entrevista com biarritzzz

Ensaio fotográfico por Priscilla Buhr. Entrevista por Fernanda Maia.

Transcrição (versão 2) de entrevista realizada no dia 01 de outubro de 2020, por meio de videoconferência.

< Parte 1 >

Fernanda Maia: Como foi fazer a mostra Entremoveres, no Museu da Abolição, em Recife, com foco na participação de artistas mulheres (travestis, trans e cis) e pessoas não binárias – uma visão cada vez mais necessária e que nem todos os espaços ou grupos têm?

biarritzzz: A mostra Entremoveres foi a nossa articulação local, em Pernambuco, através do Levante Nacional Trovoa, que é uma inciativa nascida no Rio de Janeiro de mulheres negras e artistas visuais, ou seja, um coletivo de mulheres negras e racializadas que começou a se expandir no ano de 2019. A ideia inicial do Trovoa era mapear, no Brasil inteiro, esse lugar de mulheres negras e racializadas nas artes.

Então, a partir daí, foi se desenvolvendo uma articulação pros outros estados, para além do Rio de Janeiro, como o Trovoa São Paulo. Aconteceram articulações em Fortaleza, em Belém, Minas Gerais e outros estados. Então, o Levante Nacional Trovoa acabou se espalhando e a gente, aqui em Pernambuco, através de uma curadoria iniciada por Ana Lira e Ariana Nuala, fomos recrutando outras artistas, entendo a Mostra com o viés de ocupação.

A gente não ganhou nada do Museu, nem de ninguém, para realizá-la. Apenas colocamos o direito de ocupar o Museu da Abolição com uma mostra de mulheres negras e racializadas no estado, uma vez que o único museu da abolição, no Brasil, é a residência de um abolicionista branco. Então, a Mostra com mais de 30 artistas parte desse lugar.  Havia a preocupação de que tivessem mulheres do interior, isto é, que não fosse só da capital nem da Região Metropolitana do Recife, nem apenas cis.

Sobre o meu trabalho que exibi lá, foi a primeira vez que participei de uma mostra ou de uma exposição em um museu. Não foi pelo viés nem tradicional nem convencional nem hegemônico, porque se a gente pensar em mercado de arte, essa mostra está totalmente fora da perspectiva de mercado.

Fernanda Maia: Realmente, Entremoveres é diferente. Eu até separei o videoclipe “Pátria”(Biahits feat. Vampiras Veganas, 2019) – disponível no teu site biarritzzz.com – que estava na Mostra. O que me chamou a atenção foi que ele passava naquelas TVs antigas, como é que fala…?

biarritzzz: Analógica.

Fernanda Maia: Analógica, com a caixa maior.

biarritzzz: Tubo (risos).

Fernanda Maia: Tubo. Isso. A TV de tubo. Eu achei maravilhoso o vídeo – e você até comenta sobre isso no teu site – pela parte literal da imagem com o canto que é bem inusitado. Ou seja, existe uma ironia do meme e da internet.

Mas o que mais me chamou a atenção é que o vídeo se passa em um auditório de universidade que, visualmente, destoa – há aquela coisa lisa, meio sem graça do auditório e daquelas pessoas que estão lá, assistindo, com um tipo de universo na cabeça; e tu se apresentando com várias cores, enfeites e acessórios.

Como foi fazer essa apresentação? Você sentiu o impacto, o choque entre esses universos, quando fez essa performance?

biarritzzz: Sim, com certeza. Na verdade, isso era um colóquio no auditório de filosofia da USP, organizado por um professor de Letras, e tratava de decolonialidade, de transdisciplinaridade. Então, no vídeo aparece esse professor e a Sueli Rolnik, que também palestrou nesse evento. Esse professor convidou Denise Nuvem (alokaduprint), uma amiga de São Paulo, para se apresentar com as Vampiras Veganas, dentro dessa proposta de transdisciplinaridade que ele queria colocar no evento acadêmico, naquele momento.

Por isso, ele chamou as Vampiras Veganas, através da Denise, que é esse grupo, não fixo, encabeçado por ela, que integra pessoas artistas ou não, que se juntam pra criar alguma coisa musical, mesmo com ninguém sendo músico. Como eu ia estar em São Paulo nesse mesmo dia, coincidentemente, ela falou: “Bia, vai ter esse evento. As Vampiras Veganas foram chamadas, você também é, vamos colar lá”.

Eu já tinha feito essa música com ela, on-line, pelo chat do Facebook. A letra de “Pátria” a gente desenvolveu juntas, a partir de uma conversa informal, seja eu mandando pra ela ou ela mandando pra mim: “A Pátria é a rainha do num-sei-o-quê”. Depois, eu completava: “A Pátria é a rainha do esquecimento”. A gente ia completando e percebemos que daria uma música.

Nesse meio tempo, eu peguei uma base de brega funk gratuita, no Youtube, porque alguns DJs as disponibilizam. Então, eu fui fazendo a letra por cima da base. Esse ato é, para mim, uma intervenção dessa personagem que seria a Biahits com “h”, de hits.

Fernanda Maia: Como foi feito esse clipe?

biarritzzz: A gente se apresentou nesse colóquio, que estava sendo transmitido ao vivo pelo Facebook. Então, eles tinham uma camerazinha que estava transmitindo o evento inteiro para quem quisesse assisti-lo on-line. Quando a gente terminou, eu me apropriei do material deles, tirei as cenas em que a gente se apresentava e, a partir disso, fiz o clipe numa linguagem de vídeos do Youtube, que não são clipes. Ou seja, existe uma cultura de pessoas amadoras que sobem o arquivo de uma música no Youtube, mas como essa rede social é de vídeo e tem um formato visual, as pessoas fazem tal qual uma apresentação de slides, com imagens, pra cumprir aquele papel do Youtube.

