vozes, canto, bocas, coletivos: ALGARAVIA

  1. preparação

não seria possível isolar um pretenso texto que partiria da obra sonora delivered in voices – exposta e vivida como residência artística por diversos músicos e artistas durante a última edição do festival novas frequências, no rio de janeiro, em dezembro de 2015 – do fato de seu criador, o artista visual tunga, ter falecido enquanto a estrutura deste texto ainda não estava totalmente erguida. a preparação se dava no contato mais direto com aquela obra, no que era possível fazer na distância entre a cidade onde ela estava localizada e a recife de quem aqui escreve. o contato com a equipe de tunga via e-mail, com publicações produzidas sobre a obra, com os músicos presentes na residência, além das fotografias e vídeos produzidos no festival se insurgiram como vestígios de uma presença. mas com a morte do artista e a proliferação de outros textos, imagens, vozes, narrativas, biografias e demais escritas em sites, jornais e redes sociais, o personagem tunga: artista, poeta, corpo, performer, múltiplo, se expandia para além de minhas palavras, como uma outra presença. diante dessa multidão de vozes, decidi pôr minha voz narrativa em equilíbrio com as demais, na tentativa de expandir as sensibilidades de outrem para este lugar. portanto, o que você lerá são vozes. uma montagem sobre corpos presentes e ausentes.

  1. delivered in voices

três estruturas de ferro, que chamamos de tripé, circundam uma quarta estrutura de semelhante forma. para cada uma dessas três estruturas, temos três diferentes artefatos protagonistas. um meteoro, um cristal de rocha, e uma “espada de são jorge” (sansevieria trifasciata). para cada tripé, existem alto falantes virados na direção destes diferentes protagonistas. em um deles, a espada de são jorge “ouve” gravações de sessões de exorcismo. em um outro tripé; o meteoro “ouve” a gravação de dylan thomas recitando poemas. no terceiro tripé periférico, o áudio de uma matilha de lobos, uivando em seu habitat selvagem está direcionado através de seus alto falantes, para o cristal de rocha ‘ouvir”. nos resta o tripé central, composto de um sino de cerâmica pendurado, grande o bastante para que um adulto se acomode, de pé, confortavelmente; de maneira que sua cabeça e parte de seu torso desapareça. dentro do vaso de cerâmica existem três microfones, cada um capta a voz e joga para o seu tripé periférico correspondente, que propaga o som, criando desta forma, um clima de algaravia na instauração.

  1. novas frequências, diálogos

festival que está muito mais aproximado da arte contemporânea, da arte sonora, do que da música como entretenimento. é a primeira vez que tunga cria uma obra sonora e que inaugura uma residência artística para que artistas explorem realmente a obra dele. ao longo de uma semana a gente realizou no galpão do tunga (laboratório agnut) uma espécie de festival dentro do festival. onde a cada dia artistas sonoros e músicos diferentes tiveram o desafio de interagir, de tocar, de dialogar com a delivered in voices.

copia-de-lucas-santtana_foto-coletivo-clap_dsc8475
Lucas Santtana no Festival Novas Frequências. Foto: Coletivo Clap
  1. bate-boca

foi uma experiência inédita para mim, nunca havia feito nada parecido. essa obra do tunga já tem várias bocas falando ao mesmo tempo, podemos dizer assim. então, eu procurei adicionar sons que consoassem bem com elas e em alguns momentos pudessem se sobrepor a elas como se um novo discurso quisesse se sobrepor numa discussão.

  1. canto de amor

me lanço na enigmática escultura floresta, terreiro, de índio, de preto, de homens e lobos, de seres humanos, bichos, cristais, plantas e sons, de tunga, o artista da pangeia, que fura em nossas mentes espaços para serem habitados por imagens e sensações que nos confrontam com nossa própria fortaleza. me interesso pelo instante de conexão que se opera na experiência terreiro, onde a obra é toda a dimensão espacial, sonora, visual e espiritual que nos engole, como um portal que nos transcende. eu na voz e na condução performática e eduardo manso na guitarra e synths, nos entregamos ao nosso fluxo imaginativo, ao nosso mergulho profundo. manso, que é um músico muito sofisticado, sutil, e violento também, cria com seus instrumentos sons que nos habitam e que estão em perfeita transa com os sons da escultura sonora de tunga, e leva nossa alma a navegar e descarregar os ruídos que vem da calma e do silêncio. somos parte da experiência mágica que ali se processa. há uma conexão ligada às forças espirituais presentes e uma grande conexão das pessoas que habitam esse espaço magnetizado, e parecem suspensas na atmosfera. nos movemos lentamente, instalamos um rito de cura. bato cabeça para o primeiro orixá-escultura com cantos de descarregos e espadas de são jorge.  qual é o canto pra me curar óh rei? canto eu indagando o santo. tomada pelo transe viro onça, vamos agora percorrer a floresta, há lobos que uivam e suas vozes se confundem com as das índias que cantam cantos que já foram esquecidos, que se queimaram na história. é o centro e a margem de uma aldeia, o devir e o inconsciente dialogando com uma obra que nos faz ligar imagens, ideias, memórias, conhecimentos, silêncios e lacunas. colar fragmentos como setores mapeados de nossa imaginação para reunir a pangeia dentro de nós e habitar o universo da invenção que habita o da ancestralidade. nos lançamos no abismo da invenção em fluxo de improviso, protegidos pelos orixás e encarnando os espíritos que nos trazem as músicas, em um processo de invenção também ligado à existência e ao inexplicável. todos estão sintonizados na dinâmica de conexão em rede. como em um ritual indígena, os cantos se multiplicam, mantras e cantos ecoam, mulheres se reúnem no centro para cantar e dançar, como se filosofassem sobre a infinitude que é o cantar. tudo confirma cada instante em um instante. há uma convicção e um empoderamento de nossas forças, há a percepção de nossos canais que são eletrificados pela escultura total do tunga. ele é pura poesia e imaginação, surrealismo, delírio, experiência, sonho, fome, violência. é inclusive muito glauberiano e pasoliniano, sendo unicamente tunga, essa unidade pangeia.

