De corpo presente: delícias psicopunks

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Arte de Daniel Liberalino no álbum “Fricção”, de D mingus.

Não se trata de discórdia. Trata-se de expatriar um fantasma. Lembro agora de um comentário, elegante é verdade, de Renato L. no Facebook sobre o (pré)suposto superdimensionamento da psicodelia pela tal nova música pernambucana.

Refazendo a bagunça, os tais desabituados de reverências, esses seres quaisquer: os infames da desconhecida Cena Beto, agora estariam se arvorando herdeiros da tradição psicodélica pernambucana:

1)    Como se essa, como outras, não fosse mais uma tradição inventada.

2)    Como se donos houvesse desse jogo de apropriações.

3)    Como se pernambucana fosse essa tradição.

Ora, não se negociam referências. Referências são acionadas. Psicodélico somos todos. Betos somos poucos e alguns. Em geral, rufiões e vagantes que adoram ser defenestrados de bares e paixões.

Muitas vezes, não se trata se quer de reverência histórica. Alerto, escrevo ao som das canções potências de D Mingus; ora grafado synthpop, ora psicotropical, ora psychedelic, até um ser tal qual, capaz de gravações (im)possíveis na toca do Pé-de-Cachimbo.

Sem ser pudoricamente correto, profano a tal psicodelia. Ela não é uma, não são várias, nem é tudo e nada, aí já seria ecletismo. Como diz o nome, são maneiras possíveis de desabitar camadas racionais e sensíveis do universo musical. Ultimamente, a dualidade que respeito é vida/morte.

Para quem pode achar que após eviscerar o boi restam ou o filé ou os músculos com osso, psicodelicamente há muito mais, por exemplo, o mocotó. Por falar em iguarias, a canção “Jardim Suburbano” aciona “de sua maneira” aquilo que é anti-reverência embalada em um bucolismo periférico, que carrega imagens de praças empoeiradas e ruelas descalçadas: “Pelas ruas vazias/ Vias respiratórias congestionadas/ Pelo mofo da nostalgia”.

Eu sei, estão lá a sonoridade atmosférica (como se qualquer sonoridade não o fosse!!!) com violões, a melodia quase menor, o contraponto da flauta e um teclado minimal. Mas esse é um psicodelismo qualquer, não individual, mas o singular, pois habita o limbo, agenciando “Êxtase em um jardim suburbano/ À luz do dia”.

06. Jardim Suburbano by D MinGus

Assumir-se agridocemente psicodélico não é roubar nada de ninguém. Parodiando Jomard Muniz de Britto, trata-se de desaristocratizar a invenção, ou mal-dito, os donos da bola da tradição. É uma expropriação impessoal, mas política. É possível que alguns dos postulantes a proprietários do Psico-drama-pernambucano estejam até se valendo de lubrificantes culturais para sentarem nas zonas de conforto. Perdão. Paro, faço meu plié, cada um com suas psicodelícias. Aqui emerge o dissenso, a política cultural de fato (e de efeito). Corpos que se colocam e ocupam espaço nas cenas musicais do Recife atual, não aquele das estátuas fossilizadas.

“Rota de Colisão”, mais uma canção de D Mingus, poderia ser uma fincada estética nos esternos desavisados. Está lá a coragem de acionar as velharias, Pink Floyd, Yes, Secos & Molhados, quiçá até Ave Sangria. Mas as velharias não vêm só, elas se coagulam a sonoridades flamengas e brados sem sobressaltos: “A discordância vem/ Violenta quando lhe convém”. Em uma atmosfera Beto Psicodélica, que pode ser do desencontro casual ou do enfrentamento poético: “Não consigo lhe entender/ Estamos eu e você em rota de colisão”.

04. Rota de Colisão by D MinGus

Afinal, já se foi o tempo em que política era luta por um lugar institucional. Hoje, juntar um bando de desabitados é um modo de ocupar outros becos, que não pressupõe deixar de reconhecer que há inúmeras psicocupações nos arrecifes. Cena é também interpretar-se a si mesmo no meio da violência que insiste em vender homogeneidades onde convivem sujeira, beleza, caretice e psicodelia.

Pode ser que em breve não reste nada, que os Betos sejam varridos sem deixarem mapas. Quem sabe só reste destes desditos, alguns doces e a lembrança daquela iguaria que nos dava fome. Mas esse ser qualquer, o tal beto não deixará de ser (também) “naturalmente punk e psicodelicano”.

por Jeder Janotti Jr.

Imagem de capa: D mingus no clipe “Colmeias”, dirigido por Camila Lacerda.

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Jeder Janotti Jr. Escrito por:

Professor do Programa de pós-graduação em Comunicação da UFPE.

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