Por isso, encontra-se muitas músicas do Roberto Carlos ou músicas antigas que não têm clipe. E para não ficar aquela coisa parada, as pessoas começaram a fazer essas apresentações de slides literais. Então, se na música diz: “Uma rosa vermelha”. Aparece uma rosa vermelha. “Seus olhos azuis”. Aparecem olhos azuis. O mar, o peixe… É uma linguagem didática, praticamente. Ao mesmo tempo é cômica, porque nesse contexto da internet de produções amadoras sem qualidade profissional, tudo acaba virando cômico, saindo do mesmo lugar que é o do meme.

Eu faço esse trabalho personificando cantoras como a Mc Loma, conhecida por “eu, MC Loma, sou a rainha do lacre” e a Mc Mayara, famosa por “Teoria da Branca de Neve, por que só ter um se eu posso ter sete?” [cantarola]. “Meu nome é Pátria, sou a rainha do esquecimento, a rainha do apagamento”. No caso, é a Pátria que está cantando, não sou eu. A Pátria, essa mulher hipersexualizada e sedutora e – como posso dizer? – que não demonstra perigo nenhum.

O trabalho foi exposto em uma televisão de tubo por questões de acesso. Quando a gente não tem acesso, quando a gente não tem estrutura, a maioria das escolhas acabam nem sendo estéticas, mas sim a partir do que temos. Foi pensando a relação do espaço, a quantidade de artistas e de trabalhos na Mostra, e também do que tinha disponível.

O videoclipe “Pátria” acabou fazendo uso, no final das contas, de uma linguagem visual totalmente de internet, Youtube, computador ou de celular, dentro de uma máquina ultrapassada. Fazendo essa quebra do tempo e do espaço.

24min

Fernanda Maia: Eu selecionei uma fala tua, em entrevista que você deu para o projeto de pesquisa Pivô, para Leo Felipe, em que você fala: “É difícil imaginar novas realidades, ou mesmo entender nossas próprias realidades, quando partimos de conceitos criados num outro lugar – físico, geográfico, social, epistemológico”. Conforme podemos perceber na gravação do seu videoclipe “Pátria” (Biahits feat. Vampiras Veganas, 2019), as tensões com a transmissão ao vivo em um colóquio, em que o hit foi lançado, no auditório de Filosofia da USP.

“Pontuo que a realidade da qual estou partindo, negro-indígena do norte e nordeste do Brasil, deve cunhar seus próprios novos conceitos, e não se deitar para conceitos mais uma vez norte-americanos ou europeus em busca de legitimidade.”

Gostei dessa tua fala devido à consciência – que também tenho sentido, enquanto uma pessoa que também se incomoda com os discursos padrões que nos chegam. Assim, eu pergunto, como foi o seu processo de percepção da necessidade de criar o próprio conceito? A gente pega muito de fora, né?

biarritzzz: Sim, concordo.

Fernanda Maia: Somos educados a pegar conceitos de fora desde a educação básica, sem pensar a nossa própria cultura.

biarritzzz: Toda hora.

Fernanda Maia: A todo momento. Como se deu essa percepção?

biarritzzz: Foram duas coisas paralelas. Por um lado, eu estava estudando esses temas enquanto eu estava fazendo o curso de ciências sociais na UFRPE. O curso inteiro é sobre cânones europeus: cânones franceses, cânones ingleses, assim como em todo e qualquer curso. Só que, ao mesmo tempo, esses próprios cânones, na contemporaneidade, a partir dos anos 1980, começaram a falar dos termos “sul global” e “pós-colonial”.

A partir desses estudos do pós-colonial, para depois entender o que seria o decolonial e, posteriormente, o anticolonial, que são as discussões que estão acontecendo na Academia, em todas as áreas do conhecimento, fui começando a entender o que estava acontecendo, inclusive, com o meu próprio trabalho e como ele estava sendo lido. Então, eu sendo, no Brasil, uma pessoa racializada, com o cabelo crespo, o meu trabalho passou a ser chamado de afrofuturista.

Teve uma matéria no Diario de Pernambuco, em 2019, que falava sobre o Recife afrofuturista, em que eu sou citada junto com outros dois colegas, o Mario Bros e o Furmiga, e nenhum de nós três, em nenhum momento, nos colocamos como afrofuturistas. Eu comecei a me questionar isso e aos meninos, também. “Gente, por que estão dizendo que a gente é afrofuturista? A gente nunca disse isso.” A partir daí, eu comecei a entender que era uma pauta internacional.

biarritzzz por Priscilla Buhr

Isso começou a me incomodar e eu passei a repensar o meu próprio trabalho. “O que tem de futurista no que estou fazendo? É por que eu trabalho com GIFs?”. Mas o GIF está, inclusive, sendo obsoleto, pois eu trabalho com uma linguagem que está dentro da obsolescência programada. O que eu faço hoje, daqui a cinco anos, automaticamente, estará obsoleto. Não tem escapatória. O celular que eu uso hoje, daqui a cinco anos, estará obsoleto. O programa que eu usei hoje pra fazer o vídeo x, daqui a cinco anos, estará obsoleto. Então, eu não estou falando de futuro, pelo contrário.

A web art (com a web 2.0) – que é esse movimento no qual eu me insiro, também, e já é uma decorrência da net art, dos anos 1990 – é, esteticamente, um movimento nostálgico. É um movimento que trabalha com essa nostalgia da internet do começo dos anos 2000 e do final dos anos 1990. Então, desde o início, eu sabia que eu não estava falando de futuro, pelo contrário, estava usando ferramentas do presente pra discutir coisas do passado.

