entrevista: Alessandra Leão

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Foto: Tiago Lima Arte: Vânia Medeiros

por Carlos Gomes.

Os olhos estão cada vez mais negros. Escutar é fitá-los sem receio deles nos atravessarem. A voz concentra e expande um punhado de palavras e imagens como rebentação. Estar em seu contato é saber-se perto do precipício. Como de costume, a cantora, compositora e percussionista Alessandra Leão envolve o ouvinte num emaranhando de referências vivas e estimulantemente passíveis de manipulação, não no sentido de pejorativo do termo, mas como matéria-prima para a criação. É ela mesma o seu fio de novelo estético a encarar tradições sem deixar cair do pulso a meada que é a sua própria trajetória. As cinco canções de Pedra de Sal desnudam suas angústias porque também são as nossas. Canções como poemas a aprofundar suas energias naquele instante mínimo que se desdobra a perder de vista. Apesar das verticalidades que nos cercam e oprimem, a “música de rua” de Alessandra continua à vista do mundo pela própria capacidade que ela tem de reinventar o seu lugar. É desse desejo que ela é feita.

“Sou cantora. Demorei pra assumir isso, não pra cantar, mas pra assumir: sou cantora”. Em que medida se reconhecer como “cantora” é também assumir uma postura para a voz e canto que passem longe da estereotipada categoria e suas limitações do termo, sobretudo quando acompanhado de “brasileira”? Tendo a não me interessar muito pela cópia, pelo igual. Me motiva e me instiga muito mais o que cada um tem de singular. Adoro ouvir uma música e saber quem está ali, cantando e tocando, adoro perceber também a maneira como alguns artistas conseguem se reinventar e se transformar ao longo do tempo. É isso que busco pra mim. Gosto muito mais se alguém que “tem algo a dizer” do que se diz corretamente do ponto de vista técnico. O que não quer dizer que não ache a técnica importante, mas não gosto quando sinto que ela se sobrepôs à arte porque, no final, isso é “apenas” uma ferramenta que lhe auxilia a realizar o que começa no plano das ideias. Lembrando ainda que existem muitas técnicas diferentes, cada uma criada a partir das necessidade de uma determinada situação ou de um ambiente. As técnicas acadêmicas representam apenas um entre os diversos conjuntos de ferramentas disponíveis. Penso na voz como um instrumento que está à serviço da música, assim como todos os outros. Claro que por, normalmente, carregar a palavra junto da melodia, atentamos mais pra voz a ponto de considerá-la o principal numa música, mas penso que ela deva estar tão clara quanto qualquer outro elemento do arranjo.

Assumir internamente a função de cantora tem me ajudado a prestar mais atenção em como vinha usando a voz e, principalmente, em como quero usá-la. Comecei a fazer aula de canto com Sandra Ximenez esse ano e pedi pra ela que direcionasse nossos encontros para questões específicas que acho que preciso desenvolver. Sandra, além de cantora, é uma grande professora e conhece muito profundamente tanto do universo musical de onde venho e também da parte técnica que sinto que preciso desenvolver. Mais do que tudo, esses encontros tem sido importantes para a experimentação. Outra coisa fundamental que tem me ajudado no uso da voz, tem sido o trabalho que venho desenvolvendo com Luciana Lyra (atriz e dramaturga), nos últimos dois anos (de maneira mais pontual no início e mais intensa nesse ano). Lu, além de assinar a direção do show, tem um papel profundo em todo o processo de criação e de interpretação, que tem servido não apenas para esse repertório, mas para a minha maneira de pensar e realizar cada música.

