A cidade cai, o passo é torto

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Foto: Clipe “O buraco”, de Passo Torto. Produção: Filmes do Vulcão Direção e montagem: Miguel Antunes Ramos Fotografia: Alexandre Wahrhaftlg Grafismo: Julio Dui

por Carlos Gomes.

(Arrastão de JMB)

São Paulo, tempo possível e uma canção ruidosa.

Da janela do meu ônibus não haverá enquadramento.

Arrastar os dedos na tela, nas cordas.

Sentir-se preso em casa.

Permanecer preso em torno de mais ou menos 50m² e

Ser feliz.

 

São Paulo, quatro compositores e uma estética que expande a cidade.

Era a periferia, suas casas, bairros, personagens.

Por ela uma narrativa combinada a vozes e sons acústicos.

Quase não se ouvia o chão. Somente o silêncio e sua infinidade de combinações.

Faixa número cinco ou final do lado A: ESQUIZOFRENIA.

 

“cidadão, esquizofrênico, correndo no jardim valquíria

ansioso, a noite toda, procurando a luz do dia

estudando um passo torto, um samba, um rap

um rock pra se orientar” (Passo Torto)

“Ó cidade faminta!

Alimentando-se de letras de canções” (JMB)

Fazer canções como quem as desconhece.

Desfazer canções em busca de uma síntese.

Ser acústico porque contar requer silêncio, prosa.

Ser elétrico porque já não é possível suportar o corpo.

Que rondas, malocas, augustas, ipirangas, são joãos?

 

 “Helena, os prédios tem micose

Helena, os prédios tem varizes

Helena, os prédios tem bronquite

E a cidade é um rádio por dentro”

(Passo Torto)

“Ó cidade poeira, origem e meta

da palavra POEMAÇÃO” (JMB)

Reconhecer na cidade a expiação do mundo moderno.

Ser a palavra a gênese e ao mesmo tempo a ação.

Porque canções podem causar irritação na garganta,

pele, mucosas e ainda assim dar prazer. FRUIÇÃO.

 

A SEU MODO: a crítica especializada:

Formado pelos músicos Romulo Fróes, Kiko Dinucci, Rodrigo Campos e Marcelo Cabral, o grupo envolve a canção num emaranhado ruidoso que a todo o momento impõe ao ouvinte uma simples reflexão: o que é canção? Passo Torto trata de desconstruir o entendimento padrão da canção. Se o samba do primeiro disco se afirmava por quebras narrativas, com tons de claridade, o elétrico reconfigura o ruído na música, tornado a cidade humana, sexual e violenta. As vozes e gritos nos põem a pensar a cidade, nossas relações. Tanto na construção das letras, como na elaboração dos arranjos e sonoridade do disco, há sempre uma questão posta a refletir, seja cultural, política ou estética. A São Paulo do Passo Torto é desconstruída com um ritmo singular, assim como a canção, crítica desde o seu primeiro pulso. (Retomada do autor, crítica da crítica ipsis litteris)

A SEU MODO: a metalinguagem:

Ouvir Jomard Muniz de Britto dizer repetidas vezes que é preciso que “sejamos corajosamente ridículos”, seja numa folha de papel entregue na rua como atentado poético, ou num super-8, poema e canção, aula, ironia ou de que forma for; daqui, desse lugar pequeno, me faz querer ser numa mesma voz: crítica e criação.

FIM (A SEU MODO):

“Uma cidade, além das dúvidas e suspeições,

é o conjunto de seus buracos” (JMB)

“Vai José

Vai saber como é que é

Cair

A cidade inteira até

Sumir

A cidade inteira cai”

(Passo Torto)

Helenas e Josés, canções e aspirações para a crítica.

Estar no tema sem nunca dizê-lo.

Ser o tempo todo o autor sem nunca poder pronunciar o seu nome,

nem ter lugar a que se fixar, unívoca linguagem a pedir guarida.

 

OCUPAR,

reconstruir a paisagem de novo e de novo até sermos o velho, a velha

canção brasileira, a velha arquitetura, a velha ventania, o velho bairro e a velha rua.

Ou queres os velhos sobrados, suas sombras e o medo de ver aquilo tudo de novo novo?

RESISTIR como a canção depois do fim.

 Publicado originalmente na 6ª edição da revista Outros Críticos.

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Carlos Gomes Escrito por:

Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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