Seja nesse campo da web art, que tem essa estética dos pixels – o que a alta definição faz? Ela surge para esconder os pixels; e quando a gente usa os pixels como elemento estético, consequentemente a gente está dialogando com a era pré-alta definição. Seja pensando o estético ou pensando conceitualmente o que eu estava fazendo, em nenhum momento, eu estava falando realmente de futuro.

Assim, quando eu começo a questionar o que são essas pautas internacionais, eu vou entender o que, na verdade, é um fluxo de pensamento muito complexo que passa pela Academia, mas também está no mainstream. E o mainstream e a Academia – pasmem os acadêmicos – caminham para o mesmo lugar. Então, o que é o afrofuturismo? É uma corrente estético-filosófica que teve o termo cunhado por um acadêmico branco, por um homem branco norte-americano que passou a descrever o que ele entendia que certos artistas norte-americanos estavam fazendo.

Ou seja, é um conceito que nasce para tratar de artistas norte-americanos e que, para ele, passa a descrever aquelas diferentes criações como “afrofuturistas”, e coloca um monte de gente dentro desse embalo. O termo começa a ganhar legitimidade e espaço, até chegar no mainstream, através do filme Pantera Negra (2018) – que é um grande esvaziamento do que foram e o que são os Panteras Negras.

Hollywood faz esse movimento de abraçar a causa negra colocando, num grande caldo, vários conceitos importantíssimos e criam um filme da Marvel de super-herói que é amplamente aclamado e tem uma equipe majoritariamente negra, pela primeira vez na história, e ganha vários prêmios com essa mesma equipe, também pela primeira vez na história. Faz um sucesso, mercadologicamente, enorme, porque milhões e milhões de pessoas, no mundo, são negras e não se veem representadas pelas grandes mídias nem pelo mainstream. Então, obviamente que isso ia acontecer – e é uma grande produção de milhões de dólares. Isso acaba ditando pautas internacionais.

Hoje, vemos a ONU falando em fomentar projetos afrofuturistas. Todos esses órgãos internacionais que tiveram que abordar a causa dos negros e afrodescendentes por uma outra pauta internacional que já existia, assimilando esse hype que é o afrofuturismo. Assim, estamos na década dos afrodescendentes, no mundo, cuja pauta é da ONU – que coloca mais de uma pauta a cada 10 anos.

Não é à toa que várias das grandes marcas passam a procurar, a apoiar e a incentivar projetos que estejam dentro desses conceitos atualmente em voga, em se tratando de negritude. A gente, aqui no Brasil e em outros países que não são os Estados Unidos, acaba tendo que se enquadrar nesses termos e conceitos, nessas correntes, por uma demanda econômica, também. Tem vários projetos que adotam esses conceitos, senão continuam invisíveis. Então, acaba sendo uma estratégia de sobrevivência. Assim, se a gente não tem voz, ou a gente entra na onda do que falaram que a gente é ou a gente continua na invisibilidade.

Esse último trabalho, EU NÃO SOU AFROFUTURISTA (2020), é uma revolta em relação a tudo isso. Pessoal e conceitualmente, eu discordo tanto do prefixo “afro” quanto do sufixo “futurista” pra falar de qualquer coisa em relação ao que faço. Mas a polêmica do prefixo “afro” já é uma outra pauta que também é bastante longa.

Fernanda Maia: Quando eu vi o título do seu projeto lançado pelo grupo de pesquisa Pivô, a primeira coisa que eu pensei em perguntar foi: quantas vezes você ouviu que era “afrofuturista”? [risos]

biarritzzz: [risos]

Fernanda Maia: Você deve ter ouvido várias vezes para colocar esse título no álbum. De fato, quando se fala de afrofuturismo ou fazemos uma pesquisa na internet, a gente percebe que o ponto de partida não é do público de quem se fala, ou seja, não é do público “afro”. A mesma referência de imagens na moda, nos filmes etc. que é classificada de “afrofuturismo”, quando a mesma estética é usada por brancos, não se tem o termo “afro-branco”[1]

biarritzzz: Ou branco-futurista.

Fernanda Maia: É… Não acontece. Há de fato um preconceito. Ou melhor, uma necessidade de enquadrar. Como você tinha comentado sobre a necessidade da Academia e do mainstream de enquadrar, e com a visão histórica que a gente já conhece.

Então, ainda na entrevista pro Pivô, você diz: “Por que pessoas negras que trabalham com a tecnologia disponível estariam automaticamente dentro dessa corrente [afrofuturista]? O futuro, o progresso, o desenvolvimentismo, nunca foram dissociados de um evolucionismo, ora filosófico, ora assumidamente eugenista.”. Não sei se você assistiu ao documentário Menino 23 (dirigido por Belisário Franca, 2016).

biarritzzz: Infelizmente, sim.

Fernanda Maia: O documentário conta uma história terrível. Então, percebemos o quanto, historicamente, o branco quer colocar, aqui no Brasil, o indígena e o negro em determinada caixa. Por isso, entramos novamente no videoclipe “Pátria” com as Vampiras Veganas, em referência à Mc Loma e Mc Mayara. Por isso que questionei se você sentiu a pressão do ambiente…

38min

biarritzzz: Eu não entrei na questão do “afro”, mas, pra não ficar no ar, essa raiva que me fez fazer esse trabalho também vem desse lugar de entender que eu não sou apenas um corpo em diáspora, o que é uma questão muito colocada pelo movimento negro brasileiro. Do corpo que veio de outro lugar e veio para aqui, no Brasil. Meus ancestrais tanto vieram de lá e pararam aqui, quanto já eram daqui. Então, eu como alguém cujos avós são do interior do Ceará – estou falando, apenas, de duas gerações antes de mim que são de territórios indígenas e quilombolas e são etnicamente assim.

