cê abraçaço, velô & transa

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Os leitores do Caderno C (por pouco Cê) do Jornal do Commercio, que leram a matéria de capa da edição de ontem, sabiam que o show de Caetano Veloso no Baile Perfumado iria começar às 23h30min. Para os que compraram o ingresso, estava lá escrito com todas as letras: 22h. Ambos erraram. O público esperou ao som de música brasileira com graves estourados dos amplificadores até pouco depois da meia-noite para que Caetano e a BandaCê subissem ao palco. Li no NE10 (portal do JC) que o show dos Paralamas do Sucesso também chegou a ter duas horas de atraso. Para os dois casos, há uma simples atitude por parte dos produtores que acabariam com todos os problemas, discriminar nos ingressos o horário de abertura dos portões e de início do show, assim, evitariam as vaias por parte da plateia.

Apesar disso, bastou Caetano, Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado iniciarem o show com “A Bossa Nova é foda” para que o tempo em espera começasse a valer a pena. A turnê de Abraçaço provavelmente encerrará mais uma das inúmeras transformações pelas quais a sonoridade dos discos e shows de Caetano passou. Esse provável fim é um “fim” em termos. Basta lembrarmos dos álbuns Transa (1972) e Velô (1989), para ficarmos somente em dois exemplos, de como a experiência de banda que Caetano adotou na produção desses dois discos foi importante na extensa discografia do músico. Ambos os discos, aliás, estiveram presentes nas turnês de Caetano e a BandaCê, durante a trilogia que começou em 2006 com o disco . As canções “Nine Out of Ten” (Transa/Velô), “You Don’t Know Me” (Transa) e “O homem velho” (Velô) estiveram presentes na primeira turnê, e “Triste Bahia” (Transa) aparece agora nos shows de Abraçaço.

Como balanço final dessa fase de Caetano, penso que deixou as melhores canções, cantadas pela plateia no show de ontem como se fossem hits há muito tempo consagrados, é o caso de “Homem”, “Odeio” e “Outro”. Zii e Zie permitiu um aprofundamento da experiência de banda, certamente a BandaCê; explorou com mais afinco as possibilidades de arranjo e sonoridade, sobretudo pela guitarra de Pedro Sá. Durante o show, podemos ver essa experiência posta à prova em canções como “O império da lei”, “Triste Bahia” e “Você Não Entende Nada”. Já o disco Abraçaço tem o melhor show de Caetano que vi nos últimos anos. O repertório consegue aliar as canções inéditas e narrar, a par de outras músicas, uma história coerente e complexa sobre a trajetória e o pensamento artístico de Caetano. Ler o roteiro do show é perceber um pedaço importante da música brasileira contemporânea. No entanto, canções como “Alexandre” (não apresentada ontem, mas que faz parte do set de Abraçaço) e “A Luz de Tieta” poderiam ser facilmente substituídas por “Rocks” (Cê) e “Podres Poderes” (Velô) sem perder ou desvalorizar o ritmo do show.

Com sorte, tive a oportunidade de acompanhar, durante os últimos 15 anos, todos os shows que Caetano fez em Recife. A mudança considerável do perfil da plateia nos dá uma dimensão das escolhas estéticas de Caetano. O Teatro Guararapes e o Chevrolet Hall foram palcos das turnês dos discos Livro (1997) – que gerou o Ao Vivo Prenda Minha (1999), Noites do Norte (2000) e A Foreign Sound (2004), além dos dois primeiros discos da trilogia com a BandaCê. Assistir aos shows em lugares sentados certamente traz ao espectador uma experiência diferente da que tivemos ontem no Baile Perfumado. Ainda havia o espaço para as cadeiras, mas, acertadamente, esse último show de Caetano é para ser visto/sentido no corpo a corpo. Remontando, de certa forma, ao calor presente nos shows no Circo Voador (RJ). Apesar de eu ter a preferência pelos teatros e seus horários rígidos e lugares numerados.

O show de Abraçaço contagia pela diversidade sonora e força das canções mais novas. A BandaCê encerra os seus trabalhos em seu melhor momento. Caetano já declarou que os próximos projetos devam ser mais solitários e silenciosos, talvez o voz e violão gilbertiano volte como marca estética absoluta. Apesar disso, assim como Tom Zé fez no seu Tropicália Lixo Lógico (2012), gostaria que Caetano mantivesse a base sonora da BandaCê e ampliasse essa possibilidade com a adesão de novos músicos e uma releitura crítica e estética – sob o seu ponto de visita – da Tropicália. Caetano também já declarou – em tom cordial-irônico – que o seu trabalho é perseguir Chico Buarque. Vez ou outra os dois coincidem ao pôr discos novos em pauta. Talvez seja a hora de Caetano deixar Chico de lado. Talvez seja o momento dele perseguir Tom Zé, que há muito tempo corre experimentando suas mil pernas-caminhos.

por Carlos Gomes.

Imagem de capa: Kasimir Malevich. Quadrado Preto e Quadrado Branco, 1915. Hélio Eichbauer prestou homenagem ao trabalho de Malevich na cenografia do show de Caetano.

Foto interna por Marcella Zamith/ Portal PartyBusters

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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