Categoria: Artigo

29 de novembro de 2019 /

Uma maré, maré erê. Uma, filha, criança, erê. Menina, negra, mestiça. Filha de preta, amazonina.  As crianças das favelas. A maré das crianças. Imagens que circundam a minha cabeça. Na favela da Maré, o mar é de sangue e amar é de morte. A beleza pura da vida, da bala doce, e a tragédia da bala que canta, rasgando o som, tombando do céu, no coração, na testa, na espinha. Infesta, em festa. Trança se inicia com esse canto dos…

26 de junho de 2019 /

Numa manhã de domingo, um sujeito sorridente apareceu numa das pacatas esquinas do bairro da Lapa, em São Paulo, e amarrou um estandarte em que se lia “Lapa de Urso” na placa que indicava o cruzamento entre as ruas Tito e Marco Aurélio. “Fundamos esse bloco para que os pernambucanos que não podiam viajar pro Recife durante o carnaval pudessem matar a saudade”, explicou Mestre Nico, então com 43 anos, posando ao lado do estandarte. Bastante magro, usava uma camisa…

11 de março de 2019 /

Em 2015, escrevi para o site Outros Críticos um relato de indignação sobre o péssimo tratamento que os brinquedos de Maracatu Rural receberam em algumas cidades da Zona da Mata Norte durante o carnaval daquele ano. O texto discorria sobre os cachês irrisórios, dificuldades nos pagamentos e desprezo das prefeituras pelas agremiações. Hoje, 2019, aqui estou eu novamente indignado escrevendo sobre essa tensa relação entre poder público e a arte do Maracatu Rural. De lá para cá, a situação pouco…

28 de fevereiro de 2019 /

Foto de capa: Turunas da Mauricéia. Anúncio no Correio da Manhã (RJ), 06 de fevereiro de 1927. O período compreendido entre 1927 e o início da década de 1930 é certamente um dos mais complexos e decisivos para a história da música brasileira registrada em discos. É um momento marcado pela aposta da indústria cultural na absorção e divulgação de um espectro mais amplo da imensa diversidade estética brasileira, como também pela expansão do alcance territorial e das possibilidades técnicas…

25 de fevereiro de 2019 /

Uma fotografia, feita em 1865, retrata o jovem Lewis Payne. Ele tentara assassinar o Secretário de Estado dos Estados Unidos, W. H. Seward. O fotógrafo Alexander Gardner encontrou Payne algemado na cela, aguardando o momento em que seria enforcado. Sobre ela, Roland Barthes escreveu: “Eu leio ao mesmo tempo: isso vai acontecer e isso já aconteceu”. O estupor: Payne vai morrer, Payne já está morto. Olhe nos olhos de Payne. O cinema é como ele. O cinema é a morte…

25 de fevereiro de 2019 /

Sambas Do Absurdo é o resultado do encontro de três artistas centrais na música popular brasileira contemporânea, cada um deles, a seu modo, renovadores da linguagem da canção em nosso país. De modo esquemático, identificarei assim o papel de cada um neste trabalho: o compositor Rodrigo Campos, o produtor Gui Amabis e a intérprete Juçara Marçal. Criadores de muitos recursos, naturalmente seus papéis se cruzam e se misturam ao longo do disco, mas valho-me dessa classificação para melhor elencar as…

19 de fevereiro de 2019 /

Eu pensei em propor um diálogo aberto com este texto; e, por isso, eu o entendo como uma continuidade de conversas que venho tendo com diversas pessoas e a possibilidade das reflexões serem desdobradas no futuro – inclusive, repensando pontos e abrindo a alma para recuar em alguma coisa dita. Contudo, como conversa que a gente pega pelo caminho, engata um fio e segue articulando junto, este texto tem a proposta de compartilhar um pouco das vivências colaborativas que tenho…

16 de fevereiro de 2019 /

“a arte é o que resiste, ainda que não seja a única coisa que resiste”. (“o que é o ato de criação?”, giles deleuze) primeiro movimento — eu não gostaria de catalogar os artistas em “música política”, “canção crítica” ou mesmo me pôr num “tribunal” da crítica pra limitar e colocá-los sobre a mesma seara. mas em síntese, eu penso que há artistas que seguem uma linha reta (“evolutiva?”) na música brasileira, reproduzindo esteticamente via “imitação” – mesmo com algum…

15 de fevereiro de 2019 /

Esse texto emerge de alguns acontecimentos que estão me atravessando nos últimos tempos: o atual momento político no Brasil, minhas vivencias no mestrado na UFBA, a experiência como espectadora do espetáculo “Resistir”. O que tange todas elas? O corpo como política. Uma discussão sobre repetição e sentido. E a resistência como movimento, atuando diante de um sentimento de mal estar. Na minha última coluna no site Outros Críticos falei de improviso. Escrevi a um só tempo.  Em um fluxo contínuo,…

15 de fevereiro de 2019 /

por Bernardo Oliveira e Fred Coelho. Por iniciativa de Mário de Andrade, então diretor do Departamento de Cultura da cidade de São Paulo, a Missão de Pesquisas Folclóricas percorreu o Norte e o Nordeste do Brasil durante o ano de 1938. Em busca de registros de manifestações culturais, particularmente de dança e música, trouxeram na bagagem gravações em áudio e imagens dos estados de Pernambuco, Paraíba, Maranhão, Pará e Minas Gerais. Entre os registros mais interessantes, é possível citar o…

10 de fevereiro de 2019 /

Não boia a carniça na superfície do mar, em cujo fundo permanecem as pérolas? Excerto do “Livro das Mil e Uma Noites”1. 10:38. O sol perfazia sua inexorável jornada em direção ao zênite num céu do mais puro azul. Lá do alto, o astro-rei despejava implacavelmente sobre Olinda todo seu esplendor luminoso e parecia zombar da agonia daquelas risíveis criaturas que lá embaixo enfrentavam o calor de sua força no vai e vem das ladeiras. Do meu ponto de vista,…

10 de fevereiro de 2019 /

“Estamos nos aproximando cada vez mais de um som-ruído”, escrevia Luigi Russolo, ainda em 1913, em seu manifesto “The Art Of Noises”. Para o pintor e compositor futurista, as máquinas da revolução industrial trouxeram com elas o ruído para o espaço sonoro: “Não somente na atmosfera estrondosa das grandes cidades, mas também no campo, que até ontem era normalmente silencioso, as máquinas hoje criaram tanta variedade e concorrência de ruídos, que o som puro, na sua exiguidade e monotonia, não…

6 de fevereiro de 2019 /

por Carlos Gomes. “Nascer não é antes, não é ficar a ver navios, Nascer é depois, é nadar após se afundar e se afogar.” SARGAÇOS, Wally Salomão temas e fissuras De dentro da sala pouco aconchegante do local de trabalho da personagem a quem iria entrevistar, e que tratarei, neste texto, simplesmente como Ela (pronome pessoal que muitas vezes se acomoda aos corpos por obstinação e força de vontade sem tamanho, como veremos no decorrer dessa escritura, que é como…