Ou seja, cultural, linguística e gastronomicamente o Nordeste não entende o quão indígena ele é. Assim, ao mesmo tempo que tem esse fluxo que vai da Europa ou Estados Unidos para o Brasil; existe o fluxo Rio de Janeiro e São Paulo para o Brasil. Isto é, aqui dentro do nosso próprio país os conceitos são criados e os movimentos são cunhados numa perspectiva do Sudeste.

Tendo em vista, ainda, o Brasil como esse grande país continental, a realidade de um povo negro no contexto Rio de Janeiro ou São Paulo não é a mesma do povo negro no contexto do Maranhão ou do Ceará ou do Pará, Manaus, Roraima, Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe; nem Salvador, nem Rio Grande do Sul.

Enfim, cada lugar no Brasil teve fluxos e etnias diferentes que já habitavam em cada um desses espaços. Habitavam e habitam, ainda, porque falar em indígena no passado é mais uma vez essa reprodução do apagamento. Então, eu entendo que esse movimento, no Brasil, de colocar pessoas negras apenas como de ascendência africana, eu vejo isso como um apagamento, o mesmo que coloca os indígenas no passado.

A capa do álbum EU NÃO SOU AFROFUTURISTA traz várias referências à minha bisavó e à minha tataravó, que são as histórias que eu ouço falar, porque no sertão ninguém tinha fotografia, eu nunca as vi, mas sei que elas tinham hábitos e costumes que são de povos originários. Uma era parteira, curandeira. Andava com uma garrafada (que está no cantinho direito da capa álbum), que é uma ciência de cura, uma fórmula com cachaça e ervas com a qual a minha tataravó andava de cima pra baixo e tomava aquilo e ela viveu quase cem anos sem ir ao médico.

Eu sei que essas pessoas que vieram antes de mim, e é por causa delas que eu estou aqui, tinham tanto uma ascendência quanto a outra. Pra mim é muito grave, principalmente por viver esse contexto do Ceará, pois a minha família é toda de lá, apesar de eu crescer e morar em Recife. Se em Pernambuco a gente tem o contexto casa grande e senzala, Gilberto Freyre, de muito engenho no próprio perímetro urbano.

Ou seja, existe o contexto do negro escravizado e do senhor branco muito forte na literatura e muito bem documentado, no Ceará os contextos sãos outros, e é muito exorbitante como existe essa ascendência indígena nas pessoas, nos nomes dos bairros, das cidades, em tudo; e, mesmo assim, as pessoas não acham que aquilo diz alguma coisa pra elas.

Esse apagamento que também é um processo colonial de colocar em nossa cabeça o que você não é, que, a partir de agora, você é brasileiro – nos anos 1920 – processo o qual é retratado no documentário Menino 23, em que a Nação e a República estão surgindo. Então, “qual discurso vamos dizer para essas milhões de pessoas? Agora, todo mundo é brasileiro. Todo mundo é igual”. Mas, não.

Na verdade, são centenas de etnias que não são tão distantes assim – a gente pensa, depois de 1500 acabaram todas as culturas e etnias, o que não é verdade. Tanto que, até hoje, povos indígenas estão lutando pelas terras e pelo direito de viver, tal como 500 anos atrás. Então, nada mudou, realmente. A minha desconfiança com o prefixo “afro”, em se tratando de questões no Norte e Nordeste do Brasil, vem desse lugar.

A primeira vez que eu parei pra pensar nesse incômodo, especificamente, foi na época em que eu trabalhava com um coreógrafo e bailarino moçambicano que reside em Olinda, há seis anos já, se não me engano, que é o Tsumbe Maria (Manuel Castomo Mussundza). Ele vem para o Brasil no contexto da dança e, automaticamente, ele foi colocado como “dança afro”. Se é negro e dança (e não é balé), então é dança afro. Ele se incomodava muito com isso, pois na África ele fazia 12 danças só da região que ele morava em Moçambique, que é um país. Mas ele chegou aqui e se tornou “dança afro”.

Tsumbe Maria foi, produtivamente, se incomodando, até que ele negou totalmente esse prefixo “afro” pro trabalho dele e passou a dizer que se tratava de dança contemporânea da diáspora africana. Entendo, inclusive que, apesar de ele ser uma pessoa da África, ele estava trabalhando com corpos da diáspora. Depois disso, eu nunca mais entendi o prefixo “afro” da mesma forma. Enfim, essa discussão é infinita.

Fernanda Maia: Quando você levanta essa questão do “afro” e do “afrofuturismo” apaga, de fato, uma história indígena. Esse apagamento é percebido, por exemplo, no documentário Martítio (dirigido por Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho, Tita, ano 2016), em que os fazendeiros da região, quando dão o seu depoimento, agem como se nunca tivessem existido indígenas nas terras brasileiras retratadas no filme, em determinado momento em que houve uma divisão territorial, aqui, na parte Sul do país.

Então, ou os fazendeiros entrevistados negavam a existência dos indígenas no território ou que não eram brasileiros, porque eles falavam outra língua, que não me recordo o nome agora. Ou seja, há um sistema. Como a própria televisão, que apesar da forte e histórica presença indígena no Pará e no Carimbó, por exemplo, é recente a abordagem desse ritmo na tevê.

Há uma outra fala sua na entrevista pro Pivô, em que você diz que “Hoje vejo um esvaziamento poético no que diz respeito a falar de assuntos sérios unicamente através de uma linguagem da militância” e fala da importância de gerar confusão de valores. Então, você tem uma consciência do controle que existe na web, e por isso propõe subverter pelo humor, gerando confusão. Em que momento você atingiu essa consciência quanto à força do meme, dessa linguagem – que nasce aparentando ser apenas uma brincadeira, uma piada, até o surgimento de estudos com um olhar mais crítico sobre esse gênero.

