deixarão de serem nichos.

O site Altnewspaper representa Pernambuco na coletânea musical Cena Independente, que publica mensalmente músicas de bandas brasileiras com curadoria de diversos sites e blogs. Escolher mensalmente uma banda ou músico pernambucano deve ser um exercício crítico interessante. Comparativamente com os outros estados, a música pernambucana tem tido papel de destaque nas edições do Cena Independente?

Então, é um exercício interessante mesmo, principalmente quando eu tento diversificar ao máximo entre os estilos e cenas de nosso estado. Tem vez que fico meio perdido no que escolher, tento não repetir os artistas que já estiveram por lá e isso às vezes faz com que eu perca o timing das coisas. Já que os artistas continuam lançando músicas, discos, e se ele já apareceu por lá, eu acabo tentando dar espaço para outros. Eu não sei se tem tido destaque, seria até prepotente de minha parte responder isso, já que eu faço o crivo do estado de Pernambuco.

O que eu posso dizer é que consegui mandar faixa em todas as edições do Cena até agora, e que acho que o nosso estado é o que está mais diversificado em termos de estilos musicais. Outro dia mandei um e-mail pro pessoal com algumas considerações minhas sobre o primeiro ano do projeto, a ideia é bastante interessante, mas precisa que os sites de cada estado ampliem mais seu leque e senso crítico. Comentei até que pensei em mudar de estado, já que o Paulo é de São Paulo, com o intuito de mudar a visão dentro do estado, mas voltei atrás.

É sempre complicado porque tento não misturar as coisas com a MI, tento também escolher artistas que estão com trabalhos realmente novos na rua, por mais que artistas que estão na MI acabam aparecendo também nas mixtapes do Cena Independente. Mesmo porque os artistas seguem com novos trabalhos, ideias, e por mais que a revista tente ser atemporal, as pessoas podem mudar de caminhos, de opiniões, gerando assim coisas novas ou diferentes.

O último lançamento do Altnewspaper foi a mixtape Não Vai Haver Amor Nessa Porra Nunca Mais. Jogar luz sobre essas canções, nesse momento, foi a melhor maneira que vocês encontraram para dialogar com os últimos acontecimentos?

Na realidade não, nós estamos cobrindo e falando sobre os protestos em São Paulo desde o começo. Tem textos no Altnewspaper do Paulo Marcondes e de outras pessoas que estiveram por São Paulo, além de textos sobre os protestos em Belo Horizonte. Outro dia fizemos uma postagem com comentários dos protestos em um dia específico do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Fortaleza.  O que percebemos no começo das manifestações era que a grande mídia não tinha interesse ou tentava manipular o que estava acontecendo com o MPL em São Paulo, falando se tratar de vandalismos, vagabundos etc. Então resolvemos abrir espaço em nosso site para o que tava acontecendo, já que o Altnewspaper sempre foi um espaço aberto para a cultura alternativa, não necessariamente voltado apenas para música, e achamos que política também deveria ser pauta de cultura.

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Cartaz usado como capa da mixtape “Não Vai Haver Amor Nessa Porra Nunca Mais”

Essa mixtape foi apenas mais uma forma de falar sobre os protestos e tentar mostrar que na música tem muita gente falando de nossos problemas e isso já faz alguns anos. Inclusive foram pessoas que seguem o Hominis que sugeriram que deveríamos fazer uma mixtape, e eu e o Paulo pensamos em faixas e nomes para a mesma. Tem alguns artistas daqui de Pernambuco por lá, algumas bandas de São Paulo, coisas novas e velhas. Tentamos focar mais no hardcore e no rap, porque são estilos musicais que sempre trataram sobre o social, sejam as problemáticas do nosso dia a dia, sejam os nossos problemas políticos. Na realidade, todo mundo respira música a maior parte do tempo, então resolvemos fazer uma mixtape que falasse sobre os problemas do Brasil e quem sabe até ser a trilha sonora para quem fosse aos protestos pelo país.

Recife tem vivido um momento interessante com as bandas e músicos que organizam o Desbunde Elétrico. D MinGus, JuveNil Silva, Zeca Viana, Jean Nicholas e Graxa lançaram discos, singles ou estão prestes a lançar novos trabalhos. Comenta brevemente sobre o que você destaca dessas bandas, sobretudo se a coletânea de junho do Hominis Canidae, ou mesmo as mixtapes e coletâneas da MI, darão destaque a alguns desses trabalhos.

Na realidade, existe uma movimentação musical interessante faz algum tempo no Recife, não só entre essas bandas que organizam o Desbunde, mas talvez a tal “cena Beto” seja a que se encontra melhor organizada no momento. Outro dia saiu uma entrevista do JuveNil falando sobre a movimentação dessa nova cena lá no site da MI. Eu acho bastante interessante todo o movimento, acho que existe sim um modus operandi pensado nele. Ou seja, eu acho que o pessoal envolvido sabe bem o que quer e o que estão fazendo.

Eu particularmente gosto muito do trabalho do D MinGus, antes mesmo desses três discos que ele lançou como carreira solo. Na realidade, já existiam músicas solos dele antes mesmo da existência do Monodecks, a banda de rock instrumental que ele tinha com Thiago Marditu e outros brodagens. Zeca é outro que vem consolidando uma carreira tem um tempo, mas que recentemente resolveu focar mais na carreira solo. É outro aglutinador da cena recifense com o Recife Lo-Fi, por exemplo.

Sobre se esse pessoal vai aparecer nas mixtapes da MI ou na coletânea de Junho do Hominis, posso dizer que vai ter uma faixa do D MinGus na coleta desse mês, já que ele, entre os artistas citados, foi o único postado nesse mês no HC. O próprio D MinGus já apareceu nas mixtapes da MI em mais de uma oportunidade, Zeca Viana também. Matheus Mota, outro nome dessa cena Beto, também já esteve por lá em algumas oportunidades. Vamos ver o que acontecem nas próximas, o que eu posso dizer é que estamos sempre ligados no que esta acontecendo por aqui e tentando extrair o máximo de interessante que vemos nela.

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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