A construção narrativa do Saracotia

.Há quem defenda que a música é a mais difícil das manifestações artísticas. Manuel Bandeira, por exemplo, afirma categoricamente que “a técnica musical funda-se em muito mais ciência que a das outras artes.” Faz sentido. Se pararmos para olhar à distância e desnaturalizarmos a relação socialmente construída entre nós e os gêneros da arte, perceberemos que a música trabalha muito mais o abstrato do que as outras vertentes da criação artística. Afinal de contas, a pintura se realiza na imagem, mesmo quando a nega; a escultura acontece pela delimitação de formas e volumes palpáveis; a fotografia existe tão somente através da captura de um instante pinçado da tessitura do real; e o cinema, para ficar só nestas searas, demanda o encadeamento destes mesmos instantes em movimento. Resta, portanto, que essas formas da Arte se encontram muito próximas daquilo que percebemos como realidade, do arcabouço simbólico que coletivamente utilizamos em nosso enfrentamento diário do mundo material. A música, não.

Como num universo paralelo, a música manipula e organiza artificialmente certos sons – mais precisamente doze, segundo o sistema temperado ocidental – de acordo com uma lógica estritamente sua. A partir desses regramentos, o compositor constrói seu mundo particular, idealizado, com fins inteiramente expressivos, mas que, por estar plasmado no éter, só a execução torna fugazmente apreensível. “A música esvai-se no ar quando termina. Você nunca consegue capturá-la novamente.”, já advertia o saxofonista Eric Dolphy. Era preciso, portanto, encurtar o caminho entre a composição e o ouvinte, descriptografar seu conteúdo emotivo, tornar sua mensagem mais clara, direta e acessível. Para tanto, serviu bem a palavra como instrumento de mediação, pois estabelecia o elo entre o universo imaterial das notas musicais e o ouvinte comum, aquele indivíduo não versado nas liturgias da teoria musical que, conduzido agora pela significação da letra, fruía a experiência estética do som segundo sua própria perspectiva. Daí a hegemonia da canção. Daí também seu desdobramento mais óbvio: a ideia preconcebida de que a música instrumental é cientificista, árida, produção de músicos para o deleite de outros músicos, voltada para a exibição de destreza técnica. Contudo, cientes de todas essas questões, inclusive dos desafios mercadológicos que nascem da visão estereotipada do conceito de “música para músicos”, o trio pernambucano Saracotia, em seu segundo disco, intitulado A Vista do Ponto, convida o ouvinte a romper com a indolência das concepções prévias e lançar um novo olhar sobre as construções narrativas urdidas pela poesia do instrumental.

Viabilizado com recursos do Funcultura, traz um inesperado salto estético em direção à maturidade do trio formado por Rodrigo Samico (violão de 7 cordas, viola e guitarras), Rafael Marques (bandolim) e Marcio Silva (bateria). Jazzístico na linguagem, regionalista no sotaque e erudito na intenção narrativa, neste segundo trabalho o combo pernambucano supera em muito a estéril perspectiva tecnocrata da música instrumental que enxerga o tema apenas como um circuito de obstáculos cujas barreiras das convenções e da miríade de notas devem ser transpostas pelos músicos através da graça fingida do virtuosismo. Ao contrário, o foco aqui não está no que se sabe, e sim no que se sente. Portanto, o Saracotia transforma a composição no território por excelência da comunhão de subjetividades nas quais constroem novas estruturas sonoras sobre o dinâmico material temático via improvisação individual e forte interplay, compartilhando, assim, no arriscado e incerto processo da criação espontânea o êxtase da liberdade.

Numa música que parece ser um vórtice de gêneros e influências, o trio consegue transitar do forró ao bebop, passando pelo frevo sem se esquecer do choro; tudo isso sem recair nos lugares comuns que não raro costumamos encontrar na produção instrumental destas terras em sua estranha propensão de transfigurar suas raízes culturais em bijuterias do vendável no negócio que é também a música. Assim, diria que é impossível detectar quaisquer resquícios de clichê em composições como “Ócios do Ofício”, com seu rebuscado fraseado, reviravoltas na dinâmica e um debochado senso de humor que zomba da própria exuberância técnica que sua execução requer; “Dia de Sorte”, em sua assimetria rítmica que desafia a percepção métrica reinante dos compassos binários; “Pra Você”, um mergulho no contemplativo dos espaços; ou “Bolerando”, um choro-valsa-pé-quebrado em 5/4. Por isso, ao invés da relíquia intocável de um passado longínquo, vemos a tradição sendo manipulada como um material vivo, dessacralizada – embora com muito respeito e conhecimento de causa –, extrapolando o hermetismo arbitrário das fronteiras para descambar numa música atual e culturalmente profunda.

No entanto, apesar de todas essas qualidades intrínsecas às músicas, devo confessar que minha escuta foi marcada por certo estranhamento, pois não consegui entender a necessidade de se conectar temas tão diversos e ricos num continuum inorgânico que sugere uma história. Imagino que na intenção de tornar o empreendimento cultural A Vista do Ponto mais comercial e palatável ao ouvido leigo, o produtor Rogério Samico tenha concebido a estratégia de apresentar o álbum como uma trilha sonora de um filme imaginário a ser roteirizado pelo ouvinte durante sua audição. De fato! Intuitivamente me vi numa conturbada estação embarcando num trem com destino insabido nas despovoadas terras da experiência estética. Logo quedei-me deslumbrado ante a beleza objetiva de paisagens sonoras traduzidas em composição e surpreso com o modo como elas eram violentamente agredidas pela nefasta e predatória intervenção humana, materializada aqui em overdubs, samples, vinhetas e outros penduricalhos mecânicos que os do meio chamam de “desenho sonoro”. Foi trabalhoso, por exemplo, atravessar a maçaroca ruidosa que encobria o lirismo do violão e diálogo que ele estabelecia com o bandolim no começo de “Por Querer Ficar”; ou me concentrar depois da colagem nonsense de um vendedor de pamonha (ali de Piracicaba!) no interlúdio de “Forró-Bozó”. Se há nessa dualidade um propósito de traçar um paralelo com o planejamento urbano do Recife (como dá a entender a arte do disco), não creio. Vejo mais uma descontinuidade entre os pontos de vista musicais da banda e do produtor que marca o álbum.

Por essas razões, mal posso esperar por ver este afiado trio no palco, longe da interferência excessiva de um membro avulso, focando inteiramente no que importa: as composições. Receio, porém, que terei de esperar um tanto. Provavelmente até a aprovação, em mais um edital de fomento à cultura, de um projeto de circulação… Vivemos em Pernambuco, onde a classe artística se deixou levar pelo irresistível canto das sereias disfarçado em “políticas públicas para a democratização da cultura” sem perceber, contudo, que a independência pela qual sempre lutou escorria por entre os dedos à medida que seu processo de funcionalização se consolidava com a substituição do mercado pelo Estado. Mas, isso é papo para outro texto. Por ora, cabe dizer que A Vista do Ponto traz em si inúmeros êxitos, alguns desencontros, mas, sobretudo, muita substância artística e a promessa de que na experiência do “ao vivo” pode cobrir muito mais terreno. Recomendado!

Publicado originalmente na revista Outros Críticos #9 – versão da revista on-line | versão da revista impressa

O disco foi produzido por Rogério Samico e gravado no estúdio Carranca, com participações especiais dos músicos Júlio Cesar, Vitor Araújo e Martins. O projeto gráfico e fotografia são de Wiliam Paiva.

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Bruno Vitorino Escrito por:

Compositor, baixista e colunista do blog Variações para 4.

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