entrevista: Coquetel Molotov

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Pela primeira vez em Recife, a banda Metá Metá (Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França) apresentará o show do álbum “Metal Metal”, lançado em 2012. Foto: Divulgação

Os festivais de música quando enraizados na vida cultural de uma cidade, criam em torno de si uma identidade que atrai um público interessado em dialogar com as ações que ele promove. O encontro entre artistas, público e agentes culturais (produtores, críticos, jornalistas etc) não existe apenas em função do instante catártico que é a apresentação musical. A construção da identidade de um festival se realiza muito antes, e deve permanecer em diálogo durante todo o ano, para que o show de cada banda faça sentido para todos.

Muito mais que uma crise de mercado, os festivais de música têm passado por uma crise de identidade. Logicamente, a crise de que falo poderá ser ampliada a outros setores da cultura. Os modelos e formas de trabalho com a arte estão se transformando e exigindo de todos a reflexão de suas ações. Diálogo é a palavra de ordem.

Os 10 anos do festival No Ar Coquetel Molotov evidenciam parte dessa crise. Quando menos percebemos, o festival assumiu diferentes identidades, muitas das quais não reconhecemos o devido valor; outras, impostas pelo mercado, atentam contra a nossa paixão pela canção mais inventiva, ‘experimental’ – pela qual brigamos todos os dias para que ocupe mais espaços de audição. No fim das contas, estamos todos brigando pelos mesmos territórios, tentando estabelecer fronteiras e apontar o bom gosto.

O mercado de música pop é repleto de festivais de música anônima, bancados pela iniciativa privada, Estado, público imberbe e imprensa acrítica. A breve conversa que tive com os curadores Jarmeson de Lima e Ana Garcia, mostram o quanto eles estão preocupados com o futuro, o mercado, as demandas do público e, sobretudo, com a música. No entanto, temos que ter a capacidade de perceber que o reconhecimento do valor cultural do festival se dará mais por quem tem disposição em criticá-lo – já que dele  fez parte durante toda uma década -,  do que por aqueles que vêm, pagam pelo produto, e um ano depois estão de volta. Música é outra coisa.

por Carlos Gomes.

 

O festival No Ar Coquetel Molotov não se faz somente pelos shows promovidos no teatro, mas cria em torno dele uma agenda cultural estranha ao cardápio do dia a dia das principais cenas de música pop no país. Pensar em retrospectiva as transformações nos 10 anos do No Ar é refletir também sobre as mudanças que o mercado proporcionou nesse tempo?

Jarmeson de Lima: Na época em que o No Ar surgiu, foi em uma época em que a cena musical do Recife estava sem ter aquele atrativo legal. Praticamente só havia dois festivais na cidade e que aconteciam no primeiro semestre. Sem falar que as bandas internacionais que a gente gostava só tocavam em São Paulo nos grandes eventos. Dessa forma, a gente viu que era preciso criar uma nova via para “arrastar” pra cá esses shows também. Sem falar que seria ótimo dar um novo gás pra cena local. A gente via tantas bandas gravando, mas que não tinham onde tocar ou apresentar essa música pra um público que fosse além dos amigos. Foi quando criamos o festival e ajudou ao que estava “escondido” e tímido que aparecesse mais. Sem falar que o fato do festival acontecer no Teatro da UFPE derrubou vários tabus que se tinha por aqui. Desde o fato de achar que rock não combina com o ambiente, como pelo fato de dizer que a UFPE é longe. E, felizmente, o tempo provou que é esse ambiente “estranho” que torna o festival ser tão especial. E foi a partir dessa atitude ousada que inspiramos a surgir novos produtores, estúdios e bandas, mais projetos e editais e todo um contexto que favorece que hoje seja possível haver não só um festival No Ar Coquetel Molotov, mas ainda vários outros com públicos diversos pela cidade.

O festival criou uma identidade própria ao longo do tempo que gerou, em parte do público, uma expectativa em torno de “tipos de atração” que muitas vezes não são correspondidas. Vocês sentem essa expectativa versus frustração do público como parte inerente do trabalho de curadoria? A montagem da programação dos shows cria também uma expectativa versus frustração entre vocês curadores?

Ana Garcia: Eu acho importante escutar as críticas, mas temos que saber até que ponto podemos absorvê-las por completo ou não. Um festival não é baseado simplesmente apenas na curadoria. Ela depende muito da verba disponível, oportunidades em como conseguir montar uma turnê para uma banda de fora, e temos que entender bem o papel que ela tem na cidade. É completamente natural não satisfazer todo mundo. Sabemos que não estamos seguindo o caminho errado, mas acho que o papel que a gente cumpria trazendo artistas mais “experimentais” deveria ser feito agora por uma outra galera, de repente mais nova. O Coquetel Molotov não faz mais shows ou festas, não é? Fazemos um festival, e apesar de ainda ter este espaço para essas bandas, ele não pode ser mais dominado por essas atrações como já foi em outros anos. Ele cresceu e precisa também atender uma outra demanda. Mas eu acho que esta edição tem um pouco de tudo para todos os gostos!

