Artesanato Sonoro Mode On

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Ashley Paul, 01/12, Audio Rebel, Novas Frequências (RJ), 2014

por Raquel Monteath.

“Perceber no escuro do presente essa luz que procura nos alcançar e não pode fazê-lo, isso significa ser contemporâneo.” (Giorgio Agambem)

Quando um som ultrapassa seus próprios limites sonoros, é hora de fazer um festival. Incumbidos de ideias parecidas com essa, alguns produtores brasileiros resolveram ampliar seus limites audíveis, assimilar o crescimento mundial de um tipo específico de música e produzir festivais com linguagens mais audaciosas. Transcendência, erros e texturas fazem parte do know-how desses festivais, que bebem da fonte das novas tecnologias assumindo um status de “contemporâneo”, conceito que o filósofo italiano Giorgio Agambem define como sendo uma luz lançada sob o escuro do presente, de algo que ainda é desconhecido, que está porvir.

São experiências híbridas, ou seja, de diferentes naturezas artísticas, e que mesclam instrumentos tradicionais com live images, decodificação de arquivos, projeções etc. Como no caso do Novas Frequências (NF), festival que desde 2011 ocupa o calendário anual do espaço Oi Futuro Ipanema, no Rio de Janeiro, apoiando-se na tríade: “experimentação, vanguarda e novas tendências”. Como eles próprios chegaram a descrever em uma das edições, um festival que apresenta ao público a “fine art da música contemporânea”. “O tipo de música abordado pelo Novas Frequências não se preocupa muito com letra, melodia e muito menos com refrão grudento. Acho que daí é que vem a expressão ‘instalação sonora’ (dada pelo escritor carioca João Paulo Cuenca, ao descrever a terceira edição do Novas Frequências). O festival apresenta novas formas de se fazer música e de se trabalhar com o som. Evidentemente que, quando não há uma preocupação com uma mensagem aparente a se transmitir, todas as atenções ficam voltadas para o ritmo, as texturas, as ambiências e as dissonâncias”, comenta Chico Dub, produtor e idealizador do festival.

Em parceria com a também produtora Tathiana Lopes, Dub promove a cada edição uma curadoria ousada, que traz como caráter marcante do festival o ineditismo estrangeiro das atrações – e assim tem sido com nomes como Andy Stott, Pole, Sun Araw e Com Truise, que tiveram o NF como porta de entrada no país. “O festival ainda é muito pequeno para trabalhar um tema único, por isso opto por recortes. Acredito muito na experiência do ao vivo. Tudo está tão digital, tão superficial, que nada supera um encontro ‘cara a cara’. Justamente em função das tecnologias da informação, e do fácil acesso aos meios de produção musical (e mais distribuição e divulgação), defendo que vivemos hoje a época mais importante da história em relação a uma apresentação ao vivo”, reforça Chico, que consegue esgotar com antecedência as poltronas do teatro Oi Futuro Ipanema para o festival.

 “O festival ainda é muito pequeno para trabalhar um tema único, por isso opto por recortes. Acredito muito na experiência do ao vivo.” – Chico Dub

No ano passado, além da programação de shows, foram realizados no espaço Polo de Pensamento Contemporâneo (POP) dois dias de discussões sobre música contemporânea, que contou com a presença de um dos maiores intelectuais da área, David Toop, além de uma festa no Clube La Paz, que rendeu ao Novas Frequências o Prêmio Noite Rio 2013, na categoria melhor festival de até 5.000 pessoas. Toda a grade contou com um público considerado pelo realizador como “excelente”. “Acho que as questões mais pertinentes que cercam o festival hoje em dia, a respeito do público, são: qual é o tamanho do festival? Para onde ele pode crescer? Quantas pessoas iriam aos shows e outras atividades se os espaços aumentassem? Acredito que o Novas Frequências poderá crescer conforme outros agentes culturais forem crescendo no Rio e no país. Estou falando de mais bandas, produtores, selos, espaços para shows, revistas de crítica musical etc”, opina.

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Cadu Tenório no festival Continnum (PE) 2014. Foto: Cynara Melo

No Recife, o Continuum – Festival de Arte e Tecnologia chega à sua quinta edição neste ano, e traz uma amplitude de linguagens mais consolidada. Com circulação média de seis mil pessoas por edição, desde seu terceiro ano o festival escolhe um tema que rege as cinco escalas de sua programação – instalações, mostra de vídeos, mostra de games, oficinas/workshops, seminários e sonoridades. “Já tivemos como temas a ‘obsolescência’, ‘a cidade que vive em mim’ e, para esta quinta edição escolhemos a ‘memória’. Sem dúvida, a tecnologia é utilizada para identificar os diferentes estágios do processo civilizatório humano. Paradoxalmente, à medida que avançamos tecnologicamente, com uma velocidade cada vez maior, mais aumenta os riscos de perda da memória coletiva, do conhecimento (que é uma das abordagens do festival), devido às mudanças constantes dos suportes de armazenamento do conhecimento humano”, reflete Antonio Gutierrez (Gutie), curador e idealizador do festival.

