entrevista: Bruno Nogueira

 photo Bruno-Nogueira-1024x682_zps69711b66.jpg
AESO/Barros Melo/Divulgação

A nossa conversa com o jornalista, produtor e crítico musical Bruno Nogueira, partiu de suas experiências anteriores como crítico na imprensa local. A partir disso, os temas que circundam a indústria cultural, internet, crítica cultural e consumo de música também entraram em pauta, bem como a tese de doutorado “GoWith The Flow”: a nova crítica de música a partir do fluxo fragmentado de mensagens nos sites de redes sociais,  em Comunicação e Cultura Contemporânea, que o autor realizou na Faculdade de Comunicação, Universidade Federal da Bahia.

por Carlos Gomes.

A tese defendida em seu doutorado é – de certa forma – resultado de pesquisas anteriores sobre a crítica musical. Como a soma das pesquisas e experiências com o trabalho como crítico musical te levou à decisão de aprofundar-se nesse tema?

É uma inquietação antiga. Eu saí da faculdade direto para trabalhar com crítica de música na Folha de Pernambuco, após ter estagiado no Jornal do Commercio. Naquela época, senti necessidade de procurar um diferencial para o que eu fazia em relação aos outros jornais e a resposta veio na forma de uma especialização na UFPE em Jornalismo e Crítica Cultural.

Naquela pós eu já tinha feito uma monografia que ensaiava um pouco esse tema: como a internet transformou a crítica de música. Tentei levar essa ideia para o mestrado, mas acabei pesquisando sobre a transformação na indústria da música como um todo. Sempre foi algo que fui fazendo paralelamente, então – escrevendo crítica/fazendo pesquisa.

Ter esperado foi bom. Porque no doutorado cheguei para pesquisar sobre o tema tendo feito isso também em outras revistas, alguns sites etc. Já tinha amadurecido um pouco mais uma vivência que foi importante para pensar os problemas de pesquisa. Por outro lado, foi perigoso porque corria o risco constante de fazer uma pesquisa “viciada” nessas vivências. Por isso também escolhi parar de escrever enquanto estava no doutorado.

 photo capa_zps12e6d705.jpg
Design de capa por George Frizzo.

Em Reação em cadeia – Transformações na indústria da música no Brasil após a internet, seu trabalho de mestrado que você brevemente publicará, houve cruzamento entre as suas pesquisas acadêmicas, a crítica musica na mídia impressa que você escrevia e a manutenção do site Pop Up?

Não. O livro não fala tanto sobre crítica. Ele apresenta algumas considerações mais teóricas referentes à necessidade de atualizar o conceito de indústria cultural – apresentando alguns autores ainda pouco populares no Brasil – e especificamente com a compreensão da dimensão da cadeia produtiva da música. Existe uma ênfase maior no que diz respeito sobre como a música demanda dispositivos de sociabilidade para sobreviver na internet. Tem um pouco – bem pouco – sobre crítica. O que tem – e isso tem bastante – é um conteúdo que surge e se desenvolve a partir do meu trabalho na crítica. Principalmente no que diz respeito ao mercado independente. O livro fala de um mercado independente de música que, na verdade, é bem próximo da realidade que eu escrevia e estou conectado. Como os festivais da Abrafin, o Fora do Eixo, as listas de discussão e fóruns da internet.

Uma das principais críticas à mídia impressa é a falta de espaço para uma crítica cultural mais aprofundada. No entanto, os sites e blogs, de um modo geral, não são reproduções do que é feito na mídia mais tradicional? Os sites e blogs de música usam muito pouco da liberdade editorial que se pressupõe que tenham?

Os principais blogs de música, no Brasil, são de jornalistas que escrevem em jornais e revistas. Por isso não tem mesmo muita diferença. Minha tese fala da possibilidade de uma crítica musical transmídia, que se costura entre os sites de redes sociais como o Twitter, alguns blogs, o que saí na mídia tradicional, mas que é percebido coletivamente para as pessoas que fazem parte de uma determinada comunidade de conhecimento.

