A Fase Rosa – Homens Lentos

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meu último artigo para o outros críticos foi sobre o trabalho do iconili e nele eu apontei para algumas questões referentes à hipervelocidade, essa que nos devora e não nos permite assimilar toda a enchurrada de informação, útil e inútil, que nos atinge diariamente.  hoje esse assunto insiste em dialogar comigo, mas dessa vez para contar sobre as fortes impressões que me causou o disco homens lentos (2013), da banda a fase rosa, que acaba de ser lançado e que chega a me causar espanto pela maneira inteligente que o grupo mineiro usa para casar tradição e novidade. quer algo mais vivo e carnavalesco do que nossas marchinhas? no caso do a fase rosa, vivo não apenas em um sentido unilateral de calor e de sorrisos, mas também de protesto, de crítica e de proposta.

homem lento é um conceito criado pelo geógrafo e intelectual milton santos em suas discussões e diz respeito ao homem comum que faz resistência contra as forças perversas da globalização. deixo claro aqui que essa é a opinião de milton santos – um dos maiores intelectuais que já tivemos, sem dúvida –,  sobre o processo de globalização, mas desde já aviso: sou medievo demais para alimentar ideais utópicos e prefiro acreditar na incompetência irremediável de nossa espécie frente aos problemas “administrativos” da existência da mesma. os “bonzinhos” que me perdoem, mas pecado é essencial.

oriundos do movimento conhecido como “praia da estação” (um posicionamento político e cultural sobre a ocupação de espaços públicos para manifestações artísticas e culturais), o grupo formado por thales silva (guitarra e voz), rodrigo magalhães (baixo), rafael azevedo (guitarra) e fernando monteiro (bateria) desenvolve uma ligação entre tradição e novidade e consegue com isso criar para si uma singularidade, uma maneira única de criar e habitar sistemas formais. o músico e compositor makely ka, figura importante no campo do debate sobre a produção artística e política cultural da atualidade e conterrâneo dos rapazes, aponta dois caminhos para uma inovação que mantenha a tradição como exemplo, como trampolim para saltos cada vez mais altos: “Um deles é fácil, escorado em convenções universalmente aceitas como belas, melodias doces, harmonias funcionais, letras suaves. Essa beleza cansa rápido e não interessa. A outra é a beleza difícil, que causa estranhamento, que deixa uma dúvida, que você vai percebendo aos poucos, vai descobrindo em camadas, vai se surpreendendo. Essa é a beleza que interessa. Talvez seja esse o nosso caminho, do equilíbrio formal e da beleza difícil.” – Depoimento disponível em O Globo.

é certo que as composições de “homens lentos” se enquadram na segunda fórmula. mesclando axé e carimbó, entre outros estilos, com guitarras inspiradas e arranjos de ótimo gosto estético, o quarteto investe pesado em composições dotadas de um asseio ímpar no trato das letras, basta ouvir músicas como “o arquiteto e o carnaval” e “casa” para confirmar o que digo, ou “desmancha” e “tanta flor”, que exibem as batidas bem marcadas de ritmos regionais, sempre com elementos que se chocam, causam atrito e fazem com que a ficha demore um pouco a cair.

 

 

em 1905 inicia-se o que é conhecido como a fase rosa de pablo picasso, da qual fazem parte duas obras que muito aprecio (são elas “garoto com cachimbo” e o “retrato de gertrude stein”. nessa fase o pintor espanhol amplia seus temas e sua paleta de cores para dar liberdade a pulsões mais temperadas e vívidas, atitude que muitos acreditam ser fruto de sua ligação com fernande olivier, que tornou-se sua modelo e amante (uma das). pra mim tornou-se plausível e sustentável pensar a ligação dessa fase de um dos maiores nomes da pintura moderna e da arte em geral com o nome de uma banda que esbanja delicadeza e suavidade ao mesmo tempo que potência e firmeza. “homens lentos” é forte concorrente a passar intacto pela marcha alucinante da informação, querendo e fazendo as coisas de outro modo, desafiando sistemas hegemônicos e inflexíveis, atrasando assim o girar imperativo das engrenagens desses mesmos sistemas.

este trabalho é um acontecimento que deve ser ouvido, observado e, principalmente, vivenciado, pois é fruto de encontros: do velho e do novo, de diversas camadas de experiências sócio-político-culturais e de variados diálogos criativos e musicais; é produção que vale refletir não somente enquanto produto cultural, mas como ação que dilata certos pontos do discurso da singularidade e acrescenta novos pontos de fuga ao quadro do fazer musical.

 

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longe de todo o discurso, tão em voga novamente, de que é preciso discutir se é possível ou não inovar no fazer musical, e antes que comecem a dizer por aí que eu não passo de um pessimista blasé, quero deixar claro que me sinto orgulhoso de fazer parte de uma geração rica em artistas com vontade, propósitos, e cheios de propostas verdadeiras e de qualidade; de compositores como frederico demarca, luiz felipe leprevost e marcelo fedrá; de intérpretes de peso como andré muato e marilia schanuel,  bem como os cantautores pra lá de inspirados de belo horizonte e região. o que não significa que eu acredite em salvadores, já que também não acredito em apocalipses.

por Jocê Rodrigues.

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Jocê Rodrigues Escrito por:

Jornalista, escritor e poeta, autor dos livros "As Máquinas de Deus" (ed. Multifoco) e "Luna: o canto que também provoca maremoto".

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