Categoria: Streaming

14 de dezembro de 2016 /

Brazilian Jazz. Duas palavras amalgamadas numa expressão que traduz, antes de mais nada, uma brilhante jogada de marketing da indústria fonográfica norte americana. O termo foi inventado nos Estados Unidos nos anos 1960 para, a grosso modo, rotular o encontro da bossa nova com o jazz e registra no continuum da História como a música brasileira oxigenou a produção artística de toda uma cena que, apesar de vivenciar as inovações estéticas trazidas pelos instrumentistas ligados ao New Thing, perdia o…

12 de dezembro de 2016 /

Em “Depois Que o Nove Virou Seis”, uma das faixas principais de seu novo álbum, Ó (YB Music com patrocínio da Natura Musical), Juliana Perdigão delineia uma síntese de sua arte e de sua própria biografia. Como uma exaltação ao processo criativo contínuo e permanente, ela canta: “Tá tudo em mim, minha voz, meu canto/ Tá tudo bem aqui, o que é e o que era/ Tá tudo em mim, eu só não sei se é paz ou guerra”. Mineira…

8 de dezembro de 2016 /

Acredito que Cosmograma, primeiro disco da banda pernambucana Cosmo Grão, sinaliza a consolidação de uma forma de enxergar o rock n’ roll ascendida na década de 2000: guitarras afinadas em ré ou dó, inúmeros pedais de fuzz, variações bruscas de dinâmica e andamento e intervalos melódicos de quinta diminuta, nona e cromatismos. Além disso, a estreia do quarteto instrumental formado por bateria, baixo e duas guitarras evoca alguns sentimentos e sensações perdidas durante a transição da etapa de composição e…

7 de dezembro de 2016 /

Para escrever sobre Língua é preciso expandir a escuta para outros sentidos, outras partes do corpo. É preciso escutar a pele, os olhos, o pelo. Sentir onde o corpo vibrar. Investigar o que escapa ao primeiro, segundo e terceiro contatos com essa escuta. Os objetos musicais, visuais e as relações que se estabelecem entre eles vão se desdobrando em várias camadas de sentido que o nosso tempo ordinário parece querer obscurecer. O tempo de uma canção pode ser um tempo…

30 de setembro de 2016 /

Quatro anos depois de Crônicas da Cidade Cinza (2011), o rapper Rodrigo Ogi lança seu segundo álbum, RÁ! (2015) que vem para consagrá-lo como um dos grandes do rap nacional. As temáticas e os elementos estéticos que já o identificavam anteriormente continuam e parecem cada vez mais maduros, ajudando a solidificar sua atual posição. Nas primeiras, ainda estão presentes as constantes referências ao universo da cultura pop, como videogame, quadrinhos e cinema; e as “histórias das quebradas do mundaréu” e…

29 de setembro de 2016 /

Superfícies (2016), híbrido de livro de contos/fotografia e disco, lançado pelo carioca Leonardo Panço, é uma obra que se destaca pelo formato inusitado e pela chance de abrir portas para que o leitor/ouvinte conheça o funcionamento da mente do artista. Há quem possa categorizá-la como multimídia, mas acredito que a ‘mídia’ aqui seja só o plano onde se revela uma reflexão situada originalmente na psiquê do próprio Panço. Seja isso bom ou ruim. Composto por vinte e um temas instrumentais,…

27 de setembro de 2016 /

Kitsch. Clement Greenberg preconizava que esta pequena palavra imbuída de significados desastrosos para a sensibilidade humana se alastraria pela Cultura com o aprofundamento da sociedade de consumo de massa. De fato. O domínio do tacanho com aparência de sublime, do eterno deslocamento ante a autenticidade e o conteúdo, alimentado pela sistemática industrial da produção em série de objetos padronizados, amparado pela democratização consumista do prazer estético e potencializado pela explosão do mundo em infinitas constelações de apreensão do real, contaminou…

26 de setembro de 2016 /

“Chama eterna de um minuto”: paráfrase do amor “infinito enquanto dure”, imagem expressiva do estado de permanência e movimento que caracteriza algumas “incertas” que, volta e meia, acometem a música brasileira. Como em toda incerta, chega sem aviso; eterna enquanto dura, a incerta desconcerta pela ausência de uma filiação evidente ou de uma temporalidade referencial que permita sua inserção imediata na continuidade histórica da música popular. A “linha evolutiva” enunciada por Caetano Veloso nos anos 1960 sustentava-se sobre uma temporalidade…

4 de agosto de 2016 /

sambador é uma outra linha de invenção na poética de helder vasconcelos. culmina agora em canções o que anteriormente o corpo falava com maior intensidade. sua expressão artística está continuamente em movimento: música, dança, tecnologias, máscaras, grupos, bandas; solo. os gêneros musicais, instrumentação, arranjos e letras se entrelaçam, ou se comunicam, como brincadeiras. “butterfly” é uma peça que chacoalha e dança, faz dançar. estranha, nessa língua, desconcerta, com seu sotaque, expande esse ser-sambador para muitos outros lugares (c.g.) Sambador (2016),…

4 de agosto de 2016 /

a escrita de rodrigo campos sobre suas próprias canções alarga a experiência da escuta e compreensão da obra para espaços que frequentemente são mais nebulosos ou mesmo íntimos, reclusos no lugar em que habita o processo de criação do artista, ou mesmo dos outros músicos que dialogam com ele. esse movimento reflexivo desdobra numa outra linguagem (a escrita) o ímpeto pela criação. lugares-comuns são quebrados por essa ação. sim, criação e crítica podem andar juntas. a crítica do artista não…

4 de agosto de 2016 /

a dicção permanece em marcha circulando entre os temas ordinários que são suas canções. a sua fala-canto é essa dicção extra-ordinária, pois entre a voz, o piano e o texto, o mal-dito se torna visível a olhos nus. como o ordinário continuamente se desloca por sua dicção, é possível que suas composições continuem invisíveis para olhos menos acostumados aos mal-ditos. lá de lisboa, é o que ele nos conta de suas maldicções. (c.g.)   Bakery People by Glauco César Segundo…

4 de agosto de 2016 /

A palavra na música de Lira é mais pesada que o som. Por peso, não quero dizer que o som seja de alguma forma negligenciado ou que só exista em função desta palavra deformada, transformada, desviada da rota, em suma, como poesia. Se as primeiras histórias sobre José Paes de Lira são todas carregadas pela força da oralidade, performance e muitas, muitas palavras deformadas com as quais acostumamos a nos assombrar diante da presença do extinto grupo Cordel do Fogo…

3 de julho de 2016 /

Bem que poderia ser um cigarro Hollywood, aquele branquinho que pedi a você assim que sentamos no chão, no backstage do Rec-Beat, para conversar. A tarde tinha acabado de começar e você havia acabado de sair da passagem de som. Estávamos lá, ao invés das ladeiras e suores e amores de Olinda, numa segunda-feira de Carnaval. Nós, a banda e um punhado de seus fãs. Punhado vem de mão, de punho (contava-se nos dedos os destemidos dos raios ultravioletas). O…