Categoria: Artigo

14 de julho de 2017 /

Todo país produz seus mitos e heróis. No Brasil mesmo, podemos lembrar nossa Carmem Miranda (que por sinal era portuguesa – pausa para começarmos já com humor), ou mesmo Pelé (que ainda exerce fascínio de ídolo pelo passado futebolístico). Outro dia ouvi pela rádio, em mais um engarrafamento diário no trânsito recifense) que se discutia a exumação e busca pelos restos orgânicos de Mané Garrincha (Brasil, o país do futebol… Mais risos). E nesta percepção recente de temporalidade que temos…

11 de julho de 2017 /

“Ioiô moleque maneiro vem lá do Salgueiro e tem seu valor. Ele toca cavaco, pandeiro e no partido alto é bom versador.” Os versos de Cesar Veneno, apesar de elogiosos, não dão conta do gênio de Almir Guineto. Vale a pena acompanhá-lo na “segunda” (como nos referimos à estrofe nos meios pagodeiros): “Foi num samba pra frente que eu vi um valente versar pra Ioiô Mas ele estava indecente deixando o malandro de pomba rolô.” Almir Guineto (derivação do apelido…

8 de julho de 2017 /

“No Texas” apresenta uma série de shows de músicos pernambucanos no Edf. Texas, no Pátio do Santa Cruz, resultando na gravação de programas e EPs. A estreia foi com Aninha Martins. As próximas edições serão com Projeto Sal, Juliano Holanda, Desalma, Rua e Bongar. A programação pode ser conferida na página do evento. a voz já não é o assunto principal da música de aninha martins. o corpo mobiliza as energias entre braços, pernas, olhos, tronco; velocidades e rítmicas entre…

6 de julho de 2017 /

Uma série de ações, que incluem desde show, debates e oficinas, fazem parte do “Ciclo de Literatura Afetiva, Expandida, Contemporânea – De Clarice ao pontocom”, idealizado pela produtora Izadora Fernandes e com realização da Formata Cultural. O ciclo começou ontem à noite, com apresentação musical do cantor, compositor e pesquisador Luiz Tatit, de São Paulo. A programação completa pode ser conferida no site formata cultural. tatit e a canção ordinária, quase palavra ao pé do ouvido sobre afetos que se…

30 de junho de 2017 /

Em 1922, com a chegada dos Turunas Pernambucanos à cidade do Rio de Janeiro, inicia-se a segunda onda de música nordestina a tomar conta do Sudeste do país: uma consequência direta do sucesso e influência de artistas como João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense no ambiente cultural carioca, desde a primeira metade dos anos 1910. O auge desta onda se dá entre os anos de 1927 e 1929, com a chegada à capital federal de mais dois conjuntos igualmente…

28 de junho de 2017 /

A pedido do jornal argentino La Nación, David Toop elencou 10 sons que definem a vida contemporânea. Periquito-de-colar “Nos últimos anos um bando de periquitos-de-colar foi se estabelecendo em um parque ao norte de Londres. Ouvir o seu grasnado tem algo de perturbador, como se de repente tivéssemos sido transportados para algum lugar do sudeste asiático. Trata-se de uma espécie exótica, como os pássaros carpinteiros, do tipo que expulsa as aves nativas e faz subir a pressão arterial dos amantes…

20 de abril de 2017 /

Este texto é o primeiro de uma série de oito artigos que propõem o levantamento de uma discografia da música produzida por compositores e intérpretes nordestinos, partindo da fase inicial da indústria fonográfica brasileira, em 1902, e chegando até o final do século XX. Não se trata de uma lista de “melhores discos”, nem mesmo de uma discografia técnica e definitiva sobre o tema – o que seria dificílimo, ou mesmo impraticável, com o espaço e os recursos disponíveis em…

19 de abril de 2017 /

CAMINHAR* A arte seria garantia de sanidade? Desculpe-me, madame Bourgeois, não estou certa disso. A vida, e a espécie humana herdeira de emanações interestelares, precede a arte. Pois, se a arte é via para bem-estar e alívio imediato, é também indício da existência limitada em que nos metemos. Parece simpática, e lógica, a ideia de que toda prática artística tenha como ponto de partida uma intenção existencial. Nesse sentido, a arte antes de produzir objetos carregados (signos), é uma forma…

2 de abril de 2017 /

Me pediram para escrever um ensaio para essa tão ilustre edição #12 da revista Outros Críticos, mas não qualquer ensaio, um texto que verse sobre a “arte” e|na|pela|pra “periferia”, uma vez que não poderia ter sido escrito por outra jornalista. Desejo então falar do meu lugar próprio, meu lugar de fala sem subterfúgios  ─ mesmo não estando em casa agora, mas em Ouro Preto – MG. “Suburbana mas cosmopolita”, me apresento; portanto, mesmo que não escreva da Travessa Vila Velha,…

7 de fevereiro de 2017 /

“Quando decidi fazer um disco, olhei pra mim pra ver o que eu tinha de mais intenso e mais verdadeiro pra mostrar, e me deparei com um processo de empoderamento, de me assumir e gostar de mim do jeito que eu sou, do meu cabelo. Não só fisicamente, mas da minha identidade. E a Elza [Soares] estava sempre presente nesse processo. Porque ela é uma referência de mulher negra que esteve no mercado musical durante muito tempo, resistindo, e hoje…

25 de janeiro de 2017 /

Nessa terceira e última escrita para os Outros Críticos faço um movimento de insistir em algumas questões levantadas em minha última coluna. A insistência aqui revela uma ação política de sustentar um diálogo até emergir algo diferente. As perguntas que me atravessam nesse momento continuam sendo mobilizadas pelo atual momento político, pelas relações que nele acontecem e por pensar como fazer arte nesse contexto. Uma de minhas suposições é que vivemos uma crise ética, de relação com o outro. E…

9 de janeiro de 2017 /

Saudações multicolores! Confesso, amigos: meio sem saber sobre o que escrever para esta (talvez) última contribuição para Outros Críticos, topo por acaso com uma edição recente da ARTFORUM trazendo, entre seus textos, uma matéria do artista Joseph Grigely sobre “Soundscaping” (Soundscape). Como devem lembrar, “Paisagem Sonora” foi também o tema da 3ª Edição de Outros Críticos (em 2014). O fato não apenas me surpreendeu por sua oportunidade, coisa que Grigely definiria como “serendipity” (acaso feliz), como também me fez pensar…

21 de dezembro de 2016 /

Minha primeira lembrança musical remete à canção “Aos Pés da Cruz”, dos compositores Zé da Zilda e Marino Pinto. Não a formidável gravação de Orlando Silva que tocava sempre em casa, mas a inesquecível performance de meu pai lavando louça. Sendo esta sua única tarefa doméstica, meu pai a desempenhava com indisfarçável entusiasmo, desfilando um precioso repertório que ele aprendeu ouvindo rádio durante sua infância e adolescência entre as décadas de 1940 e 1950 na Bahia. Influenciado pelos grandes cantores…