50min

biarritzzz: Eu sou considerada nativa da internet. Eu nasci em 1994 que, para alguns estudiosos, é o ano em que nasceu essa internet tal qual evoluiu pra ser o que é hoje. Para mim, sempre foi meu habitat natural, que eu vivenciei como um aspecto da minha vida.

Então, as minhas memórias afetivas estão todas entrelaçadas no que foram essas produções, nesses conteúdos e estéticas que circulavam na internet. Claro, não é só uma questão geracional, mas de acesso também, pois eu cresci com acesso ao computador dentro de casa. Isso diz muito sobre questão de classe no Brasil.

Essa história que todo mundo tinha acesso à internet, de forma igual, não existe nem nunca existiu. Então, eu estive nesse lugar de crescer com esse acesso. Por isso, não é à toa que poucas e poucos artistas racializados, no Brasil, trabalham com novas mídias. Tem artista, até mesmo do coletivo Trovoa, que está em galerias, tentando se inserir em mercado de arte contemporânea, que não tem nem computador. Que trabalha e tem uma vida economicamente ativa, mas que, mesmo assim, não tem um computador, até hoje.

Assim, é preciso partir desse lugar de que eu cresci com acesso à internet e que, a partir disso, minhas vivências foram amplamente baseadas nesse convívio virtual e digital. Então, eu cresci vendo o que hoje é chamado de meme. Quatro anos atrás eu comecei uma pesquisa, que foi o meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) sobre a Leona Assassina Vingativa, considera a primeira web celebrity do Brasil.

Ela nasceu a partir do lugar do meme. É uma travesti racializada da periferia do Belém do Pará, do bairro do Jurunas, que estava brincando com a camerazinha de celular de 2008 – não era smartphone, ainda, mas aqueles que filmavam bem pequenininho, com bem pouquinha memória. Então, era um vídeo só e priu! Já salvava e já tinha que apagar. Ela mesma falou isso em algumas entrevistas. Leona Assassina Vingativa, com seus 10 anos, surge nessa brincadeira de imitar cenas, personagens e todo o melodrama de novela, com as próprias amigas, dentro de casa ou do bairro – com pessoas travestis e racializadas, também, ou dissidentes sexuais e de gênero.

Apesar de ela estar no contexto da infância – o que também é uma discussão, pois ela era muito nova e a imagem dela já estava na internet para todo o mundo ver. Era uma brincadeira. Uma brincadeira que calha, pra essa geração, de ter uma câmera e de subir o conteúdo na internet. O meu período de brincar com essas coisas foi um pouco anterior desse processo de ter um acesso maior à internet ou ao Youtube.

Mas, quando eu vi a Leona, eu entendia aquilo como um universo muito familiar, assim como muita gente da minha geração, também. A partir do momento que ela surgiu para cá, mais de 10 anos, eu cresci rindo da Leona.

Então, eu entrei no curso de ciências sociais e decidi estudar esse processo dela nas novas mídias, contrapondo o que é esse corpo e o que é essa mente travesti da periferia, em relação ao mesmo corpo e à mesma mente no contexto das mídias tradicionais, que era a televisão. Por isso, eu faço um contraponto com Jorge Lafond, que era a Vera Verão, buscando entender todo esse processo das hierarquias das mídias tradicionais que não existe nessas produções caseiras, nas novas mídias. Ou seja, elas fazem o humor delas próprias.

Para mim, isso é um ponto de virada. O nome dessa pesquisa se chama Um espelho na nuvem: Leona Assassina Vingativa e a virada dos novos meios de produção de autoimagem. Eu acabo estudando o meio, porque ela vem desse lugar, mas não só. Na verdade, eu faço uma investigação mais da linguagem mesmo, do melodrama latino-americano, já que ela personificava várias novelas mexicanas que passavam no SBT.

Fernanda Maia: Como é que surge essa consciência do meme, como você mesmo fala, do meme como uma ferramenta pedagógica, didática e crítica?

biarritzzz: O termo “Pedagogias do meme” eu inicio o uso dele a partir do videoclipe “Pátria”. Entendo essa linguagem da imagem, diretamente ligada ao que é falado, como um processo pedagógico, assim como as cartilhas do Paulo Freire e os materiais didáticos de alfabetização que associam a imagem à sílaba e à palavra, como uma linguagem primária, básica, de comunicação.

Ou seja, eu entendo esse trabalho como uma ferramenta pedagógica. Então, quando eu falo que “a Pátria é a rainha do esquecimento / ela não lembra quem morreu / ela não lembra do seu lamento” e aparecem imagens de mães cujos filhos foram assassinados pela polícia militar do Rio de Janeiro. Aparecem imagens de ambulantes tendo os seus materiais retirados do meio da rua por policiais militares – sendo a polícia militar essa força do Estado para cumprir o status quo, de matar quem precisa morrer – mais uma vez, voltando ao documentário Menino 23.

Isso é uma política de Estado que, apesar de não estar mais escrita (na constituição), já foi escrita e nunca mudou a maneira como as corporações funcionam. Branqueamento, no Brasil, era uma política de Estado e, inclusive, a eugenia, que era o processo de entender os genes a partir de um lugar evolucionista da biologia. Então, nesse conceito, os genes precisariam “melhorar” progressivamente, e o padrão ideal era o “gene ariano”.

(corte na gravação)[2]

< Parte 2 >

01min53seg

biarritzzz: Tem até uma entrevista que o David Bowie dá em que ele critica a MTV nesse lugar. Ele está sendo entrevistado em um programa da MTV e, basicamente, ele fala: o que vocês fazem aqui é uma sacanagem, porque até o meu próprio trabalho, pra ele existir, teve várias pessoas negras por trás. Os gêneros de música que todo mundo passa aqui, na verdade, foram criados por pessoas negras e vocês não passam elas aqui, só passam a gente: eu, David Bowie, o Rolling Stones. Enfim, eu lembrei disso, falando da MTV.

