Discografia e Novas Gráficas

Capa João Gilberto

Tendo a Bossa Nova (BN) se caracterizado como um movimento musical voltado contra o “estrelismo” e contra o culto do “solista”, desenvolveria, por outro lado, o sentido do trabalho de equipe. Se anteriormente, numa gravação, o importante era o “cantor” — sua foto, seu nome e seus gemidos… —, sendo todos os trabalhos restantes entregues à rotina mais impessoal, após o advento da BN, estilo musical originalmente voltado para o detalhe, todos os participantes de uma realização musical gravada passaram a ter suas funções valorizadas e a serem nominalmente citados. Daí surgiu o que se passou a chamar de “Ficha técnica”. Dela começaram a constar não apenas os músicos participantes (solistas, orquestrador, regente, atuações especiais em determinadas faixas etc.), mas também os responsáveis técnicos pela feitura do disco: produtor, técnico de gravação, engenheiro de som, fotógrafo, layoutman etc. Isso não se prende, porém, a razões de justiça profissional ou coleguismo, e sim ao fato de que, a partir da BN, todos esses aspectos, anteriormente secundários, foram muito mais valorizados. O nível técnico das gravações elevou-se consideravelmente. Não só se passou a captar mais e melhor pequenos detalhes e articulações solísticas e de acompanhamento, como se deu tratamento mais aprimorado ao tape e melhor uso ao playback. Se, anteriormente, a ordem era “abaixar” o playback e “soltar” o cantor, para evidenciar suas peripécias rouxinolescas, hoje procura-se um equilíbrio muito maior entre ambos.

João Gilberto – Manhã de Carnaval by Joaohmsk

Outra das revoluções propostas pela BN foi a apresentação gráfica dos discos. Aquelas tão famosas fotos pousadas e tremendamente retocadas, de pessoas, de flores, ou de pôr de sol, e mil outras ilustrações simbólicas, relacionadas com motivos ou temas de melodias constantes da gravação, foram substituída pela mais discreta motivação ilustrativa. Não raro apresenta-se um LP apenas com uma forma geométrica ou abstrata. Abandonando-se o excesso de cores, passou-se ao uso comum do branco e preto; às vezes, apenas um perfil ou o negativo de uma foto num fundo branco ou em “alto-contraste” — um dos primeiros e expressivos exemplos dessa linha foi a capa do LP de João Gilberto, “O amor, o sorriso e a flor”, idealizada por César Gomes Vilela. Fez-se inúmeras vezes o uso de colagens, assim como o de montagens gráficas e fotográficas.

Não apenas a parte gráfica das gravações sofreu radical modificação. Desenvolvendo-se mais conscientemente o tratamento técnico da realização musical, a vontade de racionalização dos problemas e o espírito de pesquisa, a própria nomenclatura modificou-se em função dessas características. Vejam-se os nomes dos LPs: “Samba nova concepção”, “Novas estruturas”, “Nova dimensão do samba”, “Samba esquema novo”, “Evolução”, “Movimento 65”, “Esquema 64”, “Idéias”. Mas além desses LPs que receberam nomes técnicos e paracientíficos, existem aqueles que demonstram o espírito consciente de renovação e vanguarda, como: “Avanço”, “Revolução”, “Impacto”, “Vanguarda”, “Opinião”, “e hora de lutar” etc. Mesmo aqueles que possuem nomenclatura mais lírica, relatando um estado de espírito ou uma situação afetiva, revelam uma terminologia bastante simples e discreta, feita, às vezes, de uma única palavra, uma frase solta. Assim, são os seguintes exemplos: “Inútil paisagem”, “O amor, o sorriso e a flor”, “Sem carinho, não…” “Oh!…”, “Afinal”, “Chega de saudade”, “Wanda vagamente”, “Baden à vontade”, “Tudo azul”, “O fino…” e assim por diante. A exploração mais consciente das possibilidades e recursos da gravação, suas novas bases de tratamento como coisa em si e não como registro passivo da execução musical, sugeriu a criação de novas firmas especializadas, que, voltadas inteiramente para os principais eventos da BN, conquistaram o mercado com base no comércio da qualidade musical. A primeira delas, e sem dúvida a mais importante, é a gravadora “Elenco”. Fundada em 1963, arregimentou em seu cast parte dos mais importantes músicos atuais como Tom Jobim, Astrud, Baden Powell, Vinicius de Morais, Quarteto em Cy, Roberto Menescal, Sílvia Telles, Sérgio Ricardo, Edu Lobo, Nara Leão, Norma Benguel, Rosinha de Valença, Dick Farney e outros, além do Caymmi de sempre. Aloysio de Oliveira, músico ativo dos tempos de Carmen Miranda e hoje um dos maiores empresários de música brasileira no exterior, é o idealizador e diretor da Elenco. Além destes, cabe-lhe mais um grande mérito: foi como diretor da Odeon que Aloysio de Oliveira produziu e lançou em 1959 o LP “Chega de saudade”, que, pela sua importância histórica, já foi aqui tantas vezes citado e analisado.

 photo brazilliance-pages-162-1631_zps85dc12c3.jpg

 photo brazilliance-no-4-pages-56-57_zpsd4d8b443.jpg

Outro acontecimento importante no campo da discografia popular contemporânea foi o surgimento da “Forma”. Dirigida por Roberto Quartin e Wadi Gebara, esta etiqueta caracterizou-se pelo alto teor artístico-experimental de suas produções e pelo cuidado dispensado a todos os detalhes técnicos de seus discos. Em São Paulo, surgiu também a “Som Maior”, hoje uma das etiquetas da gravadora RGE dirigidas por Júlio Nagib, dedicando igualmente a maior parte de suas produções ao repertório BN e tendo em seu elenco vários dos mais importantes músicos desse gênero, como Alaíde Costa, Geraldo Vandré, César Camargo Mariano e seu conjunto Som 3 e outros. Destaquemos, nos discos da Som Maior, a participação de Hector Sapia, autor das mais arrojadas e inteligentes capas de discografia atual.

Mais um fenômeno curioso vem a calhar em nossas observações com relação à apresentação gráfica dos discos BN: cada uma das três firmas gravadoras acima citadas possuem, como símbolo comercial, uma simples figura geométrica.

por Júlio Medaglia.

 

*Capa de O amor, o sorriso e a flor (1960), de João Gilberto.

**As imagens da postagem são de capas dos discos da Elenco que foram organizadas por Andreas Dünnewald, no livro Brazilliance – Brasilianische Plattencover von 1952-1977.

***Excerto do texto Balanço da Bossa Nova, p. 97-104, disponível no livro: CAMPOS, Augusto de. Balanço da bossa e outras bossas. 2 ed. São Paulo: Perspectiva, 1973.

 

Share Button

Desde 2008 atuam desenvolvendo projetos de crítica cultural na internet e em Pernambuco. Produziram livros e publicações, como a revista Outros Críticos, além de coletâneas musicais e debates, como os do festival Outros Críticos Convidam.

Seja o primeiro a comentar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.