Alessandra Leão e o seu ritual das canções

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Alessandra Leão e Caçapa no projeto Amplifica Castro Alves. Fotos: Renata Pires

por Carlos Gomes.

“A música modal é a ruidosa, brilhante ritualização da trama simbólica em que a música está investida de um poder (mágico, terapêutico e destrutivo) que faz com que a sua prática seja cercada de interdições e cuidados rituais”. (José Miguel Wisnik)

Na última sexta-feira, dentro do projeto Amplifica Castro Alves, a cantora e compositora Alessandra Leão, na companhia dos músicos Caçapa, Hugo Linns e Rodrigo Samico, fez o seu último show na cidade do Recife, antes da mudança que Alessandra e Caçapa farão para São Paulo. A base do repertório foi montada a partir do último álbum, Dois Cordões, de 2009.

Com a apresentação, Alessandra interrompia um hiato de um ano e meio sem fazer shows na cidade. É natural que nós todos imaginemos que há uma relação de causa e efeito entre as poucas oportunidades para show na cidade e a decisão de mudança para São Paulo. Caçapa e ela estiveram entre os músicos que declaram que não tocariam no carnaval por conta do sistemático atraso de pagamento de cachês aos músicos. É também ela que encontro na primeira reunião do Funcultura da Música, há alguns meses; eu, que relapso, continuei a acompanhar de longe as discussões via grupo no Facebook; não devo mais ter visto sua posição contundente, prática e atenta à diversidade de posições. É ela a mesma que “deixa” a cidade com um projeto musical com programação semanal já anunciado para janeiro de 2014, com apresentações da Rua, Hugo Linns, entre outros. Por isso, acredito que simplesmente atribuir a sua partida com os poucos espaços para shows na cidade seja simplificar demais a situação, que é muito mais ampla, pelo que passam os músicos em Pernambuco, sobretudo aqueles que se dedicam exclusivamente ao trabalho com a música.

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Foto: Renata Pires

Escolhi um trecho do livro O som e o sentido (1989), de José Miguel Wisnik, para abrir esse texto, porque ele sintetiza, se assim fosse possível, o que mais me espantou no show de Alessandra. Parecíamos todos, a plateia, irmanados num ritual (artístico) comandado pela percussão e potência das vozes de Alessandra, voz que imana dos braços, rosto, pele, corpo inteiro. O ruído fica por conta do trio de guitarras harmonizadas sob o controle da reza que é canção. As interdições do ritual encontraram nas homenagens aos amigos e familiares presentes, um sentimento de gratidão pela música ouvida que era partilhado por todos.

O show passou de duas horas de duração, não consigo me recordar de tudo o que mais me emocionou, das músicas que mais gostei, “Partilha”, de Juliano Holanda, solos vocais de Alessandra ou com a percussão, estão mais vivos em minha lembrança. Mas guardarei a performance de Alessandra em “Atirei” como um dos momentos mais bonitos de entrega de uma artista no palco. Entre violência e sutileza, a voz que canta o lamento “Eu não atirei…” encontra no ritmo percussivo esse equilíbrio entre a fúria e a suavidade, característica que faz parte de boa parte da obra de Alessandra Leão.

O ritual termina com os costumeiros aplausos, como não poderia deixar de ser, mas entre as palmas, de alguma forma, e ainda aqui na feitura deste texto, não deixo de me perguntar: até quando precisaremos ver os músicos mudarem de lugar por falta de condições de trabalho em suas terras? A mudança de Caçapa e Alessandra Leão é diferente das do Mombojó, Nação Zumbi etc, cada músico e banda tem seu próprio contexto, suas particularidades, mas refletir sobre o assunto ajuda pelo menos a darmos o devido valor a cada aplauso que o som de nossas palmas deem.

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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