De crença, paraíso, canção, saravá!

De Feira de Santana para o palco do Rec-Beat, o canto de Russo Passapusso já ecoou de maneiras distintas. Em 2011, a primeira vez do baiano no Recife foi carregada de timbres e frequências graves. Tratava-se de seu trabalho à frente do Baiana System, que ressignificava matrizes de samba com matrizes de reggae, atreladas à cultura do bemba style, música eletrônica, guitarrada e axé.

Passada a primeira experiência, retornar ao mesmo palco quatro anos depois, na 20ª edição do festival, poderia naturalmente trazer-lhe mais conforto, se não fosse a estreia, no Recife, de seu recém-lançado projeto solo, Paraíso da Miragem, trabalho que pretende comunicar um universo bastante pessoal, bem diferente da poética explorada no Baiana System. “O Baiana System é um trabalho pra muita gente, que se comunica com a multidão. É uma espécie de bloco, pra todo mundo entrar. Ele trata a multidão como um só e o Paraíso da Miragem tem uma coisa mais singular, a gente se comunica com um só. É mais delicado, mais suave em certos momentos, tem mais nuances. Nele, é mais longo o processo de saber qual a resposta do ciclo da música, como ela vai voltar”, avaliou o baiano numa conversa entusiasmada durante a passagem de som, na tarde do sábado de carnaval.

Ao subirem no palco por volta da 0h, Russo Passapusso e os músicos que o acompanham estabeleceram de imediato uma corrente elétrica no palco, onde a presença de cada um revigorava o vizinho, estabelecendo o equilíbrio do fluxo energético da performance. O entrosamento era nítido, algo como um seio familiar. Foi neste momento que alcancei, com veemência, a força das palavras ditas por Russo, ainda no camarim, envolto entre os braços de seus companheiros minutos antes de entrarem no palco, numa espécie de pacto de sintonia. “Vou estar sempre olhando para o público e pra vocês pra gente se entender”. Corrente estabelecida. Logo em seguida, assimilei, com a mesma intensidade, outro momento de nossa conversa: “Esses caras não são simplesmente músicos. São as pessoas que me ajudaram a dar a concepção do trabalho. Eu tinha as músicas construídas, mas era uma coisa vazia em mim, precisava criar uma concepção. Depois que eles entraram, eles sabem falar muito bem do que seria este Paraíso.”

Quando designada para acompanhar Russo Passapusso no Rec-Beat, lembrei-me da primeira reação que tive ao assimilar o Paraíso da Miragem: que magia era aquela por trás das canções, capaz de transformar o disco num ritual de proteção? Aquilo não parecia com nada que eu havia escutado antes. Ao me dar conta do conceito do álbum, cada audição sugava uma tonelada de minha sensibilidade. Enquanto ouvinte, me sentia participando de uma experiência singular dentro do universo da música brasileira. Percebia diferentes traços culturais e berços musicais de nosso país naquele repertório e conseguia visualizá-los com riqueza de detalhes, algo que, para o meu deleite, Russo esmiuçou com bastante nitidez durante a nossa conversa. “Cada músico tem suas guias. Eu aprendo muito com eles. Tem a matriz do Curumin com a coisa do rap-samba-soul, Sampa, essa coisa meio arigatô dele, budista. Tem Saulo (Duarte), que lida com cultura popular, a coisa da guitarrada, que é uma característica muito forte da terra dele. O (Maurício) Badé tem a percussão enraizada em Recife. Eu precisava ver o que essa mistura ia dar porque o meu conhecimento de percussão, samba e de guitarrada é outro. Essas questões estão se comunicando de uma maneira muito nova e experimental dentro do Paraíso.”

Imaginava o Paraíso da Miragem no palco assim como ele é: uma presença de espírito. A métrica da pergunta e resposta que norteiam as composições, juntamente à tradição dos coros, traziam, desde o início, algo de venerável.

– Meu paraquedas, pra que dar?

– Pra te dar um bom motivo pra voar.

– Vou te dar um bom motivo, vou te dar meu paraquedas pra tu parar de guerra.

– (Guerra!)

– Pra tu parar de dor.

– (De dor!)

– Pra tu parar de medo.

– (medo!)

-Pra tu pular de novo.

– (Novo!)

A maneira como Russo lida com a estrutura dessas canções no palco é bastante cuidadosa, envolvendo toda uma confiança na energia do público. “A questão da pergunta e resposta leva a uma crença da fé. Sempre tem essa coisa do sermão entoado para esperar a resposta e então fechar o ciclo. É o amém em todos os cantos, em todas as religiões e terreiros. Fé pra mim é isso, é a volta da energia. Nunca é o cara sozinho. No começo do show, “Paraquedas” é uma música que faz isso com as pessoas. Eu quero que elas parem de dor, parem de guerra. Se elas não falam de volta, eu fico meio assim. Essa música é bem em cima desse patuá.”

Foram 45 minutos de descarga elétrica, normalmente tido como pouco tempo para um show comum, mas suficiente para que o Paraíso da Miragem revelasse todas as suas nuances no palco. “Achei o tempo do show muito sensato, ideal para mostrar um trabalho. Não temos a necessidade de enxertar, segurar o público.” O baiano não economizou fôlego. Mostrou quase todas as canções do álbum num dinamismo que levou a multidão de mais de 10 mil pessoas a reagir de forma calorosa. Um dos cartões de visita do álbum, a música “Flor de Plástico”, foi o ápice da sintonia. Um samba malemolente de frequências suaves, aparentemente simples e, no entanto, maravilhosamente complexo. “Que lástima uma flor de plástico/ Não há terra nesse vaso/ Não há vaso nessa terra.” Os versos estavam na boca do povo e ecoavam feito pólvora no Cais da Alfândega. Era apenas a terceira música do repertório e no meu pensamento apenas uma certeza: o ciclo da música que tanto Russo acredita já estava consolidado, se nutrindo a cada retorno do público.

Até aquele momento, a banda se preparava desde as 14h, quando chegaram ao Cais da Alfândega para a passagem de som, pouco depois de aterrissarem no Recife. Neste momento, percebi que nada para eles é protocolar. O entrosamento é algo voluntário, que faz parte da convivência da banda principalmente quando estão longe dos holofotes e do público. Ao contrário de alguns artistas, que não gostam da passagem de som e preferem confiar a maior parte da missão a roadies e técnicos de palco, ou fazem de tudo para não perder tempo, Curumin (bateria), Zé Nigro (teclado), Saulo Duarte (guitarra), Maurício Badé (percussão) e Marcelo Duoreck (que substituía, no dia, Lucas Martins no baixo por incompatibilidade de agenda), se engajam na missão com despojamento, sem se descuidar dos pormenores. É como se comungassem de uma mesma causa, um mesmo afeto. Quem estivesse passando pelo Cais naquele momento poderia vê-los bastante à vontade em cima do palco, ajustando seus respectivos instrumentos, estabelecendo trocas e afinidades, um descalço, outro sem camisa. Estar ali, ainda que sob o sol escaldante do Recife, após uma passada rápida no hotel sem tempo para descanso, parecia ser algo prazeroso para eles. Depois foi a vez de Russo reconhecer o espaço. O baiano sobe ao palco por último e dá início à passagem do repertório, sem deixar transparecer o cansaço do dia anterior, quando se apresentara com o Baiana System na abertura do carnaval de Salvador. As três primeiras músicas do disco foram suficientes para estabelecer o volume e o retorno da voz de Russo para os demais integrantes.

No ar, o vocalista deixava uma certa apreensão, a mesma que manifestava no camarim, antes do show. Não era por menos: além de se tratar da estreia do Paraíso da Miragem no Recife, era apenas o quarto show do projeto. ”O Paraíso está muito novo para entender e dizer que vamos ficar tranquilos. Rola esse nervosismo de ser recém-nascido ainda. Cada show é uma descoberta. Como são muitas nuances, ainda está aquela coisa pra gente se perceber. Mas acho que vai funcionar bastante”.

Em contraponto aos músicos que, mais descontraídos, revisavam o repertório no camarim entre goles de uísque e alguns baseados, além de se divertirem com os figurinos carnavalescos que iriam vestir, Russo não escondia a inquietação. Sentado, de olhos fechados, parecida meditar por um momento depois de alguns passos aflitos pelo camarim. Em seguida, veio a preocupação com a voz, já queria emendar mais dois shows no dia seguinte em Salvador, com o Baiana System. A esta altura, Edy Trombone, que não pôde estar durante a passagem de som, já chegara para completar o time e embalava os companheiros com seus sopros, enquanto afinava seu instrumento no próprio camarim.

Perceber o processo criativo que leva a linguagem do Paraíso da Miragem ao momento da apresentação é se deparar com uma força de trabalho gerida, sobretudo, por quem valoriza a arte do encontro. Pessoas que se colocam a serviço da música dispostas a somar e comunicar a sua verdade. “Todas as músicas têm alguma relação com a fé. É o signo da gente”, concluiu o baiano de Feira de Santana. Saravá!

Foto: Flora Pimentel

Publicado originalmente no e-book passagens performances processos (2015).

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Marina Suassuna Escrito por:

Jornalista, estuda na Pós-Graduação em Fotografia e Audiovisual na Unicap. É repórter da revista Outros Críticos e colabora nas revistas Continente e Cardamomo.

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