Autor: Jeder Janotti Jr.

Professor do Programa de pós-graduação em Comunicação da UFPE.

26 de fevereiro de 2015 /

por Jeder Janotti Jr. Feiticeiro Julião, o personagem cênico musical criado pelo cantor, guitarrista e arranjador Júlio Castilho, anda por diversos atalhos sonoros em seu primeiro álbum Mácula. Pode ser que ouvidos açodados consigam vicejar nesse emaranhado de referências musicais ouvindo eco das identidades multiculturais. Para além das guitarras do feiticeiro que dão o tom em algumas composições, o álbum parece acabar marcado pelos sopros, principalmente os cruzamentos entre o sax alto de Will Bantus e Henrique Albino. Mas o…

6 de outubro de 2014 /

por Jeder Janotti Jr. Tanto o rock’n’roll quanto o teatro são dispositivos de captura. Cada um a seu modo embalam sonoridades e atenções de formas, usualmente, diferentes. Se os shows de rock acionam poéticas que envolvem consumo de cervejas e muito burburinho, o teatro é um templo cujo foco é a atenção densa ao que está sendo dito, cantando, interpretado. Mesmo que boa parte dos encontros entre rock e teatro seja engolido pela sisudez da ribalta (vide os concertos sinfônicos…

2 de outubro de 2014 /

por Jeder Janotti Jr. Nem sempre a viagem esperada é permitida. Mesmo que envolva expectativas, horizontes e bagagens alinhavadas; muitas vezes, inesperadamente, estamos diante de uma inevitável queda livre. Se para os aficionados do revival udigrudi psicodélico, o primeiro disco da banda Anjo Gabriel, O Culto Secreto do Anjo Gabriel, foi uma viagem astral pelas veredas instrumentais do início dos anos setenta, o pretensioso Lucifer Rising está mais para uma bad trip. São cerca de 35 minutos que demoram a…

21 de agosto de 2014 /

por Jeder Janotti Jr. Adentrar as texturas sonoras do Limbo, álbum recém-lançado da Rua, exige uma entrega: a escuta densa. Isto não é novo para quem conhece o trabalho anterior do grupo, do absurdo (2011). Mas Limbo é uma obra, uma “ópera”. Labuta que violenta a mesmice com intensidades sonoras que podem sangrar os ouvidos. Não há aleatoriedade, tudo é prensado para injetar no ouvinte um mergulho profundo . Não serve como música de fundo. É um disco Rock, pesado.…

30 de julho de 2014 /

por Jeder Janotti Jr. Esta escrivinhação surge de uma estranheza atávica e vulgar: o acionamento por parte de músicos, produtores, curtidores – enfim, da animada fauna pop-cult-descolada – da música brega como um monstro devorador, responsável por parte de nosso desterro, resquício da dominação do tempo das grandes gravadoras e das rádios massivas. Dizem a boca miúda que uma das possíveis origens do brega seria uma velha placa de uma antiga casa da zona do meretrício, cuja a alcunha de…

15 de julho de 2014 /

por Jeder Janotti Jr. Jean Nicholas é um explorador de estilhaços e suas canções ora funcionam a partir de um certo ranço, ora de uma ojeriza contra a mesmice e o esnobismo pop laureado que repete em onda a última nova moda do mundinho musical cult. Como todo bom corsário, Jean Nicholas e a Bueiragem (2014) não se furtam a pilhar misturando origens sem ecletismos fáceis. No álbum marcado por vertigens produzidas pelo flerte com gêneros musicais distintos (funk, reggae,…

2 de junho de 2014 /

  por Jeder Janotti Jr. Fomos afetados nas últimas semanas por um movimento em rede que nos obriga a pensar o modo como habitamos os arrecifes: Ocupe Estelita. Não há como se sentir imune à “comunidade de afinidades” que se fincou em nossos corpos nas últimas semanas. Mesmo os mais céticos ou ranzinzas, que como eu, preferiam não se movimentar a serem tragados por um corpo que se insinuava para além da economia trivial dos modelos impostos, e não pensado,…

1 de abril de 2014 /

por Jeder Janotti Jr. Um dos discos que mais me violenta na recente produção musical recifense é o do absurdo, da banda Rua. Violência aqui é aquilo que me obriga a sair de um ouvir narcotizado e assunta refletir sobre o que me tira o óbvio, me exige atenção dos ouvidos. Enquadramento sensório. Nem sempre isso é só do prazer, pois exige muito! Nem sempre quero estar atento! Uma saída fácil para entender esse gosto esnobe que trai meu rock…

11 de fevereiro de 2014 /

por Jeder Janotti Jr. Vivemos tempos fugazes em que modismos cults e tendências udigrudis não duram o tempo de um trago. Beto, aquele, ser abjeto e esquivo, que ousou rondar as vidinhas insones das culturas musicais dos arrecifes foi decretado como desaparecido justamente quando é reconhecido pelas decadentes linhas dos jornais locais e nossos maravilhosos festivais. Não me venham com obituários, pois desparecido não é morto. É desabitado. O esfriamento das discussões em torno da tal cena, a dos Betos,…

23 de dezembro de 2013 /

Parece que em tempos de excessos musicais, o cinema assumiu o lugar de ancoragem dos debates culturais cotidianos que infestam os bares de Hellcife. Nessas terras, quem não entra em conflitos com identidades, noções de si, é excluído das navegações pelos cheirosos rios dessa Veneza Brasileira. Música virou detergente, é fácil de fazer, embalar, botar no carrinho e vender. Necessária mas descartável. Esse cenário parece desglamourizar os dependentes das coleções, dos vinis e demais badulaques musicais que cultivam cenas musicais…

5 de novembro de 2013 /

por Jeder Janotti Jr. e Victor de Almeida. A ideia de “cena” foi pensada para tentar da conta de uma série de práticas sociais, econômicas, tecnológicas e estéticas ligadas aos modos como a música se faz presente nos espaços urbanos. Isso inclui processos de criação, distribuição e circulação, além das relações sociais, afetivas e econômicas decorrentes desses fenômenos. São poucos os conceitos relacionados à música que se firmaram com tanta influência no imaginário de jornalistas, fãs e músicos ao redor…

1 de novembro de 2013 /

por Jeder Janotti Jr. Tem rolado em alguns microcosmos dos arrecifes uma polêmica menor em torno das funções e do trabalho do crítico musical. Fruto de dissensos saudáveis (qual não é?) entre visões de novos personagens do fazer musical em Recife e de antigos novos, outros críticos, as escaramuças apontam até para supostas bulas sobre o que a crítica deveria ou não fazer. Ah, como é bom desabitar em Recife, onde a etimologia ainda funciona, crítica é crise, pura “bueiragem”.…

14 de outubro de 2013 /

Dias atrás, causou-me espasmos, diria letargia pré-concebida de piada pronta, uma reportagem da revista de bordo da Gol, com a singela titulação: “O Mangue Não Para”. A revista, para quem não sabe, é aquela do tudo lindo, tudo azul, ops, tudo laranja pra você voar em paz. Um cartão postal pra quem tem cagaço de voar ou medo de ler algo com alguma profundidade. Afinal, todo mundo sabe que um livro legal pesa muito em mãos incautas. O prensado da…