DEDO Rainha QTV005

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O disco foi gravado no estúdio Audio Rebel por Renato Godoy, mixado por Eduardo Manso e lançado selo Quintavant/QTV.

por Ruy Gardnier.

Quando o DEDO começou a se apresentar no circuito alternativo do Rio de Janeiro (Comuna, Plano B, Solar de Botafogo, Audio Rebel), o som do grupo ‒ eventualmente acompanhado de alguma projeção audiovisual ‒ impressionava por sua soberba utilização da longa duração e pela construção microscópica de crescendos texturais e/ou de volume. Era uma música que funcionava na extensão, que precisava do escorrer do tempo para desdobrar suas potencialidades. A aura de mistério encontrava eco na apresentação visual do grupo, que optava pela dissolução da visibilidade do artista executante, ora por ter no vídeo a única fonte luminosa do show, ora por tocar no breu completo, ora por tocar literalmente atrás do telão. A extrema economia de signos visuais e principalmente auditivos causava estupefação pelo rigor e pela minúcia do trabalho realizado com as sonoridades ‒ drones robustos, estalos, ruído branco, barulhos em geral, curtos e longos ‒ e com o tempo.

A coesão sonora e conceitual do grupo é tão mais impressionante dada a diversidade dos instrumentos (latu sensu) e de procedimentos utilizados por cada um dos membros do grupo. Arthur Lacerda trabalha principalmente com amplificação de objetos via microfone de contato, mas também faz uso do toca-discos. Lucas Pires faz manipulação de fitas cassete via walkman, utilizando loops, acelerando ou ralentando a progressão normal da rotação. Rafael Meliga toca guitarra, mas não recorre a notas ou acordes, preferindo extrair vibrações discretas e contínuas. Há por vezes utilização de pedais, sintetizadores e eletrônicos, mas a execução in loco é preponderante. A dinâmica principal costuma ser entre os sons mantidos ‒ fundamentais nas peças de longa duração ‒ e o relevo criado pelos sons fragmentários ou granulados que surgem ao longo da execução.

O lançamento do CD Rainha (QTV005) reconfigura sensivelmente a ideia que se tem sobre a música do DEDO. Não porque o grupo tenha modificado substancialmente sua sonoridade, mas porque dessa vez somos apresentados a catorze peças curtas divididas entre a duração total de 33 minutos. São miniaturas visivelmente cortadas de sessões maiores ‒ o fato de não haver fade in e fade out nos começos e fins de faixa expõe com clareza o processo ‒, mas aqui o decisivo é que a consistência sonora não depende mais da progressão ao longo do tempo, mas da imediaticidade de cada intensidade do momento, de cada pequeno som que passa a adquirir uma autonomia maior, não mais tão dependente de seu espaço na duração. O que funcionava na extensão passa agora a valer no intensivo de cada situação, e isso abre uma gama de possibilidades que o DEDO explora de forma bastante singular.


Dos momentos solitários ‒ ou quase ‒ de uso de synth, toca-discos, manipulação de objetos ou cassete (a primeira “Transhumanism”, “d. object memory”, a primeira “ragna”, “Dog Dynamics”) até as peças mais sonoramente cheias (as três faixas que ganham o nome de “Rainha”, a última “Tranhumanism”), o que mais chama a atenção é a minúcia no controle de timbres e ritmos, dando a sensação de que estamos diante de um exuberante universo sonoro em que os objetos conquistaram definitivamente sua independência em relação aos seres humanos e passaram a se comunicar entre si através de códigos ‒ a nós ‒ misteriosos e fascinantes. Mesmo quando estamos diante de itens sonoros reconhecíveis da convivência humana ou animal (o sample de blues na primeira “ragna” ou o latido de cão em “Dog Dynamics”), o que sobressai é a deformação que o walkman ou o toca-discos opera sobre esses itens sonoros. Quem fala ‒ e distorce ‒ o blues é o walkman.

Num momento em que mesmo os gêneros underground do noise e do drone já parecem estar completamente segmentados e, consequentemente, confortáveis dentro de um regime preestabelecido de significação e fruição, é preciso investigar outras formas de organização sonora. Em Rainha, o DEDO empreende esse trabalho de modo fascinante, criando um objeto sonoro que evidentemente é herdeiro de diversas searas de criação musical (eletroacústica, noise, e mesmo o free improv) mas que não prescinde de nenhum deles para criar seus distintos nexos sonoros. Precisamos de discos-OVNI, e Rainha certamente é um desses, tão mais excitante por menos sermos capazes de desvendar seus mistérios ‒ o que importa não é desvendar, é atestar o mistério quando diante dele.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #9 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

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Ruy Gardnier Escrito por:

Jornalista, pesquisador e crítico de cinema.

Um comentário

  1. 24 de janeiro de 2016
    Responder

    […] Aqui o crítico Ruy Gardnier escreveu que o disco Rainha é ”tão mais excitante por menos sermos capazes de desvendar seus mistérios ‒ o que importa não é desvendar, é atestar o mistério quando diante dele”. Não acho que isso seja verdade. Na realidade, acho que o trecho é revelador da tendência explícita à hiper-falsificação, com sabores de uma elegante adesão ao ”transcendente”. Chama atenção pela extensão da fraudulência complexa e generalizada que descreve muito bem a ridícula atmosfera atual tanto da criação como do pensamento sobre música. O disco é mais uma produção modorrenta e infantiloide de algum grupo do ”circuito alternativo do Rio de Janeiro”. É justo perguntar se, filiado a esse tal circuito de firmas (esses selos e locais de shows) dedicadas ao ambiente de ”música alternativa”, droga e experimentação sonora, há algum artista cujo serviço não dê testemunho de uma fedentina total. Tendo um pingo de sinceridade, não há o que dizer sobre esse antro de lêndeas musicais acadêmicas que não a sua severa indisposição em criar qualquer coisa que não seja fruto do pacto esterilizante com o intelectualismo de esquerda na música, o vírus radical materialista da má-fé musical. […]

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