A rústica leveza de um artesão sonoro

 photo capa_zps8af9329b.jpg

por Leonardo Vila Nova.

A condição do homem diante de um mundo ao qual precisa se adaptar, sem abrir mão do que lhe é essencial. O músico Juliano Holanda enfrenta essa questão existencial de forma ousada, através da música. Em seu segundo CD solo, Pra saber ser nuvem de cimento quando o céu for de concreto (2013), ele quebra seus próprios paradigmas e põe si mesmo – e o grupo que lhe acompanha – à prova, com o desafio de criar uma sonoridade particular, despida ao máximo de qualquer subterfúgio artificial. Um disco de natureza profundamente humana, em todas as suas nuances e sentidos.

Este trabalho tem uma distinção flagrante do seu antecessor, A arte de ser invisível. Juliano assume definitivamente os vocais das 12 faixas do disco, colocando em evidência o próprio artista dando voz às suas ideias. Ao contrário da exuberância sonora do álbum anterior, com um gigantesco time de convidados, entre cantores e instrumentistas, Juliano vem com uma formação enxuta: o indefectível trio: baixo (Areia), bateria (Tom Rocha) e guitarra (Juliano). A única participação é de Mery Lemos (a voz em “Vasta rede” e “A espera”). A escolha por uma formação reduzida já indica o seu desejo de trazer algo diferente do que havia feito antes. Essa busca por outra sonoridade se reflete no processo de gravação, em que abriu mão de plugins e qualquer tipo de efeito forjado no computador. O que lhe rendeu um trabalho praticamente artesanal, explorando ao máximo as possibilidades naturais de ambiências, sons e texturas dos instrumentos, com exceção apenas das distorções dos pedais de guitarra. Tudo reproduzido no disco da forma como foi captado. O som que se ouve é o som real de cada corda, cada pele. Certo e determinado a mergulhar em ambientes nunca antes explorados, ele se permite a experimentação e, consequentemente, as possibilidades do erro, do fazer e refazer, até chegar a um resultado essencial. E, nesse caso, o que poderia se tornar uma adversidade, ele utilizou a seu favor.

Apesar do formato aparentemente simples, Pra saber ser nuvem de cimento quando o céu for de concreto não é um disco fácil. Andamentos e melodias incomuns podem soar inacessíveis a ouvidos virgens, causando um estranhamento inicial. Porém, algumas audições depois, o disco começa, aos poucos, a se derramar nos ouvidos e a se encaixar na audição e compreensão de quem ouve. Isso se deve aos textos de Juliano, que desencadeiam reflexões sensíveis, do ponto de vista poético, sensorial e existencial. São letras essencialmente visuais, que criam e recriam imagens velozes, como o tempo das grandes metrópoles, mas de um frescor brejeiro, que vão profundo no drama cotidiano que é a relação da natureza humana com o mundo ao seu redor. Discurso que se perfaz em todo o disco, especialmente em canções como “Plano sequência”, “Ser leve” (de onde retirou o verso que dá nome ao disco), “Sem tempo” e “Vertigens”.

Ao passo em que se mostra preparado diante do mundo, Juliano recorre aos laços com sua terra, Goiana, para ir ainda mais profundo na sua essência. Essa relação está presente nos cenários do encarte do disco, imagens da casa de sua avó, Guiomar, sob o olhar do fotógrafo Beto Figueiroa, também um goianense. Entre as composições, Juliano traz Tomaz Alves, outro conterrâneo. E o reencontro com o seio familiar também surge na figura do pai, Júlio Holanda, com quem divide a autoria de “Vasta rede” e “Dimensão”.

Não mais “invisível”, Juliano agora está exposto, desnudo, através das letras e dos sons que compõem o disco. Um trabalho para se ouvir com os ouvidos e a alma íntegra, completa, assim como ele foi feito.

* Publicada originalmente na 1ª edição da revista Outros Críticos.

Categorias

Leonardo Vila Nova Escrito por:

Jornalista e músico.

Um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.