entrevista: Aninha Martins

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Foto: Renata Pires

por Carlos Gomes.

O impacto que é assistir aos shows de Aninha Martins, sua expressividade, a naturalidade com que se arrisca ao cantar, doando-se sem medida num metro de palco rodeado de barulho que seja, ou no mais profundo silêncio daqueles que esperam da música uma revelação, tem na expressão catártica que emana das vozes do corpo dela, um dos muitos sentidos a que podemos atribuir, sem medo, do que seja a arte. A conversa que tive com ela me revela o quanto há de vontade inata na busca pessoal e autêntica de seu caminho. No entanto, são tantas as possibilidades de caminhada, que fica o receio de que ela, de alguma forma, se perca. Mas desconfio que em 2014 o talento de Aninha a levará a palcos bem maiores, com espaço suficiente para “cantar somente o que não pode se calar”.

Relembrando os teus trabalhos musicais anteriores, no caminho que você fez até chegar aqui, estando prestes a gravar as tuas primeiras músicas com a assinatura Aninha Martins. Teve algum momento ou projeto que foi decisivo pra esse momento que você passa agora? Sim. Pelas várias experiências, na verdade. Primeiro o Sabiá Sensível, que foi bem libertador pra mim. Porque eu era muito tímida. Então, tinha a energia do povo (músicos da Sabiá) que era muito pra cima, e eu acabei gostando da linha de pensamento. De ter o erro na brincadeira, de ser livre para cantar como eu quero. Ser uma coisa animada, rock’n’roll, e muito canção. E os dois projetos que eu participei e que mais me representaram foram D Mingus e Matheus Mota. Matheus me deu a escola de cantar músicas com dificuldade. Depois do Conservatório de Música é que eu comecei a pensar nas músicas com dificuldade. Mas também foi decisivo porque é meio preso. E eu preciso soltar mais, sabe? É tanto que a gente acaba mesclando, porque Matheus é mais introspectivo e eu mais solta. Da mesma forma com D Mingus, que também foi ótimo, porque eu conheci o povo (novos músicos). E também vi a diferença de ele ser bem introspectivo e eu pra fora. Eu tenho medo também, sinto um pouco de receio de aparecer demais. Foi decisivo para eu assinar com o meu nome porque eu gosto de expansão total, já sei disso, e eu preciso desenvolver essa linguagem mesmo. E também pegar a vibe da canção mesmo. Eu quero dizer as palavras mesmo e quero que as pessoas entendam o que está sendo cantado, não por nada mesmo, sem crítica, sem nada, mas…

Você acha que esse é o momento certo de lançar o primeiro disco? Ou pensou em aguardar, continuar mais um tempo com D Mingus e Matheus? Com D Mingus eu já não estou mais, a Kazoo Orquestra, onde eu tocava, deu uma parada pra entrar o projeto eletrônico dele, o Fricção. Mas eu vou continuar com Matheus porque ele me bota num outro lugar. Que é exatamente o da dificuldade da canção. Da estrutura musical mesmo. Foi como uma escola pra mim. É complicado cantar o que ele faz, e agora ele já pensa mais em fazer pro meu tom. Fazer pensando em mim. Eu peguei as canções que ele pensava com a facilidade dele. Então, era muito complicado pra mim, para cantar. Eu tive que aprender corporalmente a cantar isso. Era muito agudo, muito grave. Com Matheus eu vou continuar, D Mingus deu essa pausa, o Sabiá acabou. Tiveram os outros projetos que eu participei, o Malvados Azuis, mas foram curtos.Como será o repertório do primeiro trabalho? Está decidido ser um EP mesmo, um disco? Vai ser um EP. Podemos pensar num EP, mas não sei se no formato cinco músicas, pode até ser sete. Mas não vai passar de sete músicas, vai ser um micro-disco (risos). Não sei se isso existe… Um disquinho (risos). Depende de minha condição financeira, porque quero fazer no estúdio, certinho. Então, você não fechou o repertório ainda? Não, mas eu já tenho algumas músicas. “Faz ideia” vai entrar. “Sábio Satanás”…

Quais são os compositores que estarão nesse primeiro trabalho? Os principais para essa tua estreia. Vai ter a minha parceria com Vina. Ele com certeza como arranjador. As músicas que vão aparecer são minhas e dele. Karla Linck, que também participou do Sabiá, Germano Rabello e Hugo Coutinho, que tem “Faz ideia”. Pronto, são esses quatro.

