A retomada do Cidadão Instigado

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Foto: Poster – Divulgação

por Fernando Athayde.

Ao longo dos últimos dez anos, tornou-se muito difícil tecer publicamente uma crítica ao som da banda cearense Cidadão Instigado. O trabalho realizado em seus dois últimos discos, Cidadão Instigado e o Método Túfo de Experiências, de 2005, e UHUUU!, de 2009, fez com que o grupo adquirisse não somente uma base sólida de admiradores, mas se tornasse um dos grandes nomes da música brasileira alternativa. Este ano, o quinteto liderado pelo guitarrista e vocalista Fernando Catatau ataca novamente, com o álbum Fortaleza, quinto de carreira. O lançamento é complexo à medida que suscita uma série de questões sobre a turbulenta relação existente entre corresponder às expectativas do público e recriar-se artisticamente.

De início, é importante estabelecer uma coisa: Catatau e sua trupe fizeram escola. Ao que parece, as noções harmônicas, melódicas e rítmicas sob as quais se estruturam boa parte das composições do Cidadão Instigado vêm ganhando mais e mais espaço no cenário nacional. Síntese aguçada de dois elementos que ocupam posição de prestígio no repertório básico do brasileiro universitário e culturalmente antenado, o rock clássico e o brega, o som do quinteto cearense surge alocado na intersecção entre a boemia romântica e o dito bom gosto musical da classe média. Uma reflexão interessante sobre isso é tentar interpretar os conceitos e a popularidade obtida pelos inúmeros trabalhos produzidos por Catatau para outros artistas na última década, como Nação Zumbi, Siba, Arnaldo Antunes e Karina Buhr. Particularidades sonoras tais quais o timbre das suas guitarras de marcas e formatos obscuros, calibrados com fuzz e vibrato quase sempre estão lá, criando identificação automática entre aquilo que é ouvido e quem tocou.

É claro que a fundamentação de uma identidade estética como essa não é exatamente um problema, mas a transformação dela num método é algo particularmente monótono. Dessa forma, Fortaleza surge prejudicado por se basear numa série de virtudes já conhecidas e disseminadas. Se seis anos separam o novo disco de seu antecessor, a forma de pensar o som concebido pela banda nunca deixou de figurar os ouvidos do público. São doze faixas carentes de um elemento capaz de romper a linearidade harmônica e rítmica da obra e instigar, de fato, a novidade. Tal aspecto é algo curioso, pois o próprio Cidadão Instigado já se provou capaz de manipular a imprevisibilidade com esmero no longínquo álbum de estreia, O Ciclo da Dê.cadência, de 2002.

Por não se permitir uma fuga dos moldes delineados pela sua própria história, o grupo dá à luz a um disco rico em timbres, mas escasso de conflitos internos. É bem provável que os muitos fãs da banda escutem Fortaleza à exaustão e encarem o álbum como a aguardada resposta dada àquele “gosto de quero mais” que ficou depois do fenômeno de popularidade UHUUU!. Ainda assim, quem nutre a esperança de se sentir provocado pelo contato com a abstenção de quaisquer regras que uma obra de arte deve exercer, pode se limitar a receber o lançamento apenas como um… lançamento.

De qualquer forma, a figura de Fernando Catatau é sempre interessante. Aproveitando seu espaço frente ao grupo, o músico transpira carisma ao evocar a aura de uma espécie de rockstar cosmopolita, fusão de Robert Fripp e Evaldo Braga. Capaz de criar melodias cativantes, Catatau não se fecha ao universo das seis cordas e busca se afirmar efetivamente como um autor. Em seus versos, recortes inspirados nos aspectos da vida atual aparecem entrelaçados com devaneios e crenças particulares. A letra da faixa-título de “Fortaleza” talvez seja o ponto crucial do disco. Visto que até em seu espectro lírico o novo álbum traz uma abordagem surrada pela contemporaneidade, quando discorre sobre a descrença de um futuro próspero ou a desconfortante banalização dos arranha-céus; é nos momentos mais pessoais que a obra atinge seu melhor.

“Fortaleza”, a canção, é uma crônica sobre a tentativa falha de transformar um artista nato num homem comum, cujas realizações e prazeres não residem nos constantes mergulhos no caos que determinam o ato de criar, mas sim na cadência sufocante do cotidiano. “Caminhava do Meireles indo até a p.I./ Vendo o povo nas ruas era bom estar ali/ Era tanta inocência e eu sonhava em partir/ Mal sabia que um dia tudo isso iria mudar/ Quando eu fui para o concreto eu só queria ver o mar/ E era tanta diferença e eu só pensava em voltar”, são versos que expressam muito sobre não se adequar a padrões – uma reflexão que Catatau parece compreender muito bem, mas que não deixou evidente nessa nova empreitada do Cidadão Instigado.

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #7 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

Foto de capa do site: Cassio Cricor

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Músico e jornalista. Edita o site Neurose.

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