Quem frequenta uma comunidade como a Metal PE, por exemplo, está atento ao que Wilfred Gadelha escreve no jornal impresso, mas também no que ele fala no grupo, publica no Twitter, publica em forma de pesquisa e vídeo. Essa seria uma forma diferente – e, até onde minha pesquisa consegue demonstrar – eficiente de identificar algo que poderíamos enxergar como uma nova crítica.

Na forma discursiva tradicional – textos, mesmo que em blogs – acredito que a crítica vá seguir sempre um mesmo modelo. Esse que é herdado pela imprensa tradicional e que ainda tem uma função importante e seu lugar na cadeia produtiva da música.

 photo HenryJenkins_zps44d11b53.jpg
Henry Jenkins é autor de “Cultura da Convergência” (2009). Conheça mais sobre o autor em: www.henryjenkins.org

Mas como você fala, a “possibilidade de uma crítica musical transmídia” de alguma forma poderia enriquecer os modelos da crítica musical?

Acho que é algo complementar a experiência musical como um todo e não apenas a crítica de música. A crítica, e isso é algo importante a ser pontuado, é algo que importa muito pouco a muito pouca gente. É uma minoria que, além de ouvir, vai ler e, de fato, se importa com o que leu sobre determinada canção. Existem experiências e experiências a partir de uma música.

Tem aquele cara que é entendido de música eletrônica e ao ouvir “Get Lucky”, do Daft Punk, vai falar e discutir sobre o gênero e o contexto atual dessa produção com outro amigo. Vai ter aquele que não está nem aí para isso, mas quer saber se vai tocar ou não ela na festa. E tem aquele cara que vai e talvez nem dance, mas leu tudo sobre o Daft Punk, conhece toda a narrativa da banda, e vai levar o que está na crítica para a outra esfera de debate. Cada uma dessas experiências tem seus próprios objetivos.

A narrativa transmídia, conceito apropriado e difundido por Jenkins, valoriza a percepção de comunidades de conhecimento (por sua vez uma ideia de Pierre Lévy). E é nesse ponto que a crítica transmídia tem seu valor: por evidenciar a existência dessa comunidade e o impacto dela em um consumo afetivo e diferenciado do produto em questão. Algo que vai se conectar diretamente com que autores mais ligados à crítica, como Simon Frith, falavam antes da popularização da internet doméstica: a crítica tem uma importante função de formação da identidade de uma comunidade de conhecimento.

“Não acredito que a imprensa tradicional seja o lugar de teorias sobre a crítica. Mas, mais importante, não vejo crítica sendo feita na imprensa tradicional.”

Mesmo reconhecendo a importância da imprensa tradicional, não percebe nas pautas – e no próprio texto – um engessamento crítico e teórico?

Não. Para ter um engessamento seria necessário antes ter alguma teoria e alguma crítica. Não acredito que a imprensa tradicional seja o lugar de teorias sobre a crítica. Mas, mais importante, não vejo crítica sendo feita na imprensa tradicional. E não falo de uma crítica teoricamente embasada ou crítica a partir de tal ou tal entendimento. Falo de pura e simples opinião. Por que é bom?

No geral, não existe reflexão em nenhuma área de cultura no que é publicado na imprensa hoje (estou sendo propositalmente generalista para provar meu ponto aqui). É um misto de reprodução do que é enviado pelas assessorias de imprensa, do que pode ser vantajoso para o jornal (desafio qualquer veículo recusar 100% dos CDs enviados a redação e publicar única e exclusivamente garimpagem feita pelo repórter/crítico) durante um ano inteiro, e o que de fato interessa ao universo de gosto de quem está escrevendo (onde encontraremos, de fato, alguma apuração/garimpagem real).

Considerando essa situação, se tivéssemos uma crítica engessada, mas que fosse acima de tudo uma crítica, seria algo muito melhor.