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A banda paulista Hurtmold retorna ao festival depois de terem tocado na edição de 2005. A banda apresentará faixas do disco “Mils Crianças”, lançado em 2012.

Hurtmold – Naca by outroscriticos02

Na história da música pop é bem comum termos bandas que ao vivo funcionam melhores que nos discos. É preponderante para a banda estar em um ótimo momento ao vivo para tocar no No Ar – Coquetel Molotov; no caso das bandas estreantes, é possível equilibrar disco e performance na hora das escolhas?

Ana Garcia: Sendo bem sincera, não é! Já fizemos diversas apostas em artistas que fizeram a primeira apresentação no Coquetel Molotov, por exemplo. Ou a segunda… Acho que faz parte de na hora apostarmos em novidades, arriscar… Mas claro, ter um diálogo com as bandas, ir para os ensaios e incentivar para o grupo botar pra fuder na hora.

O festival é reconhecido pela promoção de debates e ações que relacionem música e outras artes, como o cinema nos shows da Mostra Play The Movie. A escalação completa dos debates e da Mostra ainda não foi divulgada, mas qual a importância dessas ações para o festival? Podem adiantar algum dos debates que serão anunciados?

Jarmeson: O No Ar é mais que um festival de música e quer ser mais do que um festival fechado em dois dias. Basicamente, a partir da segunda edição, já tínhamos feito as primeiras junções entre outras linguagens artísticas no evento, colocando projeções de cinema na Sala Cine UFPE e provocando outras sensações estéticas. A Mostra Play The Movie procura fazer isso também dentro deste conceito de juntar música e cinema. Mas como nos anos anteriores a Mostra tinha ficado muito grande ocupando o São Luiz, e sem ter espaço na grade para filmes e produções mais “estranhas”, resolvemos retomar a proposta original com alguns filmes que, de uma forma ou de outra, já estavam escalados antes, mas que não cabiam na programação anterior.

Teaser do show de D Mingus com trechos do filme “Tron” (1982). 

Quanto aos debates, esta é uma parte da programação em que queremos criar tanto momentos de interação, como de reflexão. É assim que penso a programação de debates e seminários, que neste ano vai acontecer no MAMAM e focar em áreas que pouco exploramos ao longo das últimas edições. No primeiro dia, teremos um encontro com profissionais ligados às artes visuais e fotografia para discutir o olhar da cidade, se a arte cotidiana está representada no Recife e se isso modifica nosso olhar para a arte em galerias. No outro dia, será um encontro com pessoas ligadas à área da gastronomia para falar sobre esse atual dilema de comida gourmet x comida caseira, se algo por ser gourmet precisa ser caro ou se a comida de mercado pode ser tão refinada quanto a de um chef famoso. E no último dia, falaremos de música, mas abordando um gênero bastante atípico dentro do No Ar, ou pelo menos, não associado diretamente, que é o heavy metal. Convidamos gente de bandas antigas e novas da cidade para conversarem sobre a cena de metal, sobre a produção desses shows, a fidelidade do público ao gênero e ouvir muitas histórias porque, querendo ou não, esses encontros de fãs de heavy metal ocorrem bem pouco fora de shows e bares.

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A cantora e atriz Clarice Falcão apresentará o álbum “Monomania” (2013) pela primeira vez em Recife. Foto: Daryan Dornelles

Conversando sobre a escalação das bandas com outros blogueiros, chegamos a cogitar que as bandas anunciadas para o segundo dia estivessem invertidas. Era mais que natural (pelo menos para a gente) que a estreante Clarice Falcão (PE) abrisse a noite, seguida por Metá Metá (SP), e que o festival fechasse com a banda Bixiga 70, que muito provavelmente irá figurar na lista de melhores discos de 2013. É tradicional ao festival encerrar com nomes mais experientes, mas diferentes entre si, como Dinoussar Jr., Racionais MC’s ou Lô Borges e Milton Nascimento numa edição, e Moraes Moreira em outra, ambos revisitando trabalhos antigos, só para ficarmos nas últimas edições. Por que a escolha por Clarice Falcão para fechar essa edição?

Ana Garcia: É verdade, mas neste caso teremos um público grande indo para ver a Clarice Falcão e é muito chato quando um teatro esvazia porque a galera já viu quem eles estavam querendo ver. Aconteceu algo similar com o Peter Bjorn and John quando Mallu Magalhães tocou no festival. Grande parte do público foi embora e a banda sentiu isso. Precisamos pensar em um festival como um todo. Além do mais, vi o show dela e ela é competente o suficiente para encerrar a noite! A banda é completa, ainda tem cello e vai ser bonito! O Bixiga 70 foi chamado um dia antes de anunciarmos a programação! E a única opção que tínhamos era a deles abrirem a noite. Já fizemos algo parecido quando Rômulo Fróes tocou. São muitos nomes bons, foi difícil escolher em que momento cada banda deveria tocar, mas acho que fizemos a escolha certa no fim. Assim, intercalar algo animado e algo mais intimista. Acho que este ano está marcado pela novidade e por isso a Clarice encerrando a segunda noite!

