Entrelugares nos filmes Jauja e Casa Grande

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Foto: Victor Jucá

por Rafael de Queiroz.

Jauja é o sétimo filme do argentino Lisandro Alonso e o primeiro a usar atores profissionais e uma parceria no roteiro, o poeta e jornalista Fabian Casas. O filme ganhou o Prêmio da Crítica em Cannes esse ano e conta com Viggo Mortessen (Gunnar Dinessen) no papel principal. . O filme é rodado em 4:3, o formato clássico, com cores saturadas e uma fotografia maravilhosa.

Jauja é um lugar de riquezas e possibilidades, como Eldorado, mas todos que tentaram chegar lá se perderam. O filme se passa na Patagônia durante o período das colonizações, onde há a sugestão de uma campanha violenta, onde ocorre o genocídio dos povos que ali residem, chamados “cabeça-de-coco” pelos militares em campanha, para abrir espaço aos europeus. O capitão Gunnar, um oficial dinamarquês, está acompanhado de sua filha Ingeborg (Viilbjork Agger Malling), uma menor de idade que é desejada pelo tenente Pitalluga, mas que se entregará ao jovem soldado Corto.

Um outro personagem, que até agora não aparecera é citado constantemente pelos outros, um ex-general Zuluaga, que para uns era um exemplar militar, disciplinado e competente, para outros era instável e irascível, que desaparecera. Surgem boatos de que ele teria enlouquecido e estava praticando roubos, vestido de mulher, o que para os oficiais era uma história muito fantasiosa, contada por Corto. Quando a noite cai, Corto rouba um cavalo e foge com Ingeborg pelo deserto. Gunnar, ao se dar conta do sumiço da filha, parte sozinho em uma jornada para resgatá-la.

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Foto: Victor Jucá

Seguindo os rastros deixados pelo casal, quando ele está prestes a encontrá-los, Corto é avistado ensanguentado, agonizando embaixo de uma árvore. Enquanto tenta conseguir informações sobre sua filha, ao que Corto murmura “Zuluaga”, um índio escondido rouba sua espingarda e seu cavalo. Gunnar não desistirá e vai seguir na direção das montanhas, por aquele lugar austero e perigoso, mesmo a pé. Na sua caminhada, só acompanhado da sede e da fome, vai se encontrar com uma velha que mora dentro de uma caverna, só acompanhada de seu cachorro.

A velha loura e dos olhos claros, como sua filha desaparecida, insiste para saber como era a mãe de Ingeborg. Ela também se emociona quando ele a entrega um soldadinho de chumbo que sua filha tinha achado no começo do filme e perdido durante sua fuga. Seria aquela caverna a toca do coelho de Alice? Seria apenas um sonho? Tempos e lugares diferentes poderiam coexistir, como no que se diz sobre possíveis outras dimensões. Nesse sentido um final alternativo é proposto, em um tempo/lugar distinto, mas onde ausência, solidão e separação são lacunas existenciais que nunca deixarão de acompanhar o indivíduo.

Jauja é um filme interessante e diferente de muita coisa, melhor para quem procura uma experiência cinematográfica que não siga padrões estéticos ou de narrativa mais comuns disponíveis.

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Foto: Victor Jucá

Com uma proposta totalmente diferente do filme anteriormente comentado, Casa Grande ganhou o público do festival, que riu do começo ao fim. Ao sair do filme ouvi muito a palavra “Globo Filmes”, um termo mais pejorativo entre o público cinéfilo, por ser referir a produções com pouco requinte estético ou densidade de narrativa/roteiro oriundos da poderosa distribuidora de filmes.

Apesar de não ousar em experimentações e ter estrutura de “cinemão” com narrativa linear e doses de humor, o filme me pareceu bastante pessoal e toca de maneira singela no assunto espinhoso que é a divisão de classes brasileiras — tão mais escancarada ultimamente devido ao caráter das últimas eleições.

Ele conta a história de Jean, um adolescente nascido em berço esplêndido, mas que está indo à falência, no qual vai viver um choque de realidade a partir da demissão do motorista da família e vai precisar ir ao colégio de ônibus. A partir daí ele vai vivenciar a cidade e sua ideia de mundo de uma forma totalmente diferente. Numa viagem de volta ele vai conhecer outra adolescente, Luiza, de classe média baixa e que também vai guia-lo nessa descoberta.

O filme retrata muito bem e de maneira tragicômica como os ricos do país vivem em outro mundo e como tudo que a eles é alheio é recebido com um preconceito violento e estranhamento: como na cena em que Luiza discute com a família de Jean sobre as cotas nas universidades públicas. Há a divisão espacial/social da cidade, em que os ricos vivem com um eterno medo em seus condomínios fechados, em que os filhos não podem andar de ônibus e têm hora para voltar, com os pais indo pegar na porta da boate.

“A casa grande ainda está lá e mantém o seu polo senzala, seja na dicotomia mansão/favela, seja no quartinho da empregada Rita”

A casa grande ainda está lá e mantém o seu polo senzala, seja na dicotomia mansão/favela, seja no quartinho da empregada Rita (Clarissa Pinheiro), que dorme lá durante a semana, num anexo da mansão — a atriz pernambucana está muito bem no filme e confirmou porque ganhou um prêmio no Festival de Paulínia. A casa grande ainda está nas “escolhas” que os filhos da elite têm que ter para prestar o vestibular: Economia ou Direito, já que Comunicação ou Música seriam coisas de desocupados. Mas apesar da falência, as aparências têm que ser mantidas e os pais de Jean vão tentar escondê-la até dos próprios filhos.

Nas últimas cenas Jean vai abandonar o local de prova do vestibular e vai para a favela reencontrar seu ex-motorista. Lá, em meio a um forró, também reencontrará Rita, e vai finalmente conseguir conquistá-la, agora no lugar dela, sem mais ser o sinhozinho que fazia visitas noturnas à senzala atrás de sexo; e não mais o sexo iniciado nos prostíbulos, hábito bem comum das velhas oligarquias machistas. O filme deixa em aberto qual será o destino de Jean, mas deixa muito claro que nada será como antes.

O filme retrata muito bem uma relação social arcaica que insiste em permanecer, mas que vai sendo minada aos poucos, de baixo para cima, e que talvez não tenha mais espaço num futuro próximo, sendo os filhos dessas elites alguns dos questionadores desse modelo de vida. Se você espera um filme mais politizado ou mais radical, esqueça: Casa Grande faz crítica com uma doçura quase igual a da cana.

 

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Rafael de Queiroz Escrito por:

Doutorando em Comunicação pela UFPE e repórter da MI (Música Independente).

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