Desaparecido

O que existe do Outro Lado, se perguntava o homem barbudo, os pés descalços; o que existe do outro lado da persiana?

*

            O homem descalço – a partir daqui, seu nome é Bob – arrastava, em suas andanças pela cidade, seus únicos pertences: dois lençóis grossos, uma mochila rasgada com roupas, um sacolão cheio de latas. Sua companhia era uma cachorra, que ele talvez chamasse:

            – Balela, balela.

            Ou talvez não. É que o homem tinha uma mania de palavras, elas volta e meia grudavam na ponta da sua língua e caíam apenas quando queriam. De qualquer forma, chamemos de Balela a cadela. Era um bicho corpulento, pontudo e amarelado. Ao homem, devia gratidão eterna, porque ele a tolerava. Nenhum dos dois sabia há quanto tempo sobreviviam juntos. No caso dela, essa coisa do tempo, dos números do calendário bem arrumadinhos dentro de caixinhas, estava longe de ser o seu forte. Quanto a Bob, bem, tudo tinha se tornado por demais áspero, concreto. Existia dia, existia noite; existia frio e fome; existia o sono. Tinha desistido, por escolha própria, ou por necessidade, de um nome ao qual pudesse tomar para si. Havia, nele, um ele em excesso. Aquele homem era denso e transtornado, estrela opaca.

        Além disso, as pessoas passavam como sombras. Precisava de grande esforço para discernir tantos rostos: como era possível existir alguéns por aí, soltos na arena de pedra? Uma sombra após outra sombra após outra – cada uma delas existia, sem mais nem menos? Como era possível? Há uma inflação de seres na arena, concluía (nos momentos nos quais conseguia concluir algo). Nem Deus aguentava.

*

            Água dava pra achar. Comida, nem sempre. Mas muita coisa sobrava pela cidade. Um papel marrom, com um M gigante impresso, cheio de batata fritas e um hambúrguer mordido. Feijão, arroz e carne misturados dentro de uma quentinha. Pão de anteontem. Bolo. Um urso polar, barrigudo de tanto gás carbônico, na tarja da garrafa de plástico. Bob vagava pela cidade sempre à procura. Fuçava latas de lixo não apenas para catar plástico, papel ou alimento. Buscava algo mais; um avesso. Certo dia, Balela começou a latir diante de um muro, no qual alguém tinha colado uma dezena de lambe-lambes. Bob acalmou sua amiga; balançou a cabeça, várias vezes, e coçou a barba. Aproximou-se de um dos lambe-lambes. Esticou o braço, tocando a imagem com o cuidado que teria ao se aproximar de uma chapa aquecida. Nela, um homem jovem tinha se enterrado em um buraco. Com os olhos fechados e a cabeça abaixada, as mãos do jovem seguravam a cabeça morta de um bode, cuja testa encostava na sua. Comunhão, estava escrito. O dedo mindinho de Bob deslizou por cima de cada letra da palavra.

            Também lhe fascinavam os pregadores na rua. Os da Sé, por exemplo. Ouvia todos com atenção. Não creio que se interessava pelas palavras evangelizadoras, porque seu reino já nem estava ali, de qualquer forma. Observava-os com um olhar avaliador, de quem um dia entendeu multidões. Reproduzia seus gestos; corrigia as palavras em pleno ar, criando uma pantomima de passes mágicos. Em outro dia, cismou com a tigela de ração de Balela. Suspendeu-a no ar; colocou-a de cabeça para baixo; bateu o objeto algumas vezes no chão. Em outro momento, teve problemas com a polícia. Decidido a investigar a parte inferior de uma viatura, se deitou de bruços no chão, ao lado do veículo, e não quis mais. Quando os PMs tentaram retirá-lo, abraçou-se a uma das rodas e ali ficou, enquanto Balela latia furiosamente. Havia muita gente curiosa ao redor, alguns filmando com celulares. De repente, ele se levantou (parte do público deu uns passos para trás), reconectado a algo que lhe dizia, profundamente, respeito. Durou poucos segundos, talvez. Balela silenciou. Bob recolheu seus pertences e caiu fora.

*

            O que existe do Outro Lado?

            A avenida nada aparentava de especial. Havia chegado até ali de madrugada, após horas de uma caminhada intensa, as palavras acumuladas na cabeça. O frio incomodava. Gostava dos pés livres, contudo os envolveu, usando um barbante, com plástico encontrado nas ruas. A neblina dificultava a observação das esquinas e dos pontos solitários dos ônibus. As luzes dos faróis, dos sinais de trânsito, os neons, as janelas ainda acordadas, toda a luminosidade dos quarteirões estava mais densa. O ar tinha gosto de vinagre e escapamento. Bob olhava com dedicada atenção os quarteirões e as edificações ao seu redor. Duas vezes chegou a interromper a caminhada (Balela não gostou de nenhuma daquelas pausas; abanou muito o rabo e latiu todas as vezes nas quais pararam). Imóvel, ombros curvados, o que ele enxergava? O que tinha encontrado?

