A sensibilidade pelo disco físico ainda reverbera

Se um dia a música pôde ser reproduzida e distribuída em grande escala foi graças às tecnologias que permitiram a sua materialização em fonograma e posteriormente em disco. Fruto da conjunção entre a produção dos artistas e as possibilidades de tecnologias, o disco transformou a circulação da música no mundo e a maneira como ela chegava ao público. Ao longo do século 20, seus parâmetros foram sendo determinados e transformados conforme a tecnologia de gravação foi se desenvolvendo, começando pelos primeiros registros fonográficos em cilindros e chapas gravadas, passando pela era dos long-plays, seguida das fitas cassetes até chegar na era digital dos CDs e do advento da internet, com suas plataformas digitais e serviços de streaming.

O LP foi o suporte privilegiado da música popular, chegando ao mercado por volta dos anos 1950. Em comparação aos cilindros, os long-plays saíram na frente em termos de padrão de execução de alta fidelidade para a época, tanto na reprodução como na gravação do som, além de possibilitar que a música fosse executada por mais tempo que nos cilindros. Mesmo com todas essas vantagens, o LP ainda dividiu as atenções com a presença maciça de compactos que traziam músicas soltas, os singles, que dominaram o mercado por muito tempo.

Como alternativa ao peso e aos altos custos dos LPs, surgiram, na metade da década de 1970, as fitas cassetes, mais baratas, de fácil reprodução e cabíveis no bolso. Além disso, as fitas acomodavam uma quantidade de músicas um pouco maior do que os LPs. Segundo David Byrne, no livro Como funciona a música, gêneros inteiros de música floresceram como resultado das fitas cassetes:

“Bandas de punk que não conseguiam fechar acordos com uma gravadora recorreram à produção de cópias de fitas caseiras que eram vendidas em shows ou por correio. Essas cópias de cópias perdiam algo da qualidade – suas frequências mais altas inevitavelmente eram reduzidas, e algumas nuances e dinâmicas também desapareciam, mas ninguém parecia se importar muito. Essa tecnologia favoreceu um estilo de música que poderia ser descrito como etéreo, ambiente ou barulhento. Foi uma era de música suja. A qualidade estava escorregando ladeira abaixo, mas a liberdade e o poder oferecidos por aquela tecnologia compensavam tudo”.

Em consequência de uma pesquisa voltada para a telefonia, surgiram as tecnologias digitais de áudio que rapidamente foram implantadas pelos estúdios de gravações, tornando a gravação digital e o consumo da música em CD uma realidade viável. Em termos de produção, o diferencial do CD era a liberdade na manipulação dos sons, principalmente na altura e na velocidade, e o arquivamento a partir de mensagens codificadas em fragmentos matemáticos. Para os consumidores, os CDs conseguiam armazenar 700 MB de dados e permitiam mudar as faixas rapidamente. Além disso, tinham maior vida útil que as fitas magnéticas, que eram facilmente corrompidas pelas altas temperaturas.  De acordo com o historiador Cleber Sberni,

“é possível conferir aos diferentes suportes utilizados uma importante marca sobre o seu tempo, e um vigor das possibilidades de criação para o artista em um período, numa dialética entre as possibilidades de seu autor e o limite da tecnologia”.

Com a revolução no consumo da música promovida pela popularização da internet nos anos 1990 e 2000, não foram poucos os artistas, jornalistas especializados e representantes da indústria que anunciaram a morte do disco em seu formato físico. O livre compartilhamento das músicas na internet, decorrente de seu potencial democrático, alterou a perspectiva de venda do produto físico e consequentemente a necessidade de adquiri-lo. No entanto, os músicos têm mostrado que abdicar do suporte físico em nome da divulgação única e exclusivamente na internet não supre as suas necessidades. A sensibilidade pelo registro materializado ainda fala mais alto. Seria uma maneira de legitimar a obra? Dá uma ideia mais palpável de durabilidade? O registro em determinado formato cumpre uma necessidade estética?