Para o produtor do Continuum, existe uma tênue fronteira entre o que é arte associada à tecnologia e o que é apenas uma parafernália tecnológica. “Nos deparamos com muitas propostas onde fica evidente a ausência da criação artística, restando apenas o aparato tecnológico, a ferramenta. Entendemos que a criação artística é mais importante que o suporte tecnológico e, nesse sentido, o Continuum contempla não apenas as propostas hi-tech, mas as low-tech também. O mais importante é o que a obra comunica, uma vez que qualquer suporte é resultado da criação tecnológica do ser humano, e isso vem desde a utilização da pedra lascada até o mais inventivo dos softwares”, diz.

“Nos deparamos com muitas propostas onde fica evidente a ausência da criação artística, restando apenas o aparato tecnológico, a ferramenta.” – Gutie

A necessidade de improvisação, ou a presença forte da improvisação nesses festivais é como um reflexo da inquietude possibilitada pelas ferramentas digitais. Assim, mais do que uma apresentação, o que alguns músicos contemporâneos estão tentando fazer é aludir o som, desterritorializá-lo da melodia expandindo seus limites de profusão, deslocando a música do seu lugar perene.

PAISAGENS SONORAS CONTEMPORÂNEAS

Mas o passeio entre sons e ruídos, evidenciado por artistas que frequentam esses tipos de festivais, é como se fosse um desdobramento de pensamentos como o de Raymond Murray Schafer, que já nos anos 1960 nos alertou para a existência de uma Ecologia Sonora, criada para refletir um tempo considerado por ele como o “mais barulhento de todos no mundo ocidental”. O cineasta francês Jacques Tati foi mestre em retratar essas contradições do período pós-revolução industrial em seu hilário Mon Oncle (Meu tio, de 1958), quando a realidade de uma família inserida no contexto da revolução tecnológica é posta em perspectiva, para que o expectador sentisse na pele – e nos ouvidos – a ruidosa realidade que a modernidade nos trouxe, sob a incumbência de tornar nossas vidas mais fáceis.

Foram também a partir dessas manifestações de consumo, com as máquinas, carros e aviões, que os sons do ambiente, do passado e do futuro foram sendo elevados ao plano de objeto de estudo por Schafer: “Para onde vão os sons que desaparecem? Quem os recolhe?”. A partir destes questionamentos, em seu livro A Afinação do Mundo, o autor lançou a ideia de que seríamos responsáveis por “afinar o mundo”. E, de certa forma, é isso que podemos perceber. “O cinema e a televisão incorporaram uma produção sonora bem mais acentuada às sonoridades urbanas, que são cada vez mais altas, volumosas e intensas. A Paisagem Sonora, neste caso, está em franca mutação.

De certa forma, o Quintavant tem uma relação indireta com o conceito de Schafer, pois capitalizamos essas novas escutas, dando abertura às audições mais complexas”, comenta Bernardo Oliveira, crítico de música e um dos produtores do Quintavant, evento de free jazz, noise e improvisação que movimenta a cena underground no Rio de Janeiro.

“Encaro o Quintavant como uma espécie de pedagogia do som. Há 10 anos existiam menos pessoas fazendo e curtindo free jazz, noise, drum, e hoje o número é bem maior.” – Bernardo Oliveira

Fundado por Pedro Azevedo, proprietário do estúdio Audio Rebel, o Quintavant surgiu há três anos e acontece regularmente na cidade. Começou em uma das salinhas de produção do Audio Rebel, em Botafogo, e transformou o estúdio em um espaço musical para além dos ensaios. Além de Pedro e Bernardo, o evento conta ainda com a produção do técnico de som Renato Godoy, que também é baterista na Chinese Cookie Poets, e do saxofonista do Sobre a Máquina e produtor Alex Zhem. “Encaro o Quintavant como uma espécie de pedagogia do som. Há 10 anos existiam menos pessoas fazendo e curtindo free jazz, noise, drum, e hoje o número é bem maior. Então, pensamos que o nosso público é essa ‘chave’: nem todo mundo vai curtir determinado som”, diz Bernardo, “sem contar que vejo muito mais experimentação sonora no funk carioca, por exemplo, do que no noise, que tem muito pastiche, muita imitação. Acho que experimentação é uma questão de se submeter à linguagem de reinvenção. É uma questão de onde se está”.

Contudo, é preciso deslocar do pensamento a ideia falha de que os festivais pautados na experimentação sonora, no que hoje se enquadra por vezes de arte e tecnologia, se pretendem meramente “futuristas”, como gosta de explorar a grande mídia, inseridas numa lógica desenvolvimentista de algo promissor e fantástico. Deslocando desse olhar, saímos da condição passiva de expectadores de algo que meramente existe para nos entreter, e passamos a entender melhor o caráter “contemporâneo” dessas produções, com suas nuances críticas e criativas. Os festivais são momentos únicos para a troca de experiências e para a aceitação, negação ou identificação com o fazer do seu tempo.

Publicado originalmente na 3ª edição da revista Outros Críticos.

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Raquel Monteath Escrito por:

Jornalista. Trabalha na TV Brasil.

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