            Nada de especial, até encontrar o comitê no momento em que a neblina na avenida se dissipou um pouco. Um coletivo acabava de passar, seguido por dois carros pequenos. Bob olhou à sua esquerda; depois, à direita. Para qualquer direção observada por ele, o cenário seria igual: metros de concreto pichado, muitas pedras e paradas de ônibus, bem como poucas árvores, que quase pediam desculpas por ali terem sido plantadas. Dois horizontes confusos, empilhados sobre si próprios, limitavam a visão. Bob não gostava de avenidas com tantas faixas duplas. Caminhar nelas não lhe dava certeza alguma e um passo para frente podia ser ao mesmo tempo um passo para trás.

            Nenhum muro protegia o comitê eleitoral, que funcionava em uma edificação de três andares, suas paredes coladas aos também pequenos prédios que lhe eram vizinhos. A larga e única janela tinha sido coberta, no interior, por uma persiana. Ao lado da janela, uma porta trancada e também coberta por persiana. O trecho da calçada do comitê foi transformado em duas vagas, àquela hora desocupadas, de estacionamento. Ao lado da janela, a sigla do partido; abaixo da sigla, um símbolo. Balela queria seguir adiante, mas Bob a puxou pela coleira:

            – Balela balela balela – Gritou, coçando a cabeça. Ela choramingou um pouco e depois se calou.

            Bob largou suas coisas no chão; respeitoso, se aproximou do comitê. Não deu bola para a sigla, ou pro símbolo do partido. Depois de tanto tempo na rua, depois de tantas caminhadas… Era um barulho que ouvia? Lá do interior do comitê? Só podia ser a sua imaginação. Na sua cabeça, nasceu a imagem de um rei adormecido. Deitado do Outro Lado, escondido dos olhos mortais, sua espada encantada repousava ao longo do corpo. Um cortejo de flores e folhas recheava o caixão do rei barbudo, abrigando-o com delicadeza. Encoberto pela escuridão, ele na verdade dormia? Bob quis derrubar a porta! Mas cabia ao Rei acordar assim, de supetão? Com as mãos espalmadas na janela, Bob pressionava o próprio rosto contra o vidro; velava, os olhos esbugalhados, o sono do rei; seus lábios comprimidos contra a janela.

            Balela cheirou a perna dele e a lambeu. Bob se afastou um pouco, fez carinho na cachorra e decidiu se preparar para dormir.

*

            O conflito com a luz solar é diário.

            O sol insiste em cutucar Bob, puxar suas orelhas, lançar luz sobre a sua cabeça. A boa notícia era que a manhã, muito fria, ressurgiu não com um céu aberto e azul, mas sim com muitas nuvens cor de gelo, cuja teimosia barrava o sol na esquina do dia. Balela lambia o rosto de Bob, faminta. O homem levantou, mexeu na mochila e encontrou o restinho da ração. Dividiram. Continuou com fome e muita sede: onde acharia uma torneira? Daí ouviu uns cânticos e se animou, pois uma das dezenas de prédios baixos, a ocupar os quarteirões próximos, devia ser uma igreja de crentes. Em poucos minutos de caminhada, encontrou-a. Aparentava ser uma denominação pentecostal, que tinha alugado o salão do que no passado fora uma loja, ou uma oficina mecânica. O interior do local de culto se separava da rua por uma parede de vidro. Bob se postou lá na frente e esperou. Não demorou para que um dos auxiliares do culto, vestindo terno e gravata, saísse lá de dentro e o abordasse.

            Voltou satisfeito: sentado outra vez na frente do comitê eleitoral, se esbanjou com uns biscoitos e uma garrafa plástica cheia de água. Após devorá-los e soltar arrotos, o sono chegou e Bob se deitou. Antes de fechar os olhos, o Rei tinha desaparecido.

*

            No meio da tarde, se levantou. Balela estava nos arredores, fuçava alguns lixos e mijava nas quinas do quarteirão. Bob, por sua vez, se sentou com o rosto voltado para o comitê. Atrás da persiana, vislumbrou um banquete. Ao redor de uma mesa farta, às vezes redonda, às vezes horizontal, um grupo bebia e cantava. As vozes falavam em um tom alto e incompreensível; havia risadas em abundância, muita alegria, bebidas alcoólicas. No centro, uma ave – peru, chester, ou frango – assada, um exagero de carne. O banquete enchia o comitê de um perfume que misturava churrasco e aromas adocicados. Cravos e pimentas foram usados no seu preparo, sem dúvida. Bob achou o banquete lindo. No entanto, a ave assada começou aos poucos a se mexer; logo a comida estava frenética, sacudindo-se.