“Hoje em dia há essa suposição de que quanto menos palpável, melhor; mas, nesse meio, sempre vão ter poucos que vão querer nosso trabalho nesses formatos físicos. Desde sempre, nós, que fazemos música, temos que oferecer bens materiais pra aumentar a nossa possibilidade de executar nossa mão de obra, que é fazendo shows. Por isso é importante, além do streaming, ter a fita, o vinil, mídias em geral. Quanto mais possibilidades, melhor”, acredita o músico Graxa, que tem dois discos disponibilizados virtualmente, Molho e Aquele disco massa, também lançados em vinil e fita cassete, respectivamente. Para o paulista Romulo Fróes, o diferencial do suporte físico está na audição:

“O conceito de um disco só existe por causa de sua forma física. Na escuta contemporânea, é muito improvável que se escute um disco na ordem concebida por seu autor. Por isso é importante, ainda, o disco físico. Ele orienta a audição do modo que o artista a concebeu. No meio virtual é impossível determinar o modo como as pessoas irão ouvir sua música”.

Já a cantora Isaar, que tem três álbuns lançados, encara o disco físico como uma maneira de agregar valor à experiência do show:

“Se as pessoas gostam do seu show, elas querem saber de mais informações, querem levar uma lembrança da experiência que foi te ver e te ouvir, que é geralmente comprando um disco.  Ao contrário da digitalização da música, que promove um encontro com o público que te consome sem nunca ter visto seu show. Se o artista tiver um vinil, tem um público que vai querer ter o vinil. Mas pra fazer alguém comprar algo, tem que criar necessidade. Isso na música significa promover uma sensibilidade para o seu produto”.

Grande parte da sensibilidade que um disco físico proporciona tem a ver com o impacto visual causado pela tecnologia dos encartes e das capas. Se antes a complexidade de um álbum se resumia à criação das músicas, a sua posterior gravação e a escolha de repertório, hoje a feitura da capa e do projeto gráfico também fazem a diferença no resultado final da obra. “O trabalho do designer, da direção de arte, do fotógrafo, comunica e soma ao som, dando um acabamento essencial ao CD. Algo que curto muito acompanhar é a história daquela obra através dos créditos e informações técnicas do disco: quem compôs, quem interpretou, produziu, onde foi gravado, os instrumentos utilizados. A mesma arte pode ser reutilizada e recriada na construção do site, cartazes de shows. Ter esses artistas agregando ao som, só tende a crescer o que você quer expressar”, acredita o músico Jam da Silva, que teve o seu último disco, Nord, projetado graficamente por um estúdio de design com pintura e fotografia assinada por Nina Gaul. Sendo assim, privilegiar as capas, contracapas e encartes para informar ao ouvinte sobre o conteúdo do disco fez do álbum físico um produto que transcende a simples divulgação de um artista, obtendo prestígio enquanto artefato carregado de simbolismo. “Agora o disco está mais próximo do colecionismo, por isso acho importante investir em edições físicas com mais capricho. As pessoas, hoje, compram mais o objeto do que a própria música”, atesta Romulo Fróes.

LP e K7:  Resgate e Ressignificação

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“Aquele disco massa”, Graxa.

Ainda que não tenha despertado a atenção do mainstream brasileiro, a crescente aproximação dos artistas com formatos físicos analógicos como o vinil e a fita cassete tem uma força conceitual que vai além de fetiche e saudosismo. São muitos os aspectos que têm motivado artistas independentes a lançar seus trabalhos nesses formatos específicos em meio à febre da circulação virtual. Segundo Romulo Fróes, o vinil impõe uma dinâmica própria à obra no sentido de “resgatar um modo de audição mais atenta, que exige do ouvinte um contato mais direto com seu disco”. Ele, que começou sua carreira fonográfica na derrocada do vinil e no começo do advento do CD, tem dois dos seus discos solos lançados em LP, Calado e Barulho Feio, além do Passo Elétrico, lançado pelo seu grupo Passo Torto. Romulo lançou recentemente em vinil outros dois discos de sua banda, Passo Torto e Thiago França, em parceria com o selo Assustado Discos, do Recife. “A experiência com vinil exige uma ação do ouvinte no meio de sua audição que é trocar o lado do LP, muito diferente da atenção dispensada aos serviços de streaming que disputam as infinitas janelas abertas do seu computador”.