Nesses 10 anos o festival conseguiu consolidar uma posição de destaque entre os festivais brasileiros. Esse destaque tem servido de garantia para assegurar novas edições e a atrair novos patrocinadores, sobretudo no momento de crise pelos quais passam alguns dos grandes festivais? Com esse panorama, o que esperar dos próximos 10 anos?

Jarmeson: Apesar dos 10 anos e da boa repercussão que o festival tem, a crise é sentida todo ano. Praticamente recomeçamos do zero em termos de captação sempre que uma edição termina. Por mais que tenhamos patrocinadores que gostem do festival e queiram apoiá-lo no ano seguinte, há uma série de fatores que impedem que essa continuidade aconteça. Apesar de termos um festival bastante elegante, positivo e com muito respaldo, o setor empresarial ainda não consegue apoiar com afinco este e outros projetos culturais. Seja por conta do desconhecimento das leis de incentivo ou por falta de verba para investir em eventos musicais. Por isso é que agradecemos os parceiros e apoiadores que ainda se mantêm fiéis ao festival nestes anos, apesar de todo o contexto econômico desfavorável. Mas para os próximos dez anos queremos algo diferente. Fazer algo que seja tão ousado quanto o que fizemos há dez anos com shows em um teatro. Pro futuro, vamos pensar em outros formatos tendo em mente o que festivais similares pelo mundo têm feito.

 

Programação – No Ar Coquetel Molotov – 10 Anos

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Arte: Dani Hasse

Mostra Play The Movie

MAMAM – Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – 08 a 10/10 – 17h

Terça – 08/10
17h00 – “Punk: Attitude” (Dir: Don Letts, 2005 – 90 min)
18h30 – 1991: The Year punk broke (Dir: David Markey, 1992 – 100 min)

Quarta – 09/10
17h00 – Theremin: Uma odisseia eletrônica (Dir: Steven M. Martin, 1994 – 85 min)
18h25 – Fanzineiros do século passado (Dir: Marcio Sno, 2010 – 90 min)

Quinta – 10/10
17h00 – The Soul of a Man (Dir: Win Wenders, 2003 – 95 min)

Mostra Play The Movie – Showcase

A Casa do Cachorro Preto – Rua 13 de Maio, 99 – Cidade Alta – Olinda
Quinta – 10/10

20h00 – Showcase: D Mingus e “Tron” (Dir: Steven Lisberger, 1982 – 95 min)

Debates e Seminários

MAMAM – Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – 15 a 17/10 — 19h

Discussões sobre arte, linguagens e cotidiano

Prévia – Festa

UK Pub – 15/10 — 21h

Show e discotecagem com convidados

 

No Ar Coquetel Molotov — Showcases

Red Bull Music Academy Stage – 18/10 – 17h

Mauricio Fleury (SP), Claudio N (PE), Rafael Castro (SP) e Team Ghost (França)

Red Bull Music Academy Stage – 19/10 – 17h

Grassmass (PE), Opala (RJ), Memória de Peixe (Portugal) e Karol Conká

(PR) 

No Ar Coquetel Molotov – Shows

Teatro da UFPE – 18/10 – 21h

Juvenil Silva (PE), Hurtmold (SP), Cícero (RJ) e Rodrigo Amarante (RJ)

Teatro da UFPE – 19/10 – 21h

Bixiga 70 (SP), Perfume Genius (EUA), Metá Metá (SP) e Clarice Falcão (PE)

Shows Em São Paulo

Cine Joia – 20/10 

Shows com Thiago Pethit (SP) e Perfume Genius (EUA)

 

NO AR COQUETEL MOLOTOV – 10 ANOS 

Incentivo: Funcultura, Fundarpe, Secretaria de Cultura — Governo de Pernambuco

Patrocínio: Toyolex e Red Bull

Apoio: Prefeitura do Recife, Consulado Geral da França, Institut Français, Bureau Export, Centro de Convenções da UFPE, Ray Ban, Vice, TVU, Fabrica, Rede Brasil dos Festivais Independentes, Refazenda, Mingus, Pitú e Budweiser

Mídia oficial: O Grito! e Noize

Realização: Coda e Coquetel Molotov

Ingressos: Estarão à venda nas lojas Refazenda (Shopping Recife, Paço Alfândega e Aflitos) custando R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia) por dia no primeiro lote. O público do interior de Pernambuco e de outros estados podem comprar seus ingressos através do site www.sympla.com.br.

Mais informações: www.coquetelmolotov.com.br

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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