Alguns músicos Franceses (ou não)

Este é um artigo para falar e talvez apresentar alguns dos músicos franceses e não-franceses residentes na França. A razão por tê-los escolhido é que dentre os que tive a oportunidade de assistir em concertos, levando em conta tanto a forma de abordar o instrumento quando na de compor (premeditada ou espontaneamente), estes foram os mais interessantes. Não os classificaria como músicos de jazz, nem para identificá-los entre si (que é o uso mais comum desse rótulo). Todos têm uma origem ou ligação com esse estilo, mas basta uma audição para perceber que há mais elementos nas suas músicas, algo com que me identifico bastante: há uma reflexão sistemática na busca e no processo todo.

Benoit Delbeqc (piano) talvez seja dentre estes o que mais escutei. O seu disco solo Circles and Calligrams é uma revelação. Você sente que boa parte do material é composto, mas logo se pergunta: Qual? E o que é improvisado? Há uma sobreposição de ciclos que muitas vezes não acabam e outras vezes parecem nem começar…

Benoît Delbecq, new piano solo album : Circles and Calligrams from Igor Juget on Vimeo.

O seu álbum em trio com o lendário Jean-Jaques Avanel (1948-2014) e Emile Biayenda também é excelente.

Benoit participa de dezenas de outros grupos, todos diferentes entre si. Em uma conversa que tivemos ele me falou que não lhe interessava tocar apenas um tipo de som e que era um desafio agradável navegar por tantas músicas e manter-se coerente com sua estética. Esta é centrada, sobretudo, na possibilidade de sugestão e na ideia de ter uma música precisa, mas que ao mesmo tempo não revele todas as suas estruturas de uma forma evidente, o ouvinte pode escolher dentre as opções oferecidas em qual delas ele irá se apoiar. Além disto, Benoit é um dos grandes nessa música no uso de eletrônica e de piano preparado.

 

Jozef Dumoulin é um pianista, além de tocar fender rhodes, instalado em Paris há quase uma década. Dizer que ele lançou recentemente o primeiro disco solo de rhodes (e eletrônica) da história e que este é totalmente improvisado poderia bastar para defini-lo. Esse é realmente um marco bastante importante na história deste instrumento e por abrir novas portas na música improvisada.

Mas não. Dumoulin vai muito além disso. De todos os concertos que assisti até o momento o seu, em trio, foi o mais surpreendente. Eu ignorava como era a música e fui assisti-los, me deparei com um trio muito inventivo e bem humorado, aliando muita complexidade e nenhum exibicionismo. Uma interação muito interessante e por vezes desafiante, sobretudo pelo espaço que a música oferecia. Outras oportunidades em que assisti-lo como “sideman” também foram muito interessantes. Além disso, ele faz parte do Octurn, grupo belga que talvez seja um dos mais interessantes em atividade.

 

Assisti Guillaume Orti apenas uma vez em um duo de saxofones alto com Stephane Payen, e foi sensacional! Foi um concerto marcado pela diferença demonstrada nas formas com que dois instrumentos iguais podem soar de forma tão pessoal. São dois saxofonistas com muito enfoque no ritmo, porém com uma grande inventividade melódica e som único. Orti talvez seria o que navega entre o espaço sonoro e Payen o que fixa e o demarca.

Guillaume Orti & Stéphane Payen Live @ Atelier du Plateau : Improvisation + Born Under Two Flags (Hasse Poulsen) from Igor Juget on Vimeo.

 

Guillaume Orti – Stéphane Payen – duo – live 05 from Igor Juget on Vimeo.

 

Orti também faz parte, com Delbecq, do Kartet, grupo mítico por aqui:

Payen lidera o Thôt e o The Workshop e faz parte de vários outros grupos também:

Alexandra Grimal, saxofonista mais jovem mas que vêm ganhando destaque, possui além de um belo som a capacidade de soar precisa e mole, estruturada e abstrata ao mesmo tempo. Poderíamos fazer um paralelo dela facilmente com Tony Malaby.

DRAGONS — Alexandra Grimal / Nelson Veras / Jozef Dumoulin / Dre Pallemaerts from Alexandra Grimal on Vimeo.

Malik é um flautista com uma capacidade de estruturação e abstração fora do comum, quando ele improvisa é de uma fluidez tamanha que muitas vezes a música se regenera e cria as suas próprias ideias. Malik chegou a um estado tamanho de trabalho da matéria e do seu sistema que a lógica interna da sua construção musical sempre nos aporta para o universo pessoal dele. O seu uso do espaço é inacreditável, muitas vezes achamos que ele não vai conseguir concluir as ideias e em outras temos a impressão que aquilo que ele quer fazer não cabe naquele tempo, mas ele acaba sempre resolvendo de uma forma incrível. O interessante é que no fundo para ele tudo é como um jogo em que pedimos a palavra para dizer coisas precisas em forma de som.

 

A baixista Sarah Murcia possui um som gigantesco e definido e, juntamente com Delbecq, é dentre estes, a que possui e participa de projetos mais distintos entre si: vários duos, música árabe, rock, trio instrumentais, música infantil. Todos com personalidade e uma boa dose de humor e ironia. O duo com a oudista palestina Kamila Jurban, por exemplo, foi uma revelação:

O mais interessante é que apesar de parecer e soar como uma música árabe comum esta suíte é composta sobre o M3 de Olivier Messiaen e uma talea color bastante interessante e desafiadora. Esta, a meu ver, é mais uma demonstração que o material musical é mais importante que o estilo ou a identidade cultural, basta explora-lo exaustivamente para poder achar novos caminhos. Para demonstrar a versatilidade de Sarah, segue um link com dela com grupo Caroline (com participação de Guillaume Orti):

Dois dos mais interessantes guitarristas da atualidade vivem aqui. Um francês e o outro brasileiro. De Nelson Veras não falaremos aqui, pois em breve virá uma entrevista com ele. Marc Ducret é um guitarrista que alia o uso extensivo dos vários sons e possibilidades existentes na guitarra (seu uso de efeitos, recorrendo apenas à distorção) com um lirismo, expressividade impressionantes e realmente únicos. As três vezes que assisti-lo tocando foram incríveis: Solo, em duo com Delbeqc, e com o Tower Bridge. Neste último ficou evidenciada a complexidade e coesão de sua escrita, explorando uma formação incomum de uma forma bastante intensa e original. Este concerto solo mereceu ser seguido de uma boa e gelada cerveja, acompanhada de uma boa reflexão, que capacitasse o meu organismo de digeri-lo bem, tamanha a força e personalidade demonstradas no palco.

 

Existem vários outros músicos com trabalhos interessantes, esta é apenas uma pequenas amostra deles. Uma parcela da música feita na França é realmente original e possui uma identidade própria que nos oferece novas portas para sairmos dos horizontes geralmente mais comerciais em que estamos enclausurados.

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Fred Lyra Escrito por:

Musicólogo e doutorando em filosofia na Universidade Lille 3.

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