É possível estabelecer entre Brinquedo de Tambor (2006), Dois Cordões (2009) e a trilogia de EPs Língua, que se iniciou com Pedra de Sal (2014), uma espécie de fio de novelo estético que você mantém agarrado em sua mão apesar das diferenças de cada obra? Que “fio” seria esse? O fio sou eu mesma e a minha relação com a “música de rua” (o que se chama de música popular/tradicional, mas que sempre acho que ainda não encontramos um termo em que caiba todo esse universo). O fio sou eu, na medida em que cada um fala de mim num determinado tempo da minha vida. Mudamos ao longo do tempo e permanecemos sendo os mesmos de muitas maneiras. E por mais que mude, a força e a presença dessa minha “escola artística” ainda é a mesma, pois ainda me move e me instiga de maneira absolutamente profunda.

Com a mudança para São Paulo, a “música de rua” certamente foi contaminada por outros elementos, o que fica claro na audição de Pedra de Sal. O que mudou nesse EP na sua relação com a música popular/tradicional da qual você fala? Uma mudança, comumente, não acontece de uma hora pra outra, ela faz parte de um processo, que pode ser mais ou menos demorado. A minha mudança pra São Paulo começou bem antes de chegar de fato por aqui, assim como as músicas que compus nesse período. E no final, acho que essas cinco músicas de Pedra de Sal falam muito mais de mim em Recife e se referem muito mais a Recife do que a São Paulo, mas busco aceitar a influência do “tempo e do espaço”, porque acredito que a criação é sempre fruto do que você viveu, do que leu, ouviu, conversou, assistiu… de como se relaciona com o espaço e o tempo em que vive e, claro, de como escolhe processar tudo isso. Então, a criação acaba sendo também, de certa forma, o reflexo do artista num determinado tempo de sua vida, isso não significa absolutamente uma negação ao passado, nem necessariamente uma evolução, significa apenas uma aceitação e um reconhecimento do tempo. A minha relação com a “música de rua” permanece absolutamente entranhada em mim e na minha maneira de criar. Essa foi e continua sendo a minha principal escola e pra onde volto sempre que preciso começar e recomeçar, pra onde volto quando preciso me encontrar e quando preciso, inclusive, me ver hoje, nesse tempo de agora. Porque ao contrário do que parece pra muita gente, a “música de rua” ou a cultura popular é absolutamente viva e se reinventa e se recria sempre, e de maneira intensa e visceral. Esse é um dos aprendizados mais importantes que levo dessa “escola”, porque, pra nós, “o brinquedo” é uma necessidade do corpo e da alma e, portanto, precisa ser realizado senão definhamos.

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Foto: Tiago Lima Arte: Vânia Medeiros

Voltando à “contaminação” de São Paulo, gostaria de propor algumas questões para reflexão. O que normalmente atribuímos à música de cada lugar ou exatamente que elementos estamos chamando aqui de “contaminadores”? São os ruídos? A bateria? As dissonâncias? São as “tensões”? O “grito”? Porque nenhum desses elementos pertencem a São Paulo, nem ao Recife, nem a nenhum lugar especificamente. No Maracatu de Baque Solto, por exemplo, encontramos ruídos, gritos, tensões… em que elementos exatamente se sente essa “contaminação”? Acho importante refletirmos sobre isso, pra não cairmos no lugar comum de achar que, quando uma música tem esses elementos, ela é mais “urbana”, “moderna” ou “melhor” do que outras músicas que são consideradas mais “puras” ou “tradicionais”. Talvez o único ponto em que poderia considerar como o elemento “contaminante”, e de maneira muito bem vinda, de São Paulo nesse EP, seja justamente a presença de músicos nascidos ou radicados aqui há um bom tempo: os paulistas Rafa Barreto e Kiko Dinucci, o carioca Guilherme Kastrup e Missionário José – que também é, de muitas formas, pernambucano; e o pernambucano Mestre Nico.