Para Catarina Dee Jah, que pretende remasterizar seu disco Mulher Cromaqui e prensá-lo em vinil, este formato tem peso de obra de arte, não só de suporte de registro. “Coleciono vinis desde os 12 anos, então ter um trabalho meu perpetuado neste formato é como deixar uma obra física de qualidade e valor. Prensou no bolachão vira obra de arte palpável e perpétua”, defende a cantora pernambucana. A mesma ideia é compartilhada pelo cantor soteropolitano Russo Passapusso, para quem o vinil equivale a uma experiência sensorial singular. Ele planeja lançar no formato o disco Duas Cidades, de sua banda Baiana System. “Depois de todas as aberturas virtuais que o mundo teve, percebemos que os Spotifys da vida não satisfazem. Acho o serviço maravilhoso, inclusive escuto no meu celular. Mas a música é fé. Quando você segura o vinil e sente o cuidado e a energia depositados ali na capa, no texto, você sente que é um documento musical. Isso te ajuda a respeitar mais a religião que é a música. O vinil representa um altar dentro da religião da música. Ele é esse patuá, esse símbolo”, aponta.

Na metade dos anos 1970, a popularização da fita cassete levou as gravadoras a lançarem o seguinte slogan: “A gravação caseira está matando a indústria musical”. O receio era que as pessoas deixassem de comprar vinis, já que os aparelhos que tocavam as fitas também permitiam a gravação de músicas das rádios, gerando várias cópias caseiras. “Em vez de emprestar LPs preciosos, frágeis e grandes, era mais fácil trocar fitas cassete com nossas músicas favoritas, cada uma delas focada em um certo gênero, tema, artista ou clima. As fitas eram como baús de tesouro que cabiam no bolso. Descobri vários artistas e novos estilos por meio de cassetes que eu pegava com amigos”, conta David Byrne no livro Como funciona a música. Somadas a estas facilidades estavam, como já citado no início deste texto, o fato da fita cassete ser um método alternativo e mais barato de consumir música na época. O músico Graxa relembra alguns rituais que fazia parte do uso da cassete: “Uma situação recorrente era ficar esperando, na rádio, o momento exato para que tocasse uma música em especial para gravá-la na fita e depois poder ouvi-la quando se quisesse. Também era descolado demais ter um Walkman, ouvindo fitas K7, que ficavam dentro da bolsa escolar, além de rodar na caneta pra rebobinar”, conta ele, cujo segundo álbum, Aquele disco massa, ganhou edição neste formato. Segundo Graxa, além do significado afetivo que envolve a fita cassete, a sua escolha foi pautada pelo desejo de remeter, de forma simbólica, ao sentido de acessibilidade ao consumo musical, semelhante ao mp3.

Ao contrário do senso comum que considera a cassete um formato ultrapassado e de baixa qualidade sonora, os artistas têm mostrado o contrário. A recente adesão ao formato em cassete, inclusive com uma grande lista de espera de artistas e bandas para gravarem no formato, justifica o aparecimento da FlapC4, nova fábrica de fitas no bairro do Bixiga, em São Paulo, que vai oferecer um formato de masterização especifico para o formato. Um dos sócios, Fernando Lauletta, enxerga o mercado com muitas possibilidades, já que o custo de um LP ainda é muito alto para aqueles que querem obter um item exclusivo e de qualidade de seu artista favorito. Recentemente no Brasil, edições em cassete foram lançadas pela banda Boogarins e pela dupla Tape e Scandurra. No exterior, a cantora Nelly Furtado lançou uma canção em parceria com Dev Hynes apenas em cassete, como forma de combater a pirataria e o vazamento de músicas na internet. Nomes como Snoop Dogg, Metallica, Dave Grohl e o duo She & Him também aderiram recentemente ao formato. Ainda que as motivações sejam várias, a escolha por esse formato específico parece apontar, numa perspectiva geral, para a necessidade de renovação de um mercado saturado, mesmo que essa renovação aconteça por meio do resgate e da ressignificação de formatos já caídos em desuso.

Publicado originalmente na edição #11 da revista Outros Críticos.

Foto de capa: Vinis do grupo Passo Torto.

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Marina Suassuna Escrito por:

Jornalista, estuda na Pós-Graduação em Fotografia e Audiovisual na Unicap. É repórter da revista Outros Críticos e colabora nas revistas Continente e Cardamomo.

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