Autor: Carlos Gomes

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

5 de junho de 2015 /

por Carlos Gomes. A música para Hugo Linns é um estado de vigília. Permanentemente um solitário colhendo as influências que o cercam e reconstruindo uma tradição que não é autorreferente, mas contaminada pelas coisas do mundo. O silêncio dos mais velhos que, mesmo negado, incomoda, mas estimula as experiências para com a música, não dá aos mestres o direito de apontar os caminhos a se seguir – os sons da viola não são rupturas, mas desvios de rota, ou mais,…

8 de maio de 2015 /

por Carlos Gomes. (Arrastão de JMB) São Paulo, tempo possível e uma canção ruidosa. Da janela do meu ônibus não haverá enquadramento. Arrastar os dedos na tela, nas cordas. Sentir-se preso em casa. Permanecer preso em torno de mais ou menos 50m² e Ser feliz.   São Paulo, quatro compositores e uma estética que expande a cidade. Era a periferia, suas casas, bairros, personagens. Por ela uma narrativa combinada a vozes e sons acústicos. Quase não se ouvia o chão.…

15 de abril de 2015 /

por Carlos Gomes. Os olhos estão cada vez mais negros. Escutar é fitá-los sem receio deles nos atravessarem. A voz concentra e expande um punhado de palavras e imagens como rebentação. Estar em seu contato é saber-se perto do precipício. Como de costume, a cantora, compositora e percussionista Alessandra Leão envolve o ouvinte num emaranhando de referências vivas e estimulantemente passíveis de manipulação, não no sentido de pejorativo do termo, mas como matéria-prima para a criação. É ela mesma o…

6 de abril de 2015 /

por Carlos Gomes. Paulo Paes transita entre Recife e Olinda. Suas canções rebatem uma lírica afetuosa repleta de cores cinzas – como ruas, ruído, fumaça e solidões – num mar imenso, verde, azul e ensolarado. “Porque o samba é a tristeza que balança.” E ao identificar sua trajetória artística entre essas duas cidades, com seus avessos, suas particularidades e poéticas próprias, Paes assume o risco e faz da música um estado híbrido e transitório. Seu canto aguça os ouvidos e…

26 de março de 2015 /

por Carlos Gomes. Para Bruna, Fernanda e Rodrigo. Cidades e canções se assemelham por carregarem em seus corpos a presença do tempo desconstruído de sua forma linear, cronológica, a que nos habituamos a reconhecer. Sua forma aparentemente reconhecível pode ser subitamente destituída se penetrarmos no que lhe pertence de mais profundo. Cidades e canções são feitas de muitas cascas. a história da magrelinha Eram já horas de estradas quando no caminho de casa encontramos Dênis: “Sinceramente, não gosto da cultura…

3 de março de 2015 /

por Carlos Gomes. A banda Rua é envolta em interdições. Quantos são? Onde vivem? O que cantam? A espacialidade é um conceito que ultrapassa as questões sonoras. Falar de música é compreender as interrupções e silêncios que existem em volta deles. Criar é muito mais que o ato mero de compor desesperadamente uma canção. Inventar espaços de escuta, escrita, imagem, audiovisual e dança são as formas que a banda encontra para diminuir as distâncias, romper com as fronteiras artísticas que…

13 de fevereiro de 2015 /

por Carlos Gomes. Jam da Silva não foi encontrado. A personagem que arquiteta canções que não se vinculam estritamente a características de um estilo, categoria, gênero ou mesmo de uma cena musical, se desfaz com naturalidade das expressões preconcebidas que perseguem alguns músicos. Este grande guarda-chuva da World Music, preguiçoso e acrítico, nunca pôde o acobertar. Jam não tem tido tempo para se resguardar sobre qualquer cobertura que seja. É nômade, mas não estrangeiro. Porque o estrangeiro finca raízes na…

9 de fevereiro de 2015 /

Palavras dispostas assim, lado a lado, soam naturalmente repetitivas. Mas não. A da esquerda significa uma forma de guerrilha, a da direita outra. Uma está na ordem da exceção, outra da regra. Como naquele filme-ensaio de Godard sobre a cultura como regra e a arte como exceção. Os anos 1990 desentupiram as veias da cidade do Recife – reproduzo a analogia – e os 2000 conectaram a cidade aos sons de lugares bem mais distantes, dando-lhe voz e sendo a…

21 de novembro de 2014 /

por Carlos Gomes. Neste exato momento, enquanto escrevo, enquanto você lê, cai por acaso nesta página, Juliano Holanda está compondo uma nova música. Uma que talvez nunca escutemos, já que pode ser desde uma melodia, pedaço de letra, harmonia que seja. A arte de Juliano está em compulsivamente criar; o prazer incide nessa ação natural de quem vê na música muita mais que uma profissão. Não são músicas para o mercado. Tantas criações justificam o número considerável de canções gravadas.…

18 de novembro de 2014 /

por Carlos Gomes. “Essas bandas estão pouco se lixando para a crítica musical. Elas não precisam dela.” Diante da notória e propagada crise da crítica cultural, ou mesmo do jornalismo cultural como um todo, observar como a crítica musical tem se movimentado é um exercício interessante sobre o lugar da reflexão na música contemporânea. São leituras que não passam necessariamente pelo texto crítico a que habitualmente estávamos acostumados, aquele reproduzido pelo jornalista especializado em música de algum jornal ou revista…

12 de outubro de 2014 /

por Carlos Gomes. Agendas culturais podem ser armadilhas para quem parte às cegas acreditando tão somente no que dizem os releases filtrados pelos jornais, contagem de “presenças” em eventos ou curtidas do Facebook, ou ainda pelas raras postagens de sites e blogs, sobretudo quando não há tempo para o editor ir além do óbvio: Quem, onde e como? Ontem, com sorte, pude presenciar dois eventos e suas formas distintas de habitar a cidade. Ao me encontrar, de alguma forma, num…

29 de setembro de 2014 /

por Carlos Gomes. O músico, ilustrador, designer e contador de estórias Matheus Mota está perdido. E é essa perdição que dá sentido à sua música. Se a autoironia narrativa do primeiro disco, com suas impressões pianísticas dos barulhos de rua do Recife inventário que ele mesmo criou, lhe pôs numa cadeira que ninguém havia ousado sentar na cena musical contemporânea de Pernambuco, foi preciso perceber que há poucos alunos em sua sala. Ouvindo as músicas de seu novo álbum, se…

22 de setembro de 2014 /

Se a costumeira cobertura midiática nos inclina a classificar todo trabalho construído sob uma assinatura de solo – aqui falamos do disco Encarnado (2014), de Juçara Marçal –, a escuta das 12 faixas nos revela uma sonoridade coesa e estilisticamente possível a par de uma intimidade que só o entrosamento de uma banda pode nos dar. O cerne da sonoridade de Encarnado está no encontro de Juçara Marçal (voz), Kiko Dinucci (guitarra) e Rodrigo Campos (guitarra/cavaquinho). Neles, há uma vida…