copia-de-ava-rocha_foto-coletivo-clap_mg_4213
Ava Rocha no Festival Novas Frequências. Foto: Coletivo Clap

se você salta nesse intenso mar, te resta nadar. da batalha contra as ondas e sua própria capacidade de construir ao embalo de outros movimentos surge a via da criação, da expressão e de tantas explosões. assim esse grande improviso espiritual e ritualístico se transforma também em escultura, parte dela, confrontando-a e abraçando-a mas também arrancando dela qualquer sentido único,  abrindo as dobras. então somos todos envolvidos pela magnitude do campo energético que expressamos nessa sessão performática. há a palavra do poeta, o som do bicho e o espírito da natureza. a força das plantas e das pedras. é um jogo de construção e desconstrução, composição e decomposição inspirada na fé de cura a partir do desejo e da imaginação, e sobretudo do forte sentimento que fazem de nós uma expansão escultórica de consciência e inconsciência nesse canto que é em suma um canto de amor para tunga, orixá criador cujo corpo e pensamento, gestos, palavras, traços e sussurros é escultura, é invenção, filosofia e alquimia, surrealidade e realidade, é poesia e é política. me empodero de uma crença, uma fé capaz de transbordar o meu forte amor e desejo, na certeza incerta mas verdadeira, de que o canto tem poder de cura.

1385246_764437800255218_3977716606575572109_n
Oficina Gambiarra, Cais José Estelita. Foto: Juliana França
  1. coletivos, outras vozes

manejar, manipular, experenciar sons e tecnologias em face de uma presença que se constitui como performance e improviso. com tais preceitos a obra sonora de tunga perpetua-se em movimento contínuo; em outra linha de reflexão que se orienta também pelo espaço do diálogo entre a presença, o caráter performático e o improviso, mas na utilização (ou reutilização) de “baixas tecnologias de ponta”, a “oficina gambiarra”, do músico e pesquisador marcelo campello, se orienta como “estratégia micropolítica de ‘diversificação’ (co)existencial, cultural e ambiental”. tendo estreado no v continuum – festival de arte e tecnologia, no recife, em 2014. campello contou com a colaboração de henrique vaz, do coletivo experimental poruu e dos mais de vinte participantes da oficina. como resultado, “realizaram uma dinâmica de improvisação tocando instrumentos feitos coletivamente, com materiais reaproveitados, e usando recursos improvisatórios com notação gráfica e condução ‘expandida’.” a partir dessa estreia, a oficina passou a fazer parte das frequentes atividades culturais, artísticas e pedagógicas realizadas pelo movimento ocupe estelita. por esses espaços diferentes de atuação, entre um festival de “arte e tecnologia” e posteriormente numa “ocupação”, campello considera que a “estrutura social (aberta, nômade etc.) possibilita operar em ‘territórios artísticos temporários’, acessíveis, integrando-se localmente pessoas interessadas em fazer música. essa estratégia possibilita, por exemplo, reunir aglomerações de musicistas que seriam pouco viáveis em circuitos oficiais, por aspectos mercadológicos como custos, disponibilidade etc. torna-se possível, assim, reunir grandes grupos ‘filarmônicos’, fazer, por exemplo, música instrumental acústica de massas sonoras, textural, de saturação etc.” com isso, têm sido convidado “a participar de diversos atos populares, como o dia de lutas e conquistas dos moradores do coque pelo direito à moradia no coque, o ato criativo ‘vivência em gaza’ a favor do povo palestino, o grande ato pelo teatro do parque (teatro do parque (re)existe!), o acampamento permanente pela defesa da democracia (frente brasil popular) e o ocupa minc pe (frente brasil popular), entre outros.”

14184450_1226261477406179_6789897388541239056_n
Oficina Gambiarra – 7o Agosto da Cultura dos Coelhos – 27/08/2016. Foto: Kayo Na Real
  1. gambiarra

“gambiarra”, como conceito ligado à “acessibilização criativa”, ao uso sistemático das chamadas “baixas tecnologias de ponta”, ao reaproveitamento de materiais disponíveis localmente, à abordagem de condições historicamente restritivas como referenciais compositivos, ao “improviso” em vários sentidos, entre outros aspectos, reflete a ideia de buscar favorecer, micropoliticamente, um “empoderamento” em relação aos mecanismos de convenção poética, estética e ética, no sentido de uma “antimassificação”. reflete um modo político de articular poderes e quereres em favor de uma “diversificação” e de uma “homeostasia”. a oficina gambiarra vem atuando como uma sociedade musical