Crítica periférica

Ontem à noite aconteceu a abertura do III Comúsica – Encontro Nacional de Pesquisadores em Comunicação e Música. O evento contou com programação extensa nessa quarta-feira, no Centro de Artes e Comunicação (CAC) da Universidade Federal de Pernambuco. O debate da mesa de abertura teve como tema “O papel da crítica jornalística e dos festivais na formação das cenas musicais”, e foi mediado por Thiago Soares (UFPB/Comúsica), com participação de Bruno Nogueira (Aeso/Abril pro Rock), Ana Garcia (Festival No Ar Coquetel Molotov), Ricardo Maia Jr. (UFPE/ Ex-Exus) e Nadja Vladi (UFBA/Jornal A Tarde).

Como o debate ocorreu fora do ambiente acadêmico (Caixa Cultural – Recife Antigo), foi possível trazer a discussão para além dos “pesquisadores oficiais” das universidades e faculdades. Embora não estivesse com plateia cheia, o III Comúsica contou com a presença de produtores, jornalistas e demais pesquisadores de música do Recife, como Gutie (festival Rec-Beat), Rodrigo Édipo (MI – Música Independente em Pernambuco), Zeca Viana (Recife Lo-fi), Jeder Janotti Jr. (UFPE), Victor de Almeida (Festival LAB e UFPE) e Rafael de Queiroz (MI e UFPE), mostrando o quanto debates como esse são importantes para a consolidação de um espaço aberto à crítica, não se restringindo, apenas, ao meio acadêmico.

As considerações dos debatedores do III Comúsica (sobre o papel da crítica jornalística na música) foram unânimes em perceber que, atualmente, as editorias de cultura dos jornais impressos se atêm a publicar a agenda cultural, reproduzindo partes dos releases em seus textos. Bruno Nogueira chegou a comentar sobre um mesmo jornalista que conseguia a proeza de cobrir eventos de diferentes estilos, que ocorriam simultaneamente na cidade. Como já afirmei em um texto anterior, acredito que: “[…] os cadernos culturais, muitos deles, se limitam a publicar trechos de releases, quando não releases inteiros, ou enchem a página com fotos, pequenas descrições e fragmentos de entrevistas. Assim, a crítica sobre música é frequentemente feita de hora, local e preço”. Por outro lado, Ana Garcia afirmou que as matérias nos grandes jornais impressos são de suma importância para a divulgação do Festival No Ar Coquetel Molotov, mesmo com um público, em sua maioria, jovem. Isso nos mostra que, apesar do afastamento sistemático que os cadernos culturais de crítica de música assumiram ao longo do tempo – seja através da ausência de ensaios, artigos ou resenhas mais aprofundadas –, para a maioria dos agentes da música pernambucana, ainda são os grandes jornais que ratificam e filtram o que há de mais relevante, culturalmente, na cidade.

Para confirmar essa tese, o texto “Recife revela cena musical da periferia”, do jornalista d’O Globo, Sílvio Essinger, provocou amplo debate – principalmente nas redes sociais (o texto teve mais de mil compartilhamentos desde ontem, 25.03.13, data em que foi publicado) – já que o texto trouxe à tona uma “nova cena musical pernambucana” até então ‘periférica’, representada por músicos ignorados pela imprensa e produtores culturais do estado, com raras exceções. Em seu texto, Essinger referiu-se à JuveNil Silva como o “grande aglutinador da cena”, Jean Nicholas, o “psicodélico e folk”, Germano Rabello, “de rocks rurais e lisérgicos “, D Mingus, o “gênio de estúdio” e a Matheus Mota coube a definição de “cujo trabalho tem menos semelhanças com os dos amigos”. Todos presentes na coletânea do festival A Noite do Desbunde Elétrico, lançado nessa semana, e já com sete anos de existência. Apesar de podermos contestar alguns dos rótulos – seja como ‘periferia’ ou ‘desbunde’ – é preciso considerar que o papel da crítica é o de assumir riscos, como bem resumiu Ricardo Maia Jr. durante o debate na Caixa Cultural, e, nesse sentido, a matéria de Essinger cumpre bem esse papel. Assim, resta aos demais agentes da música pernambucana refletirem sobre a crítica cultural, e como, depois de tantas décadas, ainda nos vemos sendo pautados pela imprensa do Sudeste – como bem questionou Jeder Janotti Jr., no debate. É difícil acreditar num cenário em que jornalistas, críticos e produtores culturais da área de música, em Recife, ainda não conheçam os últimos discos de D mingus e Matheus Mota, nunca tenham lido a revista MI (Música Independente em Pernambuco), ou ter procurado saber sobre o Recife Lo-fi, da série de shows do Pernambuco Contemporâneo, no CCBB (Rio de Janeiro), ou do blog Hominis Canidae. Se assim ainda está, a imprensa pernambucana continuará dependente do crivo jornalístico do eixo Rio-São Paulo.