Além da presença de Caçapa, seu companheiro em inúmeros trabalhos, o músico Kiko Dinucci esteve muito presente nesse primeiro EP, cantando, tocando e compondo com você. Fale um pouco sobre essa participação, o quanto ela foi importante nesse momento. Quando eu e Kiko nos conhecemos, tivemos a impressão de que já éramos amigos há muito tempo, por isso, o tempo cronológico nem parece caber na nossa relação. Também sinto como nossas músicas têm muitos pontos de convergência e inquietações semelhantes. Ele e Caçapa estão entre alguns dos músicos que mais confio e admiro. Fazemos um show juntos (eu, Kiko e Caçapa) desde 2010 e tê-lo conosco nesse EP me parece um resultado natural das parcerias que já começamos em 2009, com “Chave de Ouro”, música nossa, gravada no meu disco Dois Cordões. Mas não posso deixar de citar a importante e fundamental presença de Luciana Lyra (atriz e dramaturga) e Vânia Medeiros (artista plástica), que toparam essa empreitada que propus, de tentar diminuir as fronteiras entre as linguagens artísticas (assim como acontece na cultura popular, a exemplo do Cavalo Marinho) e vem trabalhando conosco desde o início do processo de criação desse repertório. É preciso ressaltar também a contribuição de cada um dos músicos que tocam comigo hoje, que é fundamental pra que essas músicas existam dessa maneira, além de ser um privilégio e uma honra das maiores tê-los ao meu lado: Guilherme Kastrup (bateria, samples e co-produção e arranjos em “Mofo” e “Devora o Lobo”), Missionário José (baixo), Mestre Nico (percussão) e Rafa Barreto (guitarra) – meu parceiro no show Punhal de Prata, só com músicas de Alceu Valença, lançada nos anos 70.

A decisão de lançar a trilogia dos EPs Pedra de Sal, Aço e Língua ao invés de um álbum “cheio”, parte de uma percepção do mercado de música atualmente? Como se dá essa relação entre criar, produzir e difundir a sua música? Essa decisão parte de alguns pontos, uns de ordem pragmática e outros de ordem estética. Pelo lado pragmático da vida, entram limitações no orçamento e também no tempo, pois queria lançar algo ainda esse ano, o que não aconteceria se fizesse um álbum “cheio”. Caçapa e eu também já vínhamos conversado sobre a possibilidade de lançarmos EPs e “singles” pelo Garganta Records (nosso selo). Além disso, durante o processo de criação do que seria Língua, já havia uma divisão estética nesses três eixos/capítulos: Pedra de Sal – alma e ossos, Aço – carne e pele e Língua – língua. Juntando isso ao funcionamento do mercado hoje, achamos mais do que natural lançar dessa maneira. Artisticamente tem sido muito mais desafiador e instigante, pois tenho a possibilidade de mergulhar mais profundamente em cada capítulo. Ao mesmo tempo, há a imposição de ser um EP, então preciso compor e escolher o repertório apenas com o que for mais significativo sobre cada tema, senão corro o risco de transformar essa trilogia em álbuns e não EPs. Antes do lançamento estávamos mais apreensivos em como seria essa receptividade, se um EP seria recebido como algo “menor” do que um álbum. Até agora, tem sido uma boa experiência e estamos aprendendo um bocado. Do ponto de vista do que chamamos de mercado, essa opção pela trilogia também me permitirá lançar mais conteúdo num intervalo de tempo menor, o que me parece ser uma coisa ótima, mas sobre como o mercado receberá isso exatamente, só poderemos saber no final, eu acho… estamos tratando muitas coisas como recomeços e com o máximo cuidado que podemos.

A canção “Mofo” é dedicada ao Recife e ao Movimento Ocupe Estelita. Ela tensiona bem, com sutileza e agressividade – teu EP parece sempre querer se equilibrar entre essa dualidade -, sem ser panfletária, ou mesmo facilmente localizada apenas no contexto da cidade do Recife. Em que circunstância nasceu a canção? Comecei a compor “Mofo” a partir de inquietações minhas e imagens de sonhos, quando terminei, vi a cidade. Somos fruto de onde vivemos também e por isso mesmo devemos e podemos torná-la um lugar menos inóspito e mais acolhedor. Além de todas as importantes conquistas do Direitos Urbanos e Movimento Ocupe Estelita, sinto que o maior legado é justamente a renovação da esperança, a possibilidade de melhorar o lugar onde vivemos, e isso, representa uma transformação profunda na nossa maneira de pensar e agir.