Com eles, você trabalha mais ligada à letra, melodia, como é sua participação? Vina ele entregava a melodia pronta, entregava uma música instrumental. Me deu de presente esta: “Depende da letra”, que é uma música que Karla e eu fizemos, porque ele me deu a música feita, instrumental, e mostrou pra Karla, aí eu fiz a letra e ela também, aí acabou juntando. A gente também se encontrava pra ficar compondo. Eu fazia aula de reforço com ele, de Teoria Musical, quando eu queria entrar no Conservatório. Aí ele dizia: “Traz melodias para a gente solfejar”. Aí eu trazia. “Pô, isso aqui…” (solfeja uma melodia) “Oxe, é uma música, vamo fazer?”. Aí a gente fazia. Que era mais canção mesmo. Ele trabalha na parte da música mesmo. Você ainda estuda lá? Não, não estava dando pra conciliar com as outras coisas. A faculdade de Filosofia também. Eu estudava canto popular. Eu também cansei um pouco. O professor era de lírico, então, ele não conhecia nada de música popular. E foi na hora que eu mergulhei na música popular brasileira, que eu pesquisei bastante. Daí esgotou, porque eu tinha que levar o material para ele ouvir. “Ó, isso aqui é uma gravação de Rpm da Casa Edison”. Ele não sabia o que era e não tinha o que dialogar. Ele me dava a técnica. Pronto, eu parei de cantar com dor. Ele me ajudou nisso. Quando eu cantava no Sabiá eu ficava com muita dor na garganta. Não sei se é porque eu precisava soltar alguma coisa. E agora eu não sou tão tímida quanto era antes.

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Foto: Renata Pires

Nos seus shows, o canto cumpre quase que uma função de catarse artística, explosiva, e extrapola, algumas vezes, o teu próprio limite vocal. Você chega a terminar os shows com a voz rouca, né? A maturidade no canto é tentar um equilíbrio entre a técnica e a emoção? Acha que naturalmente vai conseguir atingir essa maturidade? Eu tento… Eu quero atingir isso. Mas eu estou pesquisando uma linha vocal da galera do teatro Lume. Que eu fui tão técnica no Conservatório… Tipo: cantar baixinho, cantar… E agora que eu fiz uma oficina com Carlos Simeone, do Lume, aí ele deu uma outra noção de voz, que é a voz corporal. Em que a energia vocal sai por todo o corpo. E como eu não tenho essa maturidade de colocar a voz inteira no corpo. Pode ser que eu queria atingir isso…

Nessa relação entre performance, corpo e voz, a tua atuação com o teatro tem interferido de que maneira? Exatamente depois que eu descobri essa nova linha de se fazer, de se poder cantar, botar as energias para os membros e que eles se expandam de uma forma… Eu queria crescer nisso, tanto que eu queria fazer projetos de pesquisa. Eu não queria fazer projetos pra gravar discos, essas coisas assim. Porque a minha grande história é o palco, né? Eu quero ir pro palco, eu quero formar espetáculos, na verdade. Que eles caibam teatralmente. É tanto que eu estou com uns projetos de monólogos musicais. Mas é uma história mais pra frente. Eu quero buscar uma maturidade para que eu não morra, crie um calo na minha voz (risos).

Como é o seu diálogo com os músicos sobre essas coisas que você está pensando, como a pesquisa do canto com o corpo. Como eles reagem a isso? É bem difícil… Eu não sei se é difícil, porque é outra vibe. Eu não sei se eles não conseguem acessar as coisas que eu estou acessando. Eu treino três, duas vezes na semana o corpo com Marina Duarte, de forma intensa. A gente treina energia. Que é uma coisa bem ligada ao corpo mesmo. Eu acho que é a dificuldade mesmo de entender, sabe? É essa minha necessidade de explodir, de dar tudo… Quando o lugar do ensaio é pequeno, eu fico claustrofóbica. É tanto que lá no Boratcho eu fiquei muito incomodada com o aperto. O povo fica dissociando, pensando que voz só sai da garganta e não, tem todo um entendimento… Qual a região que eu quero projetar? Eu também estou trabalhando, não sou expert nisso, mas agora eu já penso de outra forma na voz. No Conservatório eu era muito técnica, era só uma linha. E agora, nessa vibe que eu estou fazendo é o corpo inteiro.

Então, o seu primeiro disco sendo guiado pelos shows, com a relação entre voz e performance ao vivo muito presente em teu trabalho. Como você pensa em resolver esse problema para gravar em estúdio? Exatamente. Esse é o meu grande problema com a gravação, por isso é que eu acho que estou levando tanto tempo pra gravar mesmo. Pra mim é muito difícil fechar esse conceito, já que no show eu posso ser muito plural, eu posso cantar qualquer coisa, e posso errar… Mas eu sinto que eu deva gravar porque eu acho que o momento está bem propício. E está bem acessível, tá vindo um monte de coisa. Um monte de gente me mandando coisas.

Você pensa o disco como um portfólio para você fazer o que mais gosta, que é tocar ao vivo, ou também pensa o disco como uma obra artística? É uma obra artística também, mas está vinculado à possibilidade de eu me apresentar em outros lugares. Mas, ao mesmo tempo, eu estou fechando uma história, um conceitozinho, que pode ser EP ou disco, mas vai fechar nessa cara. É tanto que eu quero trabalhar outras coisas depois. Trabalhar música brasileira, ritmos brasileiros antigos com outras linguagens, eletrônica, pode ser… Não sei. Esse formato será rock’n’roll interpretativo. Bem catártico, essa vai ser a linguagem. Já tem uns cinco discos prontos, esse vai ser o primeiro (risos). (risos) É… Eu tenho vários pensamentos. Não sei se eu ponho umas canções mais lentas. Mas eu acho que vai ser da vibe mais agitada mesmo.