Outro aspecto importante do debate girou em torno dos festivais de música. O mesmo tema já foi tratado no Outros Críticos, no texto “Estouramos a bolha?”, de Victor de Almeida – que estuda “as transformações do mercado de música ao vivo, em particular a nova cultura dos festivais de música”.  Coincidentemente, a expressão “estourar a bolha” também foi usada como exemplo durante o debate na noite de ontem, onde, além de contar com a presença de representantes do Coquetel Molotov e do Abril Pro Rock, Gutie, do Rec-Beat, salientou a importância dos festivais, colocando-os como a principal janela de apresentação das bandas, de modo que, são nos festivais de música que os artistas e as bandas têm a oportunidade de mostrarem seus trabalhos para um público mais amplo e direcionado. Em contraponto, Bruno Nogueira e Ana Garcia destacaram a importância de apresentações em casas de show de pequeno e médio porte para a consolidação de um grupo ou “cena” musical, definindo-as como “oxigenadoras” da cena cultural da cidade, capazes de criar uma agenda de programação que preencha um ano inteiro de eventos. Realidade ainda longe de ser alcançada, já que a cidade possui poucas casas com aparato sonoro digno de uma apresentação musical. Diante disso, não seriam os teatros públicos uma alternativa para a realização de shows desse porte? Nessa semana, o Arraial Instrumental divulgou a seleção de bandas para mais uma temporada. O Centro Apolo-Hermilo recebeu o Porto Musical. Apesar de estarmos falando sobre eventos diferentes, com estruturas e demandas distintas, é inaceitável que a agenda dos teatros da cidade não esteja sendo ocupada pelos músicos e artistas com a frequência e atenção merecida. Vide a situação atual do Teatro do Parque (em hotsite lançado hoje pela Folha de Pernambuco), que causa lamentação a quem anseia renovar a cena cultural recifense.

Além de tratar da mídia impressa, no III Comúsica também foi questionada a importância da crítica musical feita na internet. Como editor do Outros Críticos, penso que qualquer pessoa pode criar um blog e escrever sobre o que quer que seja. Isso é fato. Mas do mesmo jeito que uma música estritamente comercial, baseada na cópia e na repetição rasteira de clichês, não vence a barreira do tempo; blogs, sites, revistas, festivais, produtores, jornalistas, críticos etc, também não vencerão. Ou alguém acredita que um festival como o PE Folia 2013 irá sobreviver ao tempo? Vindo do “produtor cultural” Antônio Bernardi, que faz a seguinte afirmação (quando questionado sobre a ausência de artistas Pernambucanos na grade de programação): “Na verdade, gostaríamos muito que Pernambuco pudesse ter as mesmas estrelas que a Bahia tem. Então isso é uma coisa que vai muito além de nós produtores. É uma questão de gestão dos governos municipais, estaduais (sic), enfim, de poder incentivar cada vez mais os nossos artistas. Se tivéssemos uma Ivete Sangalo, um Chiclete, eles estariam com certeza dentro do evento”.

Ao final do III Comúsica, fortaleci a ideia de que, enquanto o cenário cultural da cidade tenta se encontrar diante dos impasses políticos que afetam diretamente a relação entre músicos, festivais e mídias, a escrita com vocação crítica, seja ela publicada em meio virtual ou impresso, é uma peça essencial para o desenvolvimento cultural, devendo ela assumir o papel de vanguarda, e não se acostumar à periferia, mas sim estar em todos os lugares, compreender as diversas manifestações. Produzir e consolidar novos espaços de atuação. Escrever para valorizar, inquietar, e, sobretudo, provocar.

por Carlos Gomes.

Imagem de capa: newspaper_texture por This is college.

Share Button

Categorias

Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.