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Foto: Tiago Lima Arte: Vânia Medeiros

No carnaval você fez um show em Recife e recebeu no palco a troça “Empatando a tua vista”, que crítica veementemente o projeto Novo Recife. Num texto seu, esse episódio foi lembrado com essa fala após o show: “Achei muito bom o seu show, concordo com o que você falou sobre a cidade… mas você sabe, que depois disso, vai demorar muito pra você voltar a tocar aqui, não é?” Você acredita nessa relação de causa e efeito, para os artistas que se posicionam criticamente? Sim, mas tenho a impressão de que isso já foi mais acentuado. De todo modo, acho que ainda estamos longe de resolver essa questão, principalmente se olharmos para o interior do Estado. Em 2013, eu e Caçapa publicamos uma carta aberta sobre a nossa decisão de não tocar no carnaval de Pernambuco (organizados pelo Governo do Estado e Prefeituras de Recife e Olinda). Por uma grata surpresa, China e a Nação Zumbi também haviam publicado cartas semelhantes mais ou menos no mesmo dia que nós, isso deu uma repercussão grande, bem maior do que esperávamos, em âmbito nacional. Chegaram a falar em “greve dos artistas” e “boicote ao carnaval”. Sempre deixamos claro que isso se tratava de uma decisão individual e que não falávamos em nome dos “músicos pernambucanos”, porque acho que cada um tem que se posicionar e falar em nome de si mesmo ou de um coletivo, caso façam parte. Recebemos muitas mensagens de apoio de artistas de fora de Pernambuco, pouquíssimas dos colegas daí. Percebemos um certo temor de não tocar mais e de “se queimar” com os contratantes. Ouvimos de alguns amigos e parentes que isso não ia dar certo, que era pra ter cuidado com as retaliações. Isso nos mostra como esse sentimento se estende a muitas áreas profissionais e gerações diferentes, parece que está entranhado na nossa cultura, ainda com uma herança forte da Casa Grande e Senzala. O fato é que o Governo de Pernambuco, naquele ano, pagou os artistas em 30 dias após o carnaval. Alguns assinaram contrato antes do show (coisa praticamente inédita) e receberam com oito dias após o show. Isso nos prova que há condições burocráticas pra que as contratações sejam realizadas dessa maneira. Isso evitaria um estresse altíssimo para os artistas e demais profissionais que prestam serviço, como também para os funcionários dessas instituições, que tem que “administrar” a chuva de reclamações que chegam quando o pagamento atrasa por 3, 4, 5, 6 meses, ou até mais.

Este ano, refletimos muito se faríamos ou não o carnaval e decidimos fazer, pois queríamos acreditar que algumas coisas haviam mudado e não tivemos nenhum problema com a contratação, ainda bem. Voltamos em julho e fizemos um show memorável no Festival de Inverno de Garanhuns e tudo também correu na mais perfeita ordem. Mas ao mesmo tempo, não podemos desconsiderar a importância artística e política de se apresentar num palco pra uma multidão. Não posso dar as costas a algumas questões graves que vem acontecendo em Pernambuco, como as restrições impostas aos grupos de Maracatu de Baque Solto, na Zona da Mata Norte, e o Projeto Novo Recife. Por isso, a participação da troça “Empatando a Sua Vista”, no show do carnaval, foi tão significativa e fundamental pra nós, que continuamos sempre com a maior vontade e interesse em não apenas tocar em Pernambuco, mas de sempre contribuir para as coisas melhorem pra todos e não apenas pra nós e pros nossos amigos.

Publicado originalmente na 6ª edição da revista Outros Críticos.

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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