A cena dos sem cena ou cena beto é rock?

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Graxa no show de D Mingus & a Fantástica Kazoo Orquestra no FIG. Foto: Pri Buhr/Secult/Fundarpe

Um nome é como um rótulo, serve para pensar quem somos ou quem não somos. Uma definição mínima de identidade é “noção de si”. Já uma cena musical é um grupo de músicos, fãs, produtores e críticos que se jogam em cena, dramatizam, teatralizam esse agir comum.  Não por acaso, músicos de uma cena sem nome, talvez do movimento dos sem cena, buscavam sua autorreferência. Foi com esse propósito, que em torno de uma brincadeira do músico Graxa, que Aninha Martins, D Mingus, Ex-Exus, o próprio Graxa, Jean Nicholas, Juvenil Silva, Matheus Mota e Zeca Viana, entre outros, acabaram se autonomeando Cena Beto.

Mas o que o pobre do Beto (poderia ser Alberto Roberto, Raimundo Nonato) tem em comum com sonoridades que ora são psicodélicos, ora tecnobetos, ora ex tudo? Eu, sinceramente, não gosto do nome, mas ele tem funcionado para tensionar o que antes ficava como pressuposto, ou seja, tem música de fôlego no Recife novo e antigo, tem gente comendo pelas beiradas a “maldição mangue”. Afinal, como se sabe, caranguejo anda de lado, mas na sabedoria popular, aquela que importa, ele anda pra trás, buscando uma zona de conforto que marca os “descolados” cults estabelecidos.

Aliás, essa caranguejada já deu, é melhor partir para a culinária sertaneja, da carne de sol com macaxeira, passando pela galinha à cabidela. Que para o início, o tal vídeo da caranguejada do beto seja esquecido, ou sirva para lembrar que é possível apagar o mal começo ou propor outros começos. Para quem não viu ainda, esse vídeo realmente “indie(gesto)”, como disse uma amiga, está lá no canal pop de nosso tempo: Youtube.

Bem, agora que você já viu, esqueça!!! Isso não tem nada a ver com o humor ácido de Matheus Mota, com a ironia psicodélica de Juvenil Silva, com a elegância questionadora de D Mingus e com o desconforto diante do óbvio de Graxa. Independentemente de Beto pegar ou não (quem sabe, afinal, o pior nome de banda de todos os tempos, Paralamas do Sucesso, pegou!!!), a cena dos sem cena tem algo em comum, ela é rock. E não é pela sonoridade, não é pelo ritmo, é pela única coisa que mantém a ideia do rock viva: o desconforto com as zonas de conforto.

É uma turma do Lo-Fi sem fidelidades fáceis ou de desbundados em uma época que os pop cults descolados parecem dividir a mesma droga com políticos estabelecidos, e vivem sob o medo de que as babás façam a revolta contra os pais bilu-bilu. Se gerou filho, tem que criar, enfrentar o mundo. Se não for assim é só fazer canções fáceis, curadorias óbvias, discursos chauvinistas e crítica de mais do mesmo. Isso não é rock.

A sacralização do crítico, do músico, do mangue, da manga amarela, é um afastamento do humano. Profanar os mitos e os donos dos discursos é torná-los humanos, da ordem do erro. A cena dos sem cena é cosmopolita, não porque afunda antenas nas lamas ou renova mitos, e sim, porque questiona a cidade de um só movimento, de um só crítico e de um só circuito cultural. Beto, ou seja lá quem for esse comum, (qualquer um) aparece, faz cenas, músicos, críticos, públicos e reivindica a volta do ser rock: antídoto contra zonas de conforto das sonoridades recifenses.

por Jeder Janotti Jr.

Foto de Capa: Juvenil Silva e Marcionilio Nery durante show no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG). Foto: Pri Buhr/Secult/Fundarpe

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Jeder Janotti Jr. Escrito por:

Professor do Programa de pós-graduação em Comunicação da UFPE.

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