(Des)norteando a canção

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“Barulho Feio” (2014) foi produzido por Romulo Fróes e Carlos “Cacá” Lima. A capa do disco é um projeto gráfico de Julio Dui_Mono, com fotos de Eduardo Ortega e Edouard Fraipont a partir da obra “Bandeira Branca”, do escritor e artista visual Nuno Ramos, do qual Fróes é parceiro em composições desde o seu primeiro disco, “Calado” (2004).

por Marina Suassuna.

Gente cantando pela cidade, pastor batendo na bíblia, cochichos, ruídos urbanos e outras aleatoriedades da metrópole paulista. Tudo isso atravessa Barulho Feio, quinto álbum solo de Romulo Fróes lançado recentemente. Captado no centro de São Paulo, em junho deste ano, o áudio que se ouve ao fundo de todo o repertório interfere no modo como o ouvinte irá assimilar a obra.

Lançando mão, mais uma vez, do experimentalismo que lhe é característico, Fróes parece propor novos caminhos para a canção popular, ou, porque não dizer, descaminhos. É como se estivesse buscando alternativas para uma “linguagem arruinada que nunca morre”: a canção em seu formato convencional. Segundo o filósofo e professor Vladimir Safatle, “uma linguagem arruinada é aquela na qual não é mais possível morar, seus pilares estão quebrados, seu tempo já passou”. No entanto, Fróes parece acreditar que ainda é possível habitar a canção enquanto ela estiver amparada pelo caos e desorganização. O saxofone de Thiago França que esperneia na faixa de abertura, “Não há, mas derruba”, é um dos elementos ao qual ele recorre para promover o clima caótico e desnortear o andamento da música. Assim como os diversos ruídos e “barulhos feios” que estão por toda parte, desvirtuando o repertório.

A pesquisadora portuguesa Helena Caspurro já dissera que “a forma como se aprende a assimilar música é um fator decisivo para o desenvolvimento não apenas de diferentes maneiras ou qualidades de audição, como de diferentes atitudes ou necessidades perante a música”. No caso da audição oferecida por Barulho Feio, o improviso parece ser uma necessidade preliminar de ambas as partes. Educar nosso ouvido para o improviso musical do criador é também assumir o improviso enquanto ouvinte, na medida em que permitimos o encontro com o inesperado. A previsibilidade é justamente o maior inimigo do disco, cuja fruição está intimamente ligada ao descompromisso com qualquer fórmula ou estrutura já consolidada.

Dono de uma gramática musical bastante peculiar, Romulo Fróes se utiliza de estruturas particulares para montar seu repertório de “barulhos feios”. As letras abstratas, carregadas de metáforas e poesia urbana, entram em cena sustentadas pelo protagonismo de sua voz grave acompanhada do violão. Elementos padrões do formato canção, a voz e o violão são frequentemente interrompidos e desafiados pela guitarra de Guilherme Held e pelo baixo acústico de Marcelo Cabral. É como se a canção convencional circulasse em surdina, sem sobressair-se, apenas ecoando, sobretudo em faixas como “Como um raio” e “Ó”, cujas letras fazem referência a Nelson Cavaquinho e Elizeth Cardoso, respectivamente.

Barulho Feio traça um caminho difícil e tortuoso. É preciso exercitar o ouvido para acompanhar a sua trajetória pelos atalhos musicais que o músico refaz para a canção.

Publicado originalmente em agosto de 2014, na 5ª edição da revista Outros Críticos.

Foto de capa do site: Katia Kuwabara

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Marina Suassuna Escrito por:

Jornalista, estuda na Pós-Graduação em Fotografia e Audiovisual na Unicap. É repórter da revista Outros Críticos e colabora nas revistas Continente e Cardamomo.

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