Cidade suspensa, sons remotos

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Imagens: Bruna Rafaella Ferrer

por Carlos Gomes.

Escrever estritamente sobre música já não é possível. Os sons, muito mais os sons, se impõem crítica, cultural e politicamente sobre a escrita. Categorias como artigo, ensaio ou resenha são diluídas, assim como as cidades que se inscrevem sobre cidades produzindo novas camadas de sentido. Raspar as superfícies delas e descobrir embaixo de sua crosta o corpo primitivo, suas histórias.

São algumas horas e as ruas que deveriam dar para o Mercado de São José são o plano das lojas – na vista angular de quem passeia olhando vitrines, dizendo sim ou não para os lojistas – e o das sobrelojas – fachadas, andares, ornamentos, ruínas, variadas ruínas, uma cidade que resiste acima de quem vê, mas não consegue a enxergar como uma outra cidade, menos concreto, mais liquidez – que contam o passado e o presente, sobrepostos, reescrevendo um futuro ainda assim ruína, aqui mesmo neste lugar de passagem.

Sabia destino, o Mercado, mas não sabia o caminho curto ou longo, por me deixar perder entre as diferentes ruas. Queria enxergar a complexidade da cidade acima das lojas enquanto me perdia nessas possibilidades de labirinto, Paisagem – é nisto que a cidade verdadeiramente se transforma para o flâneur. Ou mais precisamente: para ele, a cidade cinde-se em seus polos dialéticos. Abre-se para ele como paisagem e fecha-se em torno dele como quarto. O flâneur, sem o saber, persegue essa realidade¹.

Dobrei o som à minha volta com a artificialidade dos fones de ouvido no volume quase máximo a tocar Cassettes, […] encontram-se, em diversas camadas, apenas sons oriundos desses cassetes, cortados, desgastados, transformados em loops, processados ou não e em rotações variadas, podendo-se ouvir também o som do próprio toca-fitas como parte das composições.²

A cidade de baixo despejava sua sonoridade tipicamente urbana de uma capital-porto-comércio, mas há os que apostem em vitrines, os em calçadas e uns outros com os velhos hábitos de fazer do grito o convite para adentrar em seu labirinto de coisas; a cidade de cima despejava detritos, tempo, nutria plantas, ornamentos, trepadeiras, pombos, muitos deles, fios ininhados, janelas de cores variadas e descasques das paredes revelando antigas identidades; a cidade de dentro de mim era esse som do objeto fita cassette rodando repetidamente dentro da minha cabeça, mas que confundia-me no que era som dos Cassettes ou do lugar de passagem. Caos como colagem a inventar novas dobras de sons com a paisagem sonora das ruas. Como nessa caminhada-labirinto, o simples ato de levantar a cabeça, enxergar o micro ante o macro dos lugares por onde passava, reconstruía em mim toda uma cidade que sempre estivera ali, decompondo-se diante de toda presença.

Mas são quatro as músicas dos Cassettes, as que me iluminam a enxergar essa microcidade. Se “Prematuro” fez sentido como abertura, a “Valsa” chiada que vaza do barulho da troca das fitas transforma o som do próprio suporte (toca-fitas) em matéria-prima. As vozes que incidem dessa torta valsa são fragmentos interessantes para escrevermos sobre as ladainhas dos vendedores de artesanato ou peixe do Mercado que finalmente me encontra. Já que para o flâneur o contrário não seria de todo possível.

Mudo de álbum. Vozes gemem mais que tagarelam. Vendedores constroem paisagens com suas falas, vendas, artes, pescas com tons de vermelho e cinza, nesse galpão imenso que cheira o próprio odor do abandono. Sua beleza é saber que está vivo apesar das sombras e assombrações do novo que pouco a pouco desejam destituir a paisagem do bairro de São José. Vozes são mais tensas, incidem noites e sons soturnos. Feitas as compras da paisagem interna de adornos, artesanatos e gente e pescaria do Mercado, a caminhada segue ao som constante dos fones, agora conectados às memórias dos recortes de 1987/1990, enquanto atravesso uma das pontes em direção ao sitiado bairro novo e velho do Recife.

Como se dentro das engrenagens ou ambientes sonoros das construções civis, os sons de “1987” explodem e atravessam comigo pelas duas margens da ponte Maurício de Nassau. Na margem direita, duas torres apunhalam as costas da cidade, e quase que alinhadas de forma equidistante, à margem esquerda, no que a vista alcança ao longe, dois novos edifícios, ainda em construção, dão sentido à ferida que permanecerá sangrando enquanto os olhos ainda cumprirem a função de olhos.

“1990”, diferentemente, é feita de nuances; talvez não precisamente nesse ano, a minha primeira recordação do centro da cidade é a imagem de canhões – daqueles mesmos que vemos nos fortes – no topo de uma das igrejas. Ainda que miragem, memória ou invenção, continuei a preservar mais em mim, do que na busca exata daquela igreja, a forte imagem de dois canhões instalados no topo de alguma construção centenária, em desuso, provavelmente, tanto o canhão, quanto a igreja, mas fortes como contradição e memória. Fotografia permanentemente em revelação.

Me perco e volto à infância. Casas são marcadas pelo Estado nas periferias. Aproximadamente vinte anos se passam, e nesse tempo funcionários voltam a rondar as ruas descalçadas, fazer anotações e servir de sombra às assombrações que pairam sobre os moradores dos subúrbios de Pernambuco. Alguns convivem com as assombrações, mas outros recebem a visita real. De longe se vê e é tão natural. Se tua casa é um chão de medo, te ouvir não faz mal. A casa sangrou primeiro. Posso sofrer, posso chorar3, dedilho no violão no bairro do Porto Madeira, em apartamentos cercados por muros baixos e narizes de pé, onde o rio é cortado pelo esgoto que é cortado pelo rio que é cortado pela gente que é cortada pelo Estado, não muito longe das casas marcadas com tintas e seus códigos perversos. Nas suas cores de despejo e demolição.

Mais uma mudança de álbum no caminho de retorno, e a canção “Em transe” é uma assombração sobre a periferia da canção brasileira. Alia figura e fundo numa troca constante de lugares. A melodia corta os processamentos de sons, os processamentos cortam a voz, a letra corta a linguagem, a linguagem, por sua vez, lambe todas as feridas e faz de Banquete um espaço para a canção de fronteiras pouco visíveis. Arranjar como coautoria, cantar como coautoria, tocar como coautoria, até que a própria autoria seja diluída nessa cebola espessa e suas muitas camadas.

Para o flâneur, seguir o itinerário de um ônibus é seu princípio de morte, mas as Canções de amor4 de um grupo chamado Hrönir tocam na estação de rádio oficial do Estado, ecoam no ônibus quase cheio; enquanto ouvem, passageiros, motorista e cobrador se entreolham absurdos. Talvez eu também escreva sobre isso.

Fragmentos e discos

1(BENJAMIN apud FERRER, 2011, p. 64)

FERRER, Bruna Rafaella. Arqueologia do presente: processos artísticos. Dissertação de Mestrado em Artes Visuais. Faculdade Santa Marcelina. São Paulo, 13 de Setembro de 2011.

²Texto de apresentação de Cassettes (2014), de Cadu Tenório. Discos de Cadu Tenório, todos de 2014: Cassettes; Vozes; 1987/1990. Disco de Cadu Tenório e Márcio Bulk, de 2014, Banquete.

3“Cidad”, do próprio autor.

4Disco da banda Hrönir, Canções de amor (2006).

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #7 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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