Fernanda Maia: Eu vi esse vídeo recentemente e, de fato, quando eu olho pra trás – agora que tem internet e posso acessar o que eu quero –, eu olho para trás e penso: “Nossa, velho, eu estava no lixo da comunicação [risos]. Tipo, vendo só coisa que eu odiava.

biarritzzz: Então, Leona Vingativa é uma demonstração de que as pessoas passam a construir a sua própria história e quebra todo esse discurso hegemônico do branco. Por exemplo, a Globo News faz muito esse papel que foi da MTV de pessoas brancas e do Sudeste, com contexto social muito diferente da maior parte da população, opinando.

Eu tive acesso à internet e ao computador muito tarde. Eu vivi o momento sem e com internet. Então, só em 2006 que eu passei a ter acesso e é perceptível o quanto ela proporcionou em termos de acesso a conteúdo. Assim, a partir das tuas falas, em entrevista pro Pivô, sobre Leona Vingativa e Mc Loma e as Gêmeas Lacração, eu selecionei dois vídeos a respeito de Mc Loma: o primeiro com que ela faz sucesso; o segundo, o que foi lançado no canal Kondzilla.

Eu lembro que no período em que ela lançou a segunda versão muita gente criticou, um dos motivos seria a diferença de cenários entre os dois vídeos.

Por isso, eu trago duas perguntas, uma é a respeito da romantização da pobreza – já que há dois caminhos, conforme você comentou antes, sobre colocar a TV de tubo porque era o que tinha disponível. Com isso, eu me lembro de uma obra de Caetano Costa em que ele escreve algo como: “Não foi escolha estética…”

biarritzzz: “… eu só tinha essas cores” [gargalhada].

Fernanda Maia: Então, há esse debate em torno da romantização da pobreza – porque, ao mesmo tempo em que há o lado em que as pessoas produzem com o que tem, há também o que a televisão brasileira faz constantemente, que é romantizar a pobreza: “Veja essa pessoa que não tem nada e conseguiu tudo”.

O outro questionamento em relação ao clipe de Mc Loma é em torno do enquadramento não da pobreza, exatamente, mas do que as pessoas dispõem. Então, quem é de uma certa classe social menos favorecida não pode demonstrar poder em uma classe social mais favorecida.

Logo, surge outro questionamento, sobre o enquadramento da negritude ou do não branco. Assim, voltamos para a história da Academia que falamos mais no início, em que ela se propõe a trazer pessoas de linguagem transdisciplinar, mas sempre querendo mantê-la no trilho da Academia. Então, esses três questionamentos são um só. Qual é a tua percepção? Há uma romantização da pobreza?

biarritzzz: Sim, com certeza. Existe, inclusive, o conceito de estética do precário. Algumas pessoas estudaram o trabalho da Leona e, automaticamente, é onde está também o início da Mc Loma, que é isso da estética do precário e não é uma escolha. Então, se a Mc Loma faz um trabalho em que ela almeja ser uma Anitta, a estética da laje e da bicicleta – pois ela pega carona numa bicicleta, e depois, no clipe do Kondzilla, é um carro superchique –, nada daquilo são escolhas, são consequências. Logo, a precariedade, no Brasil, fica no lugar do humor, assim como tudo aquilo que não é hegemônico. Muitas vezes, não são escolhas.

A potência do precário está no lugar de retomada, talvez, de apropriação desse lugar em que as pessoas são colocadas como comédia, se apropriarem desse lugar, a partir das novas mídias. Porque, antes delas, isso não acontecia. Se dependesse da televisão, tinha de ir pro Sudeste e tinha de estar sob a direção de um diretor ou sob a vontade de um patrocinador, anunciantes e dono da emissora.

Eu vejo esse movimento, a partir das novas mídias, de apropriação desse lugar em que o precário é colocado e, logicamente, existe uma potência nisso. Mas, claro, isso não pode cair na romantização. Por isso que eu falo que o real não é real. A Mc Loma e as Gêmeas Lacração almejam ser o que a Anitta é pra elas. Então, ao mesmo tempo, em que a realidade delas não é o real, o jogo está, justamente, nessa brincadeira, do que é o sonho e do que é a realidade.

Para não deixar passar uma coisa que a gente estava falando antes, sobre Pedagogias do meme, tem uma música em EU NÃO SOU AFROFUTURISTA que se chama “Descobrimento”. A letra da música fala: “E lá estava todo esse tempo”, “Nunca saiu daí”, “não se decide”, “Não existe descobrimento”. A letra também fala: “Por essa os livros não esperavam / Eu voltar pra elas”. Para mim, o “voltar para elas” é eu voltar para a minha avó, a minha bisavó e tataravó e perceber que eu nunca vou saber e entender toda a ciência e conhecimento que elas tinham. Porque é isso que o colonizador fez e faz.

Sobre essa questão da romantização da pobreza, eu também citaria o trabalho de Caetano “Não foi escolha estética, eu só tinha essas cores”. Ele tem um termo: “Epistemologia do deboche”. Eu acredito muito que a gente está dialogando sobre lugares muitos próximos. Então, epistemologia do deboche, quando ele fala que não foi escolha estética, é o que acontece com essa produção amadora não hegemônica que acontece no Brasil. Que é um dos maiores produtores de memes do planeta.