            – Balela!!

             O interior da ave, costurado, se rompeu. Bob enxergou, entusiasmado, centenas de pássaros, das mais diversas colorações, escaparem dos interiores da ave assada. De repente, as criaturas dançaram em círculos ao redor de Bob; ele riu e bateu palmas. Os pássaros se dividiram em faixas paralelas, ao longo do seu voo; os tons mais avermelhados, por exemplo, passaram a voar juntos e cada faixa de cor girava no sentido oposto da que lhe era superior. Eram tantas cores que lhe deu quase tonturas! Girando e girando e girando, porém, elas se misturaram até ficarem em uma mesma brancura.

            Tão rápidos quanto chegaram, os animais sumiram. Balela, sentada no chão, a língua para fora, o admirava. A tarde ficou espessa: cada objeto, pessoa e automóvel foi afixado em uma posição definitiva. Bob se levantou, impressionado.. Em poucos instantes, cessou qualquer tipo de movimentação – após estalos e tensões, a geometria de tudo estava realinhada. O tom cinzento e o frio – a argamassa. Estava morta, a paisagem? Parecia bem mais uma desistência.

*

             A caminhada da multidão o assustou; Balela, ansiosa, latia muito e balançava o rabo sem parar. A noite trouxe consigo milhares de pessoas, que ocupavam uma das faixas daquela avenida. Carregavam cartazes, faixas e repetiam frases. Bob não fazia ideia sobre o que protestavam, ou o que tudo aquilo significava. Reconheceu, porém, um fato que lhe dava ânsias na barriga: lá estava a PM.

            – Balela, balela…

            Eram jovens, a maioria deles – os policiais os encaravam com escudos e armas. Bob esticou a mão, talvez porque quisesse dar um aviso, talvez porque desejasse esboçar uma recomendação, contudo nada podia ser entendido. De repente, as bombas estouraram – gritos, correria; tosse e fumaça. Explosões de luz, aqui e ali: o chão zumbia. Balela enlouqueceu e deu voltas ao lado de Bob. Encolhido, ele viu pedras, destroços e corpos caírem; alguém apontava em sua direção. Balela?! Levantado, veio a porrada na cara, o cacetete nos rins. Um gosto de sangue, muita dor. Pancadas. Nos desenhos animados, quando caímos, surgem uns passarinhos ou uma órbita de estrelas ao redor da nossa face, não é mesmo? Ali só houve tempo para o chão.

            Acordou e cuspiu um dente. O céu da manhã seguinte, azul; o sol castigava a avenida.

            Doía-lhe o corpo.

            – Balela? Balela?

            Nenhum sinal. Havia um bichinho de pelúcia, apenas, largado no chão; a cabeça rasgada, recheio de espuma escapando.

            Bob estava sozinho.

            Fraquejou, e por fim se ergueu. A janela do comitê tinha sido quebrada. Abaixo dela, outra mancha; um rosto desmanchado, uma nuvem?

            O símbolo do partido fora pichado. Abaixo dele, uma frase: “Fora Temer”. Mancando, os olhos ainda molhados de saudade da cachorra, Bob se aproximou das novas palavras na parede. Não fazia ideia do que aquilo significava.

            – Fô…fôra-fóra… – Repetiu, três vezes. Se buscava alcançar algo com a repetição, não a logrou.

            Percebeu que a porta do comitê estava aberta. Pessoas se moviam ali dentro, do Outro Lado. Sem hesitar, entrou. Duas senhoras negras recolhiam cacos de vidro no chão. Outras três pessoas, um homem moreno e duas senhoras brancas, organizavam alguns papéis nas suas respectivas escrivaninhas, todas equipadas com computador e telefone. Quando Bob entrou, houve preocupadas trocas de olhares.

            – Meu Deus… – Disse uma das mulheres que arrumava os papéis.

            Ela olhou na direção de um cartaz pendurado em uma das paredes, no qual havia a foto de um senhor, cujo nome ecoava poder e importâncias. Mais importante do que qualquer nome, no entanto, era a frase abaixo de tudo: “Desaparecido”. Bob caminhou com dificuldade, sem que ninguém quisesse impedi-lo, o cartaz mais próximo a cada passo.

          Os olhos impressos na foto o amedrontavam.

            Apesar disso, afundou as mãos naquela face.

            Afastou as margens.

            E mergulhou.

Foto de Cristiano Mascaro. “Faróis no Parque Dom Pedro” (“São Paulo, a cidade”). Brasil © Cristiano Mascaro

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Cristhiano Aguiar Escrito por:

Escritor e crítico literário. Atualmente é professor dos cursos de Letras e Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Edita o site literário Vacatussa. No primeiro semestre de 2017, lançará seu próximo livro de contos.

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