A Maldição Mangue

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“Mangúe Bangúe”, de Helio Oiticica

No faroeste No Tempo das Diligências, de John Ford, um médico bêbado, após fazer um parto inesperado em pleno deserto do Arizona, afirma: “O novo é sempre mais bonito!”.

Cenas musicais e movimentos culturais são forças de um jogo permanente em que há estabilizações, questionamentos, releituras e reconfigurações de quem veio, passou ou continua na área. A história do rock é um constante processo de “incorporação” e “excorporação”. Será que alguém acredita que os Rolling Stones podem, hoje, produzir algum corte como produziram na década de sessenta?

“Maldição Mangue”, a polêmica expressão que usei para falar dos fantasmas exorcizados no lançamento da coletânea O.N.I., da autodenominada Cena Beto, é uma expressão talvez dura, meio mole, de alguém que não pensa em negociar com zonas de conforto preestabelecidas.

Com o tempo, a Cena Beto pode cantar o mantra dos incorporados, projetar gente e pagar pau também. Aí aparecerão outros corsários, outras questões, outros críticos. Só não é possível ignorar os fantasmas que rondam há algum tempo os antigos casarões do Recife. Como já escrivinhou  Ricardo Cacá, guitarrista e vocalista da Ex-Exus, no petardo Entrelugares – notas críticas sobre o pós-mangue (2012), não dá para viver sobre o peso de algo inexistente como o Pós-Mangue, cujos últimos espasmos foram a produção de um trocadilho, pra lá de indi(e)gesto entre Beatles, beat e bit.

Mas o que eu quero falar é que a maldição, o mal dito, assombra, desde o início do século XXI, a produção musical recifense. Se em um primeiro momento, Pernambuco foi pioneiro (o primeiro do mundo!) a formatar editais públicos de cultura para a produção e circulação de produtos que não eram “patrimônios locais”, hoje vemos que nesses fazeres faltou pensar políticas para o pequeno porte e a formação de público. Hoje, os descendentes de mangueboys e manguegirls preferem pagar R$ 30,00 em festas de tocadores de vinis cult descolados, do que por música ao vivo; e digo que isso vale para músicos emergentes, residuais e estabelecidos. Parece que só Capilé não notou que Recife era fora do eixo avant-garde. Parreco!

Se no início a estética mangue se espelhava na tropicália e projetava o pop naquilo que estava ao lado, disponível; por outro, logo tivemos uma profusão de regionalidades que foi abocanhada pela embalagem World Music. Na década de noventa, momento em que Recife passava por um período de baixa estima, foi massa ver de fora que a garotada passava a olhar não só a cidade, bem como os sons ao redor, como algo que valia a pena quando ruminado através de novas pontes. Mas logo estaria tudo dominado! Chapeuzinhos de palha por todo canto, congelados em cartões postais.

Normal que uma outra geração, que não negocia com o patrimônio histórico da música local, tente se intrometer nas brechas e andar por outros caminhos, fazendo referências à psicodelia dos anos setenta e a figuras colaterais da cena cultural recifense. Os dissensos fazem emergir outros lugares e corpos na Recife alagada, caótica e efervescente em que vivemos hoje. A dieta de caranguejos foi afetada pela doença dos caranguejos letárgicos (DLT); resta-nos a crueza sertaneja, bode guisado e água dura.

É nesse palco que emergem desconstruções como a Mi – Música Independente em Pernambuco e os Outros Críticos. Escrivinhadores  que acreditam em profanar o sagrado, ou seja, tornar humano, trazer para a rua o que foi sacralizado. Em momento algum se afirmou que o Mangue era gênero musical ou algo homogêneo. Mas a internet tá aí, mexendo com a cadeia produtiva da música, possibilitando outras produções musicais e outras gambiarras que muitas vezes tão cagando e andando pra alfaias, pandeiros e a nova velha música popular brasileira. Esse é o baque virado atual.

Eu, rabujeder, roqueiro velho, acredito que o espaço da crítica é a esfera pública, com direito a desterritorializar mitos e profanar velhas estátuas, colocando o bloco na rua quando assim o desejar. Esfera pública não são só os cafés da livraria chique e teatros do shopping. Espaço crítico também é aquela pisada na merda do cara que mora na rua quando você começa a noite no Beco da Fome. Até pouco tempo atrás ser maldito era legal, mas quando há sacralização vem a mão dos teólogos, dos apontadores do que se pode ou não dizer, e, quiçá, excomungar os desabitados. Mas os Betos são insistentes e retornam aos lugares de onde foram defenestrados, pois o que tá valendo, tá ligado?, é a bueiragem, o desapego, comer carne humana.

por Jeder Janotti Jr.

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Jeder Janotti Jr. Escrito por:

Professor do Programa de pós-graduação em Comunicação da UFPE.

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