Tem outra coisa que eu esqueci de mencionar sobre a consciência do poder do meme: depois de fazer “Pátria”, o ano passado, eu participei de um projeto de Aslan Cabral chamado “Departameme”, no qual se apropria dessa palavra que saiu em matérias de jornal, que falava sobre um departamento dentro da candidatura do líder do MBL Kim Kataguiri (DEM). Ele tem, dentro de seu gabinete, o que foi chamado pelos jornalistas de “departameme”, que é uma equipe feita para trabalhar na produção de memes e fake news. Pois isso é algo com o qual os governos trabalham hoje em dia.

Eu não sei se as pessoas já entenderam que Trump e Bolsonaro foram eleitos assim. Não é só uma ferramenta poderosa, mas, hoje, é a ferramenta de comunicação que elege os representantes. Então, quem acha que é brincadeira, piada ou inofensivo; na verdade, os memes e as fake news são dois lados de uma mesma moeda. São as linguagens que já colocaram quem está no poder, no poder.

Fernanda Maia: Eu selecionei algumas faixas, uma delas foi “Descobrimento”, que você comentou. A outra que me chamou a atenção foi “#TUPI”, porque você faz uma mescla do som que lembra um ritmo mais indígena e uma outra camada que recorda várias colagens de rádios. A outra que achei bastante irônica, pois sou da área de Literatura, foi “Saudades do artista misterioso”, já que na Literatura tem muito dessa carga da produção misteriosa ou do leitor que não sabe interpretar um determinado poema, como se não tivesse capacidade intelectual para isso – cresci muito nesse universo.

biarritzzz: Sobre a “#TUPI” – eu assumo a produção desse remix – e faço isso através de dois programas de vídeo, os quais domino mais. Essa música é uma mistura de duas coisas: por baixo tem um toré desenvolvido digitalmente, que fiz junto com meu companheiro Henrique Falcão, que é da Jurema Sagrada, ou seja, ele cresceu dentro de uma religião que cultua os indígenas e os caboclos, e desenvolveu a musicalidade dele a partir desse lugar. Por cima sampleio uma sonoridade própria do Belém do Pará, que é a aparelhagem Tupinambá, do DJ Dinho – ou DJ Tupinambá – que é uma das maiores aparelhagens que tem lá.

Aparelhagem é a cultura das festas em que as pessoas não vão só para uma casa de show, mas para a aparelhagem daquele DJ específico. Cada DJ tem uma aparelhagem, que é um sistema de som com algum tema. Então, tem a águia, que é gigante (o Daft Punk ficaria passado, porque são grandes espaçonaves de LED). O DJ Tupinambá é a imagem de um guerreiro indígena.

Eu peguei um CD inteiro dele – tem dois, cada um de uma hora, no Youtube – e recortei todas as vezes em que uma voz fala “Tupinambá”, pois é um selo, é uma marca. Há vários músicos que cantam ali, mas sempre tem uma voz no fundo que fala: “Tuuupinambáaa!”, como uma marca d’água na música, e eu peguei todas as vezes que aparece, durante essas duas horas, a palavra “Tupinambá” e uso apenas o “Tupi”.

É engraçado isso que tu falou de que essas duas camadas têm uma musicalidade mais indígena e a outras menos. Mas, para mim, a ideia é, justamente, mostrar que essas duas musicalidades fazem parte do mesmo lugar. A musicalidade que é produzida por essa população da periferia de Belém do Pará, para mim, é tão indígena quanto o toré dançado dentro de uma aldeia. Entendendo o indígena não só como aquele que se encontra aldeado, mas toda aquela pessoa que carrega essa origem. É a grande discussão, hoje em dia. Existe indígena aldeado e em contexto urbano, e há milhões de pessoas com ascendência indígena que são apagadas. Essa é a compreensão que a gente não tem, também.

Fernanda Maia: Em algumas partes, eu não consegui ouvir, porque caiu, que foi justamente a parte do Tupinambá. Então, as gravações da palavra “Tupi” são retiradas de um álbum do DJ Tupinambá? Pensei que fossem colagens de gravações genéricas de chamadas de rádios.

biarritzzz: O índio com o celular não é menos índio. O indígena com um computador formando uma aparelhagem com uma produção musical eletrônica, ele não é menos indígena. Essa música vem desse lugar. Pra pegar essa musicalidade que vem do Belém do Pará e tem uma recepção muito forte do Recife. Essa já é uma leitura que eu faço de que esses ritmos amazônicos, em se tratando do tecnobrega e do tecnomelody, eles têm uma aceitabilidade muito forte em Recife, justamente por conta dessa memória afetiva que vem desse lugar (amazônico) daqui. Então, para me explicar melhor, quando as pessoas falam que o brega funk é uma vertente do funk (carioca), no Nordeste, eu já digo: opa, pera lá! Na verdade, não. O brega não é uma referência do Sudeste, porque vocês consideram favela tudo uma coisa só. Favela, Rio de Janeiro [pronuncia com acento anglo-saxônico], tudo uma coisa só.

Mas, o brega funk não vem do Sudeste. Ele tem uma referência do Norte, ou seja, uma referência dessas culturas amazônicas e caribenhas. Então, o Kelvis Duran, um dos grandes hits de sucesso dele são interpretações de músicas e grupos, inclusive da Colômbia e do Panamá. É a mesma musicalidade. Isso parte de entender que essa musicalidade não é só negra, mas também tem uma forte influência indígena.

Fernanda Maia: Isso. Eu me lembro de Dona Onete, em Tambor do Norte, ela fala da presença do negro e do índio na música do Pará. De fato, como você falou, há uma ligação muito forte do Pará com a gente, do Recife.

Eu ouvi EU NÃO SOU AFROFUTURISTA inteiro e a primeira faixa me deixou hipnotizada, a “INTRO”. Por causa da repetição, em que parecia que eu estava sendo jogada pra dentro do vídeo. Uma repetição, como se ele estivesse me sugando. E também a ideia de que é infinito. Na música, você até diz: “É preciso acabar com a ideia de progresso – infinito / Tudo que vai / Volta”. E, realmente, há esse jogo com a imagem, que é bastante cíclica, meio oroboro.

