Caçapa e seus ragas de viola

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Foto: Beto Figueiroa

O universo da viola é absolutamente sedutor. E imenso. Desde a variedade da feitura do próprio instrumento, passando pelo mundo infinito de afinações. Até a terminologia é saborosa: viola de arame, viola de cocho, afinação rio acima, rio abaixo… Vai longe. Caçapa consegue acrescentar ainda mais história a tudo isso. No álbum Elefantes na Rua Nova (2011), ele usa uma linda viola dinâmica de 10 cordas – uma peça criada em São Paulo e importada pelos cantadores e repentistas que caíram de amor pelo som anasalado e metálico e que terminou por virar uma marca regional. A música tem dessas coisas. A guitarra africana vai parar no nordeste do Brasil com a mesma facilidade que os navegadores encontram para atravessar o oceano se valendo de ventos e correntes favoráveis. E depois vira tudo uma mistura só. A viola de cordas de aço é a viola do poeta nordestino. A de Caçapa tem suas próprias marcas, seus acentos pessoais. Reinventando a tradição ele muda as afinações, troca as cordas, usa pedais e amplificadores. A partir da afinação “natural”, típica da cantoria, ele criou a rebaixada, a oitavada, a trocada. Se já é lindo e inebriante ouvir uma viola, imagine esse som todo repensado sem sair das bases mais tradicionais – que convenhamos, já são maravilhas da nossa música popular.

07. Caçapa – Coco-Rojão Nº04 by outros críticos

Adoro a definição de gêneros que intitulam as faixas, tem rojão de todo tipo. São como no álbum Coisas (1965), de Moacir Santos. O rojão é o toque da viola que originalmente acompanha o improviso poético, a cantoria. E junto vem o ritmo. O baiano que é mais lascivo, mais dançante, e os cocos e sambas. Delicioso. Cheio de informação e poesia.

Caçapa diz que prefere que seus temas não tenham imagens, mas é impossível não imaginar novelas de cordel, sagas de amor e morte ouvindo suas ragas de causar vertigem. Ragas que vem da Índia e de Portugal, da zona da mata e do cais do Recife. Seu trabalho é primoroso, calculado e emotivo porque movido por uma paixão de músico-arquiteto. O aprofundamento na tradição vem do gosto, mas o cuidado, a invenção, a originalidade vem do artista único que ele é.

por Patricia Palumbo.

Publicado originalmente na coletânea no mínimo era isso: 10 bandas, 10 ensaios

Foto de capa: José Holanda

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Patricia Palumbo Escrito por:

Jornalista especializada em rádio, música e meio ambiente. Apresenta alguns programas de rádio e de tv, entre eles os mais conhecidos são o Vozes do Brasil e a Hora do Rush.

2 Comentários

  1. 28 de setembro de 2013
    Responder

    Nunca tinha visto falar deste nome, CAÇAPA, ate aquele dia no show ENSAIO, no minimo era isso, fiquei encantada,
    ate perguntei a meu filho, quem é esse ? espero poder ver e ouvir ouras vezes.

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