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Show de Isaar e Aninha Martins no lançamento da 1ª edição da revista Outros Críticos. Foto: Renata Pires

Você gravou duas músicas com Isaar dentro do projeto Dois Sons, do site Outros Críticos. Fala um pouco de como conheceu as músicas dela. Eu conheci Isaar no Ensino Médio, quando Anaíra (Sabiá Sensível) era muito amiga de Isaar. E ela tinha me emprestado um disco do Comadre Florzinha. E eu tava nessa época em músicas populares, regionais, então, eu viajei bastante. Aí acabei comprando o Azul Claro (2006) quando ela lançou. E foi um disco que eu ouvi bastante. E quando eu vi a música “Azul Claro”, de Paulinho do Amparo, e ele gravou Sabiá Sensível. Foi essa conexão. E eu acabei gostando muito, eu até queria que ela autografasse o meu disco (risos). Eu conheci Isaar nessa época mesmo.

O que pensa a respeito sobre cenas musicais? Como você enxerga uma cena musical? E daí você pode falar: cena Beto é uma cena musical, um coletivo de artistas? Um grupo de amigos fazendo música… O que você pensa a respeito sobre a ideia de cena? A minha vivência com essa “cena”… Acho que é um monte de gente que faz música e se junta pra tentar ocupar espaços. Essa é a cena Beto ou a tua ideia de cena musical? A minha ideia de cena é essa porque eu “vivo” dessa forma. Eu nunca li nada a respeito sobre isso, eu sei que há vários teóricos sobre cenas musicais, mas eu nunca li nada a respeito. Eu acredito que a cena Beto seja um coletivo de pessoas amigas – é bem ignorante isso que eu estou dizendo, mas é realmente o que eu vivo – que se juntam para fazer música. Não precisa nem ser amigo, mas se juntam para ter a oportunidade de tocar. Abrir espaços. Porque é tão difícil depender dos veículos do Estado. A temporada Beto no Boratcho cumpriu esse papel, ou o que tu esperavas que ela cumprisse? Ela cumpriu no sentido de ocupar um novo espaço na Zona Sul, que a gente nunca foi… Eu nunca toquei lá. Mas eu acho… Eu nem queria comentar sobre isso… Sei lá, foi meio às pressas, eu senti. A gente podia ter pensando melhor com relação a isso. Algumas vezes foram equivocadas, meio caóticas. As edições, você tá falando? É, as edições. Eu acho que realmente não é aquilo. É mais não é. A gente podia pensar mais, elaborar mais. Ter um compromisso mesmo com o público. O ouvinte. Um som melhor, talvez. Você acha que ficou só na ocupação de espaço e a música em segundo plano? É. Um pouco, um pouco. Foi todo mundo muito verdadeiro. Todo mundo na intenção de fazer uma coisa massa. Mas acho que poderíamos esperar mais. Uma pressa louca nossa de tocar. Pode até ser que seja isso.

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Foto: Renata Pires

O lançamento do disco solo e a colaboração na banda de Matheus Mota serão os seus principais projetos para 2014? Sim, serão os dois principais. A tua ideia é continuar nesses agrupamentos, por exemplo, ter uma nova temporada Beto e você também estar lá? Ou você pensa em circular mais como Aninha Martins, independente de grupo ou coletivo? Eu quero rodar, tocar em alguns lugares. Mas não precisa ser em todos lugares. Preciso que respeitem a minha proposta de palco. Que seja amplo para eu poder dar realmente o que eu posso dar. E também queria trabalhar com outros músicos. E ter a minha banda, formar mesmo. Porque saiu o baixista e entrou outro. Então, a gente está organizando novamente tudo. Eu queria trabalhar também com outros músicos. Os meninos da Rua, que eu conheci agora. Mateus Alves, Chambaril. Queria também conhecer novas pessoas que trabalham com música, pra não ficar só presa à cena Beto, mesmo amando e sendo todos meus amigos. Eu também quero descobrir novas linguagens musicais. No meu projeto, eu quero passear, dar uma rodadinha. Vamos ver como a gente consegue.

Durante a produção do disco você vai continuar fazendo shows? A ideia é conciliar os dois? Sim. Não vou poder parar. Agora estou querendo buscar, realmente, esse amadurecimento cênico, mesmo. De espetáculo. Não posso mais parar. Tanto que estou me preparando para isso, pois, para a linguagem que estou tentando desenvolver, eu preciso muito de fôlego. Então, eu tenho que treinar, estudar voz, trabalhar o corpo mesmo. Eu quero bem libertador. Que eu saia com a sensação que eu me doei bastante. Eu tinha muito uma sensação – de quando eu era backing vocal – sempre, que faltou muito. Que eu poderia ter dado muito mais. Agora, eu quero sair com a sensação de me esgotar. Depois eu durmo, descanso e retorno.

Publicado originalmente em janeiro de 2014, na 1ª edição da revista Outros Críticos.

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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