39min33seg

biarritzzz: Acaba que é própria estética do GIF. Como ele é um arquivo muito mais leve do que o vídeo, é mais curto e não tem áudio. Então, ele fica repetindo no background, por isso tem essa característica que acaba sendo hipnótica, porque eu trabalho muito com essa estética até quando eu faço VJ. Inclusive, os softwares de VJs são feitos para utilizar arquivos de vídeo, e o vídeo ainda carrega bastante essa coisa do filme, da narrativa linear. Eu trago muito a perspectiva do GIF, que está muito mais para a animação e para o abstrato do que para uma visão linear e fílmica.

Fernanda Maia: As faixas de EU NÃO SOU AFROFUTURISTA, todas tu entende como música?

biarritzzz: Eu distingo as faixas que são música e as que são… não sei se arte sonora. Porque, como eu estava te dizendo, até tecnicamente falando, eu não utilizo programa de música e nem sou musicista. Então, a faixa “#TUPI” é uma colagem e a “INTRO” também. Eu me utilizo de uma base musical. Assim, a faixa que utilizo por baixo da “INTRO” é uma música produzida pelo Novíssimo Edgar, e a “#TUPI” é o toré eletrônico que o Henrique Falcão fez. Eu acho que vai pra uma pegada de arte sonora mesmo, pois entendo a música como uma técnica específica. Talvez pra me colocar nesse lugar de uma pessoa que está experimentando, assumidamente sendo de fora.

Fernanda Maia: Eu percebi essa divisão em algumas dessas faixas. Mas eu tenho tendência a ouvir como música, como álbum. Ao mesmo tempo, fiquei também assistindo as projeções das faixas. Uma outra faixa que me chamou a atenção, consegui compreender algumas críticas, mas estou por fora de alguns termos, como na faixa “B.I.A. – [email protected] feat. Mun Há e Deize Tigrona” em que eu não consegui captar a expressão “[email protected]”.

44min02seg

biarritzzz: Eu acabo falando mais da técnica do que do conceito, mas as imagens que passam durante a “INTRO” falam justamente desse lugar do futuro atrelado a um progresso e a um desenvolvimentismo e, tudo isso, ligado a um movimento colonial de destruição e genocídio.

Então, ainda sobre a faixa “INTRO”, dentre as imagens que ficam passando, há um gráfico com o mapa-múndi que acompanha o tráfico negreiro da África pra América. Isso tudo, bem rápido. Essa imagem passa, depois tem a do filme Pantera Negra [risos] de uma nave chegando em Wakanda. Depois passa uma imagem de um gráfico genérico de empresa em que uma seta vai subindo.

Tudo dentro desse lugar da linearidade, do progresso que vai e só sobe para um lugar apenas. Que é por onde anda todo o pensamento ocidental cartesiano. Essa linha reta, que eu interpreto, também, como uma metáfora visual do que é o genocídio e a destruição.

Fernanda Maia: Você até faz uma crítica sobre a noção linear do tempo.

biarritzzz: Isso. Justamente. Dentro dessa minha inquietação em relação ao que seria esse futurismo, eu parto do lugar de que os conceitos com os quais eu estou dialogando não são do pensamento cronológico ocidental.

Então, essa linearidade, essa linha reta que só vai pra frente, só sobre, não tem nada a ver com o pensamento dos povos originários, tanto de América quanto de África – não posso falar de outros lugares – mas que entendem o tempo como um movimento circular e espiralar. Assim, falar de futuro fica parecendo que é um distanciamento do presente e do passado, como se fossem coisas dissociadas.

Na verdade, quanto mais falamos do presente, mais falamos do futuro. Quanto mais falamos do passado, mais falamos do futuro. Também acaba sendo uma crítica ao conceito de tempo ocidental. Entendendo “ocidental” como branco e colonial que vem do deus grego Cronos.

Fernanda Maia: É possível perceber essa repetição e infinitude na faixa “INTRO”.

48min27seg

biarritzzz: Na faixa “B.I.A. – [email protected] feat. Mun Há e Deize Tigrona”, “[email protected]” são os artigos de neutralidade de gênero da internet. Ou seja, é uma variação linguística que surgiu na última década para dar conta das diferentes dissidências de gênero. Então, encontramos palavras que substituem o “a” ou o “o” para o “e”, que seria um gênero neutro, isto é, nem meninA, nem meninO. Há também o “x”, nessa mesma grafia, substituindo o “a” ou o “o”. E há também o “@” que é a letra “a” dentro da letra “o”. Existe também uma discussão de que nem todos esses três artigos seriam acessíveis. Principalmente para pessoas cegas ou de baixa visão que utilizam aplicativos para leitura e ainda não compreendem o uso do “x” ou do “@” no meio da palavra. Então, tem várias discussões que, para mim, significam que os dispositivos e os programas, assim como quem está por trás deles, é que precisam acompanhar a linguagem que sempre muda, e não o contrário.


[1]Aqui houve um erro de colocação. A ideia era falar “branco-futurista”, como posteriormente biarritzzz observou corretamente.

[2]A entrevista sofreu cortes durante a gravação, por isso algumas partes dela não foram transcritas.

Entrevista originalmente publicada na edição 15, ano V, outubro de 2020, da revista Outros Críticos, com o tema Políticas do som e imagem. Acesse a edição na íntegra:

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Fernanda Maia Escrito por:

Professora e doutoranda em Letras, na UFPE, na linha de pesquisa de Literatura e Intersemiose. Designer do Outros Críticos, cuida dos projetos gráficos das publicações, coletâneas, material de divulgação e site.

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