Composição e Paisagem Sonora

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Mateus Alves é mestre em Composição e faz parte da Orquestra Sinfônica Jovem do Conservatório Pernambucano de Música e da banda uïu.

por Mateus Alves.

Durante meus estudos composicionais, sobretudo os de Música Contemporânea, deparei-me com possibilidades musicais que até então nem imaginava que existiam. Muitas delas, inclusive, dialogam diretamente com sons e ruídos provenientes do cotidiano de uma grande cidade, por exemplo. Isso despertou em mim um interesse maior pela paisagem sonora urbana na qual estamos imersos no dia-a-dia. Logo, passei a ouvir e a absorver de outra forma sons que em outra época dispensaria como inúteis.

Quando estou me locomovendo de ônibus, por exemplo, me surpreendo ao ouvir o som do motor, percebendo como ele se transforma à medida que se aumenta ou se diminui a velocidade; por morar perto de parques, geralmente paro para “ouvir as árvores”, observando como o som do vento batendo nas folhas e o canto dos pássaros dialoga e se entrelaça com o “barulho das ruas”: motos, carros buzinando, pessoas conversando, cachorros latindo ao longe etc; até mesmo a interação entre a música que estou ouvindo nesse exato momento (aqui no computador) e o barulho de carros num congestionamento ao longe tem algo interessante e musical a me dizer. Enfim, estes são apenas alguns exemplos de elementos da paisagem sonora de uma cidade que me interessam e que tem um reflexo direto na música que busco produzir. Eles compartilham algumas características fundamentais que procuro explorar no meu trabalho: as possibilidades de transformação do som e a fragilidade e imprevisibilidade deste processo.

Atualmente, me inspiro bastante no trabalho de compositores como György Ligeti e Morton Feldman, que exploravam de forma bem interessante esse “processo de mutação” que o som pode experimentar. Eles compunham, muitas vezes, economizando bastante no número de notas utilizadas, por exemplo, dando uma maior atenção às sutilezas e características internas do som. Esse método, a meu ver, chama a atenção dos ouvidos para outros aspectos sonoros como a fragilidade e imprevisibilidade citadas anteriormente, algo que relaciono diretamente com os processos que os sons da paisagem sonora de uma cidade vivenciam. Outro compositor que dissecou profundamente esse universo musical foi o italiano Luigi Nono, do qual também admiro bastante o trabalho. Sendo assim, posso dizer que me baseio, em termos criativos, em possibilidades sonoras que possuem elementos presentes também nos sons de uma cidade.

“Muitas vezes analiso a paisagem sonora da cidade como uma grande orquestra executando uma peça.”

Outra característica da paisagem sonora de uma cidade que me interessa bastante é de ordem mais “técnica”. Como um dos meus principais focos em composição é a escrita para grupos de câmara e orquestra, naturalmente presto bastante atenção na espacialidade do som. Por isso, muitas vezes analiso a paisagem sonora da cidade como uma grande orquestra executando uma peça. Ouço uma cigarra e seu canto de fim da tarde, por exemplo, como um oboé no fundo de uma orquestra; uma buzina de carro como um ataque de trompetes; sem contar as possibilidades de arranjo e escrita “sem lógica“ que os sons e ruídos de uma cidade sugerem, alimentando experimentações e auxiliando na construção da minha própria linguagem composicional.

Dessa forma, considero a paisagem sonora de uma cidade como importante para o desenvolvimento da minha voz musical. Observar os sons de um grande centro urbano – mesmo os mais irritantes – e perceber como eles se comportam e se transformam é, para mim, uma fonte inesgotável de possibilidades musicais, as quais tento absorver construtiva e criativamente.

Foto de capa: Imagem da capa do disco Música de Câmara e Orquestral, de Mateus Alves.
Mateus Alves participa de uma das seções da edição de maio da revista Outros Críticos e do debate de lançamento da publicação.

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Mateus Alves Escrito por:

Compositor e baixista.

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