O valor cultural e o acesso a uma obra – seja ela musical ou não – está fadado a ter audições menores e cada vez mais fragmentadas? Esse é um resultado da indústria cultural pós-internet?

Sim, mas isso não é algo bom? Estamos nos separando do modelo massivo de consumo com cada vez mais sucesso. Quando o mundo ainda estava em guerra, o modelo da indústria cultural foi uma das coisas mais criticadas por teóricos como os da escola de Frankfurt. Afinal, trata-se – segundo eles – de uma padronização da sociedade a partir do que ela consome. Algo que concordo em parte, já que conseguimos delimitar com muita facilidade grupos sociais a partir do que eles consomem culturalmente.

André Lemos e Pierre Lévy falam que vivemos hoje uma cultura que tem o luxo da escolha. Eu gosto dessa linha de raciocínio. É a mesma lógica por trás da Cauda Longa e do mercado de nicho proposto por Chris Anderson. Temos um excesso de produção, mas que terá uma recepção fragmentada. Ou seja, teremos que repensar a própria função dos intermediários e filtros de produtos culturais com a crítica.

Sendo assim, em longo prazo, a falta de reflexão sobre os produtos culturais lançados criará um público cada vez mais sedento por consumir as novidades do mercado, sem propriamente refletir sobre suas escolhas, estabelecer relações estéticas ou de tempo e espaço entre as obras etc?

Consumo não é uma atitude racional. Nunca foi. Não é uma consequência (pós) moderna da condição imposta pela falta de reflexão. “Fazemos trabalhos que odiamos para comprar porcarias que não precisamos” ou “escolha uma grande televisão, escolha maquinas de lavar, carros, discos e abridores elétricos de latas”. Se você for ser racional sobre essas coisas ou vira um hippie ou uma dessas pessoas que “comemora o natal em setembro, quando não é super comercializado”.

Isso não é algo ruim. Consumimos (qualquer tipo de música) para extravasar diversos sentimentos e necessidades, muitas delas reprimidas. Gostamos quando pagamos caro por algo incrivelmente inútil. Eu paguei R$ 300 numa caixa de CDs do Radiohead, por exemplo. Tem gente que paga o dobro disso num único vinil e não tem uma relação estética ou coisa do tipo nisso. Apenas nossa vontade de gastar o dinheiro de nosso trabalho com coisas que nós gostamos.

 photo 40406b5d-6312-4760-af3c-5d0dfc016220_zpsc9fd0f5f.jpg

Refletir para consumir, por si só, é uma atitude contraditória. Refletimos se vamos comprar tal ou qual livro, mas livros não são algo que de fato temos necessidade para sobreviver. Assim como discos ou filmes. Ou roupas de determinada marca etc. Como disse, se levarmos essa “reflexão” adiante, viraremos um monte de hippongas.

Já sobre “estabelecer relações estéticas ou de tempo e espaço entre as obras”, isso também não é algo que cabe à crítica. Relações estéticas estão muito mais ligadas a um momento do “aqui agora” do consumo do que uma reflexão sobre isso. A gente começa a gostar de um tipo de música influenciado por um grupo de amigos, pelos pais, por uma namorada (ou por uma garota que queremos que seja nossa namorada). Desconheço alguém que vá afirmar “comecei a curtir reggae por causa da crítica”.

Falei do reggae propositalmente, porque a crítica quase sempre se destina a específicos gêneros musicais. Não existe crítica de música gospel, nem de reggae, nem de música infantil, por exemplo. Seria equivocado pensar “crítica de música” como um guarda-chuva para tudo que se faz na vida no campo da música. Por isso não temos como estabelecer uma relação estética.

A crítica (escrever e ler ela) faz parte de uma prática social associada a determinados gêneros. Como o indie rock, por exemplo, ou como a MPB. Algumas pessoas, quando passam a se envolver – como fãs, principalmente – com esses gêneros, passam a ler e escrever sobre isso. É algo complementar, mas nunca (nunca) maior que ação de ouvir e gostar de música em si. E são para essas poucas pessoas que a crítica faz diferença, vale lembrar. Só para elas.

O mesmo serve para a relação com o tempo e o espaço. Centenas de motivos aleatórios, que estão totalmente distantes do “poder da crítica”, vão nos fazer gostar de músicas mais antigas ou de outros lugares. Assim como termos ou não uma relação com a música que é produzida hoje em nossa cidade. Veja quanto a crítica sempre ovacionou uma “nova cena independente da música brasileira” e veja, em termos de consumo tradicional, como essa nova cena não chegou a lugar nenhum. Que artista surgido em 2004 nós conseguimos manter em 2013? E nem digo fazer sucesso… mas simplesmente manter tocando e fazendo a mesma coisa da mesma forma? Se tinha algo que eles tinham de certeza era uma crítica partidária a sua causa.

“Acho que a internet se transformou exatamente naquilo que se imaginava: um espaço propício para nova formação
de comunidades e construção de uma inteligência coletiva emancipado da mídia de massa.”

Do que se imaginava ser a internet uma forma de aproximação de extremos, sem a reflexão, tornar-se-á uma multiplicação de nichos que não dialogam entre si?

Acho que a internet se transformou exatamente naquilo que se imaginava: um espaço propício para nova formação de comunidades e construção de uma inteligência coletiva emancipado da mídia de massa. Isso serve para qualquer área, não somente a da música. Antigamente existia muito menos crítica, muito menos vozes ativas e qualquer reflexão sendo feita. Principalmente porque não precisamos de uma iniciativa institucional para isso… As pessoas estão fazendo isso no Facebook, no Twitter, no Instagram, em seus blogs, podcasts, videocasts etc.

É um erro pensar que não existem diálogos entre os nichos, porque os diálogos são evidentes. Uma parte importante desses diálogos está nas próprias práticas sociais. Em 2001 se achava que baixar MP3 e ouvir a música em iPod era uma prática de uma cena específica que ouvia rock de forte influência britânica, mas se baixa música e se escuta música da mesma forma hoje no pagode e no forró eletrônico. Todos escutam música no YouTube, enquanto antigamente nem todo mundo se sentia contemplado de ouvir música no rádio. Existe um diálogo aí. Esse diálogo da prática social tem deixado a própria ideia de nicho mais confusa e cinzenta. É cada vez mais difícil olhar para um jovem e identificar que tipo de música ele escuta – a que nicho ele pertence – ou mesmo se ele se enquadra assim. Quando eu era aluno de faculdade, eu escutava um tipo de música e não admitia quem escutasse outro tipo. Hoje, meus alunos na faculdade escutam aquele mesmo tipo de música que eu ouvia, mas também curtem os que eu não admitia. Eles ouvem heavy metal, mas vão para a rave de psytrance, curtem Queens of the Stone Age, mas também dançam e curtem Naldo.

Consumo de música é o extrato puro da cultura jovem. E, entre os jovens, existem infinitos diálogos entre os nichos hoje em dia. Difícil é fazer um evento que vá se destinar a um único nicho hoje em dia. É muito importante lembrar que, ao falar do que se esperava da internet, muito mais que um diálogo aberto entre gêneros musicais, precisamos falar de um ambiente para interatividade e participação do público. Hoje temos o público participando ativamente, transformando a própria prática musical hoje. Se antes o cara curtia heavy metal e fazia airguitar, hoje o fã de Justin Bieber grava seu próprio videoclipe e joga no Youtube e em um mês supera um milhão de visualizações do vídeo. Tudo isso é parte fundamental da sociabilidade potencializada pela internet. E isso era algo que se esperava – muito – que esse ambiente fosse proporcionar e que superou todas as expectativas.

 

Publicada originalmente na revista pq? – ed. 05

Arte de capa: PLN 5 (1969), de Vladimir Bonacic.

Categorias

Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

seja o primeiro a comentar

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

    Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.