do absurdo ao limbo

A banda Rua está permanentemente em estado migratório. A proposição estética sob o título do absurdo (2011) revelou, àquela altura, que a música pernambucana teria pela frente que empurrar uma pedra pesadíssima, aglutinada – como se fosse possível – por criação e crítica. As canções-pedras logo ganharam as suas primeiras gravações: trip hop, samba, experimentalismo, minimalismo. Cada nova audição será uma reinvenção desses e de outros rótulos. Rua está para a música como o artista está para a morte. A presença inevitável dessa sombra torna a criação uma conquista vital. É preciso criar para conservar-se em movimento, com vida. Essa relação permanecerá como um ato contínuo, uma confissão autoral sobre o ser/estar do artista. Cada compasso, palavra ou melodia será uma prova viva da surpresa que a música inventiva deverá causar no ouvinte. Perceber uma narrativa poético-musical nas treze canções que compuseram o álbum atemporal da Rua, de certa maneira, será uma chave de interpretação possível e, quem sabe, também surpreendente.

do absurdo amplia as possibilidades de criação sobre o vazio. Será a página em branco um poema?, Um galpão imenso e vazio, uma instalação artística?, O silêncio, a canção absoluta que nunca nos acostumaremos a escutar? São sobre essas indagações que a música da Rua se aproxima. Há uma espécie de choque de opostos presente em praticamente todo o álbum; de um lado o branco, as bases instrumentais e sua amplitude, seus espaços imensos e em construção; do outro, o preto, a palavra cantada (irmã da poesia) que tem nas vozes (no canto) o entrecruzamento dessas duas cores. É a voz que atravessa e conduz as tonalidades do absurdo.

A abertura instrumental de “no mínimo era isso” desacostuma o ouvido do excesso. O mínimo é mola propulsora que, aos poucos, se expande na imensidão do tempo e depois, com a mesma velocidade, retorna ao seu ponto de origem. Os sons da marimba de vidro são cíclicos e cortados pelo arco que prepara e lança o nosso herói na narrativa, que toma corpo com a combinação experimentada entre o baixo, o cavaquinho, a guitarra e a bateria. Fôlego para a palavra e suas vozes.

todalegria funda
um buraco invisível
todalegria salta
o pedaço impalpável
todalegria engorda
o inefável
todalegria é surda (…)
e ensurderce um

A canção é uma abertura aos extremos. As afirmações gritadas no canto são poéticas que pesam sobre os ombros do nosso herói. A possibilidade da alegria (a arte é alegre?), a possibilidade da criação (criar é estar alegre?) vê-se diante do contraste entre o som e o silêncio. Esse é o nosso herói, personagem permanentemente em conflito, entre o branco e o preto, o som e o silêncio, a vida e a morte. O êxtase em som acompanha a voz e a base sonora crescente. Até que “escorrego” devolve o herói à aparente calmaria da jornada.

embrutecendo aos poucos
embrutecendo aos trancos
embrutecendo aos vãos
escorrendo

Esse contraste faz parte da estética do disco. A música impele constantemente o ouvinte a acompanhar as suas nuances. A imprevisibilidade nos arranjos, na sugestão das letras, suas imagens, como visões oníricas, são quase sempre enigmas a serem decifrados. Em sequência, “afeiçoado” e “rainha da bateria”, impessoais canções de desamor. A primeira mantém um pulso recorrente, a segunda samba com a tradição do samba, faz do gênero um jogo metalinguístico entre a criação e a crítica. É possível sermos a tradição e criticá-la ao mesmo tempo? A música mais “popular” do disco é a que encena uma crítica mais profunda à música contemporânea. Se ela caminha entre a reconhecível tradição, “um dia estranho” e “intervalo”, as faixas seguintes, transformam o cavaquinho e a guitarra, respectivamente, em bichos estranhos no ninho. Os músicos Nelson Brederode (cavaquinho) e Fred Lyra (guitarra) são os autores que assumem tais riscos. Yuri Pimentel (baixo) e Hugo Medeiros (bateria) são colaboradores nessa algazarra. A primeira sequência melódica faz corpo para a pele poética que a voz de Caio Lima declama.  A segunda soa como improviso em conjunto, seu título nos impõe uma pausa ao herói do absurdo. Refletir o caminho até aqui e estar atento para percorrer outra parte da estrada. “só”.

onde o dia finda

onde um céu tem teto
onde nuvens são algodão
d’onde a chuva pinga azul
onde o tempo nina
onde o vento canta
onde um sol amarelo ri
quando a noite engole um chão
colorindo um bloco do infinito
lá em solidão

à usura dos olhos vazios

A solidão da canção dialoga com a possibilidade de amor em “às bolas de gude”, em que a marimba de vidro de Hugo de Medeiros volta com outra intensidade, diferentemente da música de abertura, aqui se faz num lirismo que joga a favor da melodia e do canto, em frases melódicas longas e em versos como: “ela, o dia torto de um inverno inteiro ao vento morno”. No final, vozes femininas sobrepostas são um rastro de esperança e gozo: “feliz toda manhã”, sentenciam elas. As músicas seguintes, “ais” e “pala”, permeiam o mesmo cenário poético das anteriores, mas enquanto a primeira desvanece em som através das linhas de baixo, repetindo fórmulas já apresentadas em outras canções, a seguinte é mais propositiva e jorra sua verve particular para lugares mais inesperados (e inóspitos). “pala” são grunhidos da voz, cavaquinho, baixo e bateria, num dos melhores arranjos do álbum.

A música “pronome” dá voz ao herói, seu canto desola as possibilidades de ventura. Um fim de estrada sem final.

sair de si
é um engano só
é desumano
e mais
é fatal (…)

As vozes e a programação da música unem o natural e o artificial para tentarem constatar o indizível do derradeiro. Chegar ao fim da jornada sem tantas respostas. “página 6”, no entanto, escancara mais uma vez as contradições do artista, do herói, de sua jornada absurda. Sísifo carrega a pedra até o alto da montanha. Refaz o caminho infinitas vezes. Esse é o sentido de sua existência. “e haja vida pra gastar”, repete a voz dissimulada.

Irmos do absurdo ao limbo (próximo disco da banda) será como propor um entrelugar estético para novas jornadas e experiências. As faixas pré-mixadas de limbo que chegaram até mim são recompensas para os ouvintes que souberam escutar o álbum anterior, em que escutar será sempre diferente de ouvir. Ouvir é um ato passivo, natural. Escutar exige luta interna; exige também uma jornada, uma retomada da liberdade criativa avessa aos rótulos e pré-disposições. Tomem contato com os pouco mais de 9 minutos da música “limbo” e, com esforço, perceberão que o silêncio e o tempo são condições essenciais para compreendermos o que chamamos de arte. Rua carrega com energia essa pedra indizível e pesada que todos sonhamos ter nas mãos.

Foto de capa: Flora Pimentel
Publicado originalmente na coletânea no mínimo era isso: 10 bandas, 10 ensaios

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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