Cena, pra que te quero?

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MAU, Movimento Artístico Universitário, reunido no Rio de Janeiro.

por Ricardo Maia Jr.

“Nós fizemos um agrupamento, chamado MAU, Movimento Artístico Universitário, pra proteção. Proteção da gente! Pra que nós nos fortalecêssemos. Pra que a gente pudesse encarar, já que não tinha muito espaço pra gente trabalhar”[1].

Uma cena musical tanto serve como proteção quanto projeção de carreiras. Proteção porque abarca numa mesma proposta diversos artistas que têm no coletivo a cobertura em relação aos gargalos produtivos e estruturais, que são muitos! Ou até mesmo quando existem declarações controversas, por exemplo, para limpar a barra, pois, às vezes, acontece da coisa pesar demais para alguns ou mesmo de ocorrer sabotagens midiáticas – faz parte, muitas vezes, da exposição agregada ao coletivo! Projeção porque agrega valores culturais e potências produtivas, tornando esses artistas mais valorizados para expor seus projetos. Consequentemente, aumenta-se a possibilidade de se angariar financiamentos do que se esses agentes tivessem trilhando somente suas carreiras isoladas. Essa relação de cena serve como suporte para troca de experiências partilhadas, no sentido de ajudar as carreiras individuais nos diversos segmentos da produção fonográfica, dessa maneira, as aptidões são acumuladas em projetos coletivos em que um puxa o outro para os holofotes midiáticos, além de aliar as forças de trabalho e também de expandir o público que vai acompanhar essas carreiras.

É preciso salientar que esse fenômeno não é restrito à área da música, quaisquer manifestações artísticas ou culturais podem usar desse artifício. A cena, geralmente, é ligada à boêmia, aos bares e aos encontros etílicos desses agentes culturais, que trabalham na noite e querem encontrar soluções sustentáveis ou inusitadas para as atividades artísticas. Outro ponto importante é que a cena pode tentar englobar uma cidade ou uma região ou pode simplesmente delimitar o território a partir de uma determinada parcela de artistas do local, ou até mesmo transcender as localidades.

 “O que atrai esses artistas é a vontade de aliar carreiras somando ações em projetos comuns na cadeia produtiva e, é também, para conseguir mais visibilidade midiática para todos […]”

Há, basicamente, dois tipos de cena. A primeira seria a que engloba as carreiras por gêneros, como acontece com as cenas de metal, de rockabilly etc. Nesses casos, há tendências evidentes e marcantes para delimitar a criação, e isso vai ser decisivo em todo o processo de produção, divulgação e distribuição da cena. Existem eventos e coletâneas temáticas e, de certa forma, isso facilita a procura do público que vai atrás desses artistas a partir do gênero que eles fazem parte. Um caminho recorrente do consumidor desse tipo de cena é partir do mainstream para taguear outros tantos que estão nos nichos. O segundo tipo seria aquela cena que agrega não por estilos, mas pela diversidade – a pluralidade de gêneros é a tônica desse tipo de coletivo. O que atrai esses artistas é a vontade de aliar carreiras somando ações em projetos comuns na cadeia produtiva e, é também, para conseguir mais visibilidade midiática para todos, como aconteceu com o Tropicalismo e com o Manguebit. Mas, por serem artistas deslocados dos enquadramentos de gênero, a necessidade de criar novas representações é essencial para alavancar um grupo em que a lógica é ter elementos diferenciados entre si; mas a dificuldade é bem maior, claro! Nesses casos, a demarcação territorial, a criação de rótulos, de titulações e de manifestos, geralmente, tecem esse tipo de cena cultural com a intenção de legitimar a movimentação em frente às mídias, aos grupos sociais e ao público consumidor.

Entre a estética, a política e o marketing, as cenas tentam imprimir marcas no fluxo informacional e na chamada cultura midiática que vivemos inseridos. Nesse ponto, a cena se aproxima bastante das vanguardas artísticas. Pois, parafraseando Jacques Rancière, a ideia de vanguarda política está dividida entre a concepção estratégica dos partidos, da força que marcha à frente dos militares e o conceito estético de vanguarda. E se a vanguarda tem um sentido no regime estético das artes, é desse lado que se deve encontrá-lo: não do lado dos destacamentos avançados da novidade artística, mas do lado da invenção de formas sensíveis e dos limites materiais de uma vida por vir; transformando a política em programa total de vida! São aí que as cenas, através de uma subjetiva política e estética, podem criar conceitos e tendências.

“Outra negatividade é quando os agentes estão mais interessados em delimitar quem faz parte ou não da cena e também em legitimar os “pais” ou a gênese do agrupamento.”

Porém, é preciso também salientar que a proteção e a projeção a partir de uma cena cultural também tem o lado negativo, que vem, principalmente, de todo o superlativo agregado aos agrupamentos. A parte pode responder pelo todo e o todo pode engolir as partes, essa é a grande questão e um dos fatores decisivos na dissolução de uma cena! Outra negatividade é quando os agentes estão mais interessados em delimitar quem faz parte ou não da cena e também em legitimar os “pais” ou a gênese do agrupamento. Isso desgasta o coletivo com intrigas e desvia as ações em função de causas egóicas! Mesmo assim, as cenas acabam sendo um ponto de apoio para várias carreiras. Artistas iniciantes, produtores interessados em movimentar espaços culturais que estão estagnados e também agentes midiáticos que enxergam alinhamentos e apostam na ideia, geralmente, através de críticas entusiastas e de titulações definitivas em veículos de comunicação. Esses são os principais atuantes e daí já é possível perceber que os interesses podem ser diversos! É uma maneira de dar visibilidade partilhada em meio ao embate entre os estabelecidos e os outsiders, pois um produto em comum formatado para o público das mídias pode alavancar forças emergentes ou deslocadas propondo maneiras contemporâneas de vivenciar as artes e suas interligações!

As cenas musicais, por exemplo, envolvem muito mais coisas do que a própria música. Moda e artes visuais são alguns dos muitos segmentos de atuação, artisticamente falando! Então, essa relação de cena é uma coisa muito mais complexa do que se pensa e envolve interesses que extrapolam o cerne puramente artístico. Nesse jogo político e estético existem muitos pontos questionáveis! Mas, apesar disso, podem ter certeza que muitas representações ainda virão – legítimas ou ilegítimas – e, que assim seja para manter a vitalidade artística, pois a cultura contemporânea caminha junto à proliferação e à inventividade dos espaços públicos e das mídias, já faz um bom tempo, e as cenas são essenciais, muitas vezes, para diversos artistas se posicionarem em meio a esses processos sociais do sensível!


[1] Gonzaguinha no programa Ensaio da TV Cultura, 1990, falando do ano de 1968, sobre os festivais de música e de um coletivo que ele fez parte com Ivan Lins, Aldir Blanc, Sílvio da Silva Júnior, Paulo Emílio da Costa Leite, Márcio Proença, César Costa Filho, dentre outros artistas que frequentavam uma casa no bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro.

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Ricardo Maia Jr. Escrito por:

Pesquisador, professor e músico da Ex-Exus.

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