Da oralidade à palavra cantada

Se eu tivesse recebido a missão de escrever este texto até meados do século XV, provavelmente ele não seria escrito, mas sim cantarolado. E haveria grandes chances disso ser feito com base no improviso. É que naquela época a técnica da escrita ainda não havia se difundido e as novidades do mundo chegavam às cidades através dos portadores de histórias, conhecidos como trovadores ou simplesmente cantadores. Homens que viajavam de região em região, de orelhas em pé e com algum instrumento de corda nas mãos, atentos às novidades mais relevantes na sociedade. Transformando o cotidiano em informação cantada. Eram os verdadeiros jornalistas da Idade Média, cuja função era levar ao povo notícia em forma de música.

No Brasil, essa tradição medieval deu origem aos poetas que repetiram a fórmula europeia e viajavam pra cima e pra baixo espalhando seus versos. Mais precisamente é na região Nordeste do país que a música relacionada com a oralidade se destaca. É onde nasce o repente, gênero lítero-musical em que os cantadores, ‘de repente’, improvisam em público versos e melodias num desafio contra o oponente. Um jogo em que não será analisada a qualidade da voz ou da afinação, mas o ritmo e agilidade mental que permita encurralar o adversário apenas com a força do discurso. Essa brincadeira deu origem a outras vertentes como a embolada (inspirada na ginga da África, com pandeiro), o aboiador (vaqueiro do sertão que absorve a cantoria sem instrumentos) e a cantoria (com viola ou rabeca), entre outros.

“Quando eu era moleque, eu via direto o Som Brasil, um programa clássico de música regional, e uma das coisas que me deixavam maluco eram os repentistas.” -BNegão

Voltando mais uma vez no tempo, quem viveu num gueto jamaicano ou nos Estados Unidos durante a década de 60, provavelmente viu com seus próprios olhos o nascimento do rap (rythm and poetry, em português ritmo e poesia), gênero que também faz da palavra sua ferramenta principal. Assim como o repente, o rap é um estilo de cantar versos improvisados, apesar das diferenças na sua base rítmica, na elaboração da rima e na organização das estrofes. Contemporâneo que se inspira no passado, modernidade que lida com a tradição. Sobre este assunto, vale destacar um trecho do filme Palavra (En)cantada, de Helena Solberg e Marcio Debelllian. Numa cena, o rapper carioca BNegão assiste à Batalha do Real, encontro de MC’s na Lapa, no Rio de Janeiro, realizado uma vez por mês. “Quando eu era moleque, eu via direto o Som Brasil, um programa clássico de música regional, e uma das coisas que me deixavam maluco eram os repentistas. Essa batalha (de MC’s) é uma retomada desse gênero com outra cara, mas o estilo é o mesmo. Acho clássico”, opina BNegão.

Nascido no bairro de Casa Amarela, Zona Norte do Recife, o cantor Zé Brown é embolador, repentista, rapper e um dos fundadores do grupo Faces do Subúrbio, expoente do gênero nos anos 1990. Zé Brown tem também no currículo um disco chamado Repente, Rap, Repente, lançado em 2008, o qual faz uma mistura entre os dois estilos musicais. Ou seja, o cara é um monstro quando o assunto é brincar com palavras com base na tradição do repente ou no improviso do rap. “Quando comecei em 1988 a escutar o rap brasileiro, percebi que a rima era bastante notável. Eu tinha um arsenal de rimadores na estante da minha casa, pois minha mãe, que é de Nazaré da Mata, escutava muito Luiz Gonzaga, Dominguinhos e Cajú e Castanha, entre outros. Quando percebi que ali estava a rima, me despertou uma ousadia que foi de misturar o rap com o repente”, revela Zé Brown.

“Improviso tem que ser ao vivo. Se algo foi composto uma hora, trinta minutos, um minuto atrás, isso já não é mais improvisado.” – Adiel Luna

Poeta, violeiro, cantador, cordelista e mestre de maracatu de baque solto, Adiel Luna é outro que tem nas veias a essência do canto de improviso. Segundo ele, existem algumas regras para que um bom repente possa se concretizar. “Primeiro, que improviso tem que ser ao vivo. Se algo foi composto uma hora, trinta minutos, um minuto atrás, isso já não é mais improvisado. E pra ser um bom repente tem que ter métrica, rima e oração. Alguns acreditam que pra poder fazer tem que ter um dom, independente da técnica”, explica Adiel Luna, que inclusive já atuou em parcerias com Zé Brown.

No que diz respeito ao rap, o improviso é para muitos a porta de entrada no gênero. No centro do Recife, há quatro anos a Batalha da Escadaria (realizada numa escadaria na Rua do Hospício) tem sido um celeiro de rimadores de várias cidades de Pernambuco, instigados a empunhar microfones como armas e cravar duelos tendo a palavra como munição. Rafael Salles, participante da seletiva pernambucana para o Duelo de MC’s Nacional 2014, é um amante da arte do improviso. “Tem muito MC que prefere não improvisar, diz que batalha não é legal. Eu respeito a opinião, mas eu admiro muito quem tem essa capacidade. É um diferencial, sem dúvidas”, comenta o rapper, cujo pai foi cordelista e o inspirou nessa caminhada. “Acho inclusive o repente mais instigado que uma batalha de rap, porque existem algumas regras que dificultam a brincadeira”, opina.

“Acho que o grande elemento que a cultura popular poderia absorver do rap é o poder de combate e confronto que as letras têm, principalmente numa situação como essa a qual o maracatu rural vive” – Siba

O cantor e compositor Siba também é um artista que tem forte relação com o improviso, principalmente quando executado pelos mestres de maracatu de baque solto na Mata Norte de Pernambuco. Essa relação tem sido reafirmada com a dedicação do músico ao projeto Azougue Vapor, que conta com os Mestres João Limoeiro (cirandeiro de Carpina) e João Paulo (mestre de maracatu de baque solto de Nazaré da Mata). Questionado sobre como enxerga a relação entre os dois gêneros do improviso, o rap e o repente, Siba vai além das análises superficiais. “É mais comum o rap se aproximar com o repente do que o contrário. O jogo do improviso para o repentista tem mais regras, não é tão livre e aberto como no rap”, opina Siba. “Mas eu acho que o grande elemento que a cultura popular poderia absorver do rap é o poder de combate e confronto que as letras têm, principalmente numa situação como essa a qual o maracatu rural vive”, conclui o artista, após citar os casos de repressão policial nas sambadas de maracatu ocorridas desde o início do ano na Mata Norte de Pernambuco. Tradição que lida com a modernidade, passado que se inspira no contemporâneo. Será?

Arte de capa: Raoni Assis

Publicado originalmente em outubro de 2014, na 5ª edição da revista Outros Críticos.

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Marcus Iglesias Escrito por:

Jornalista e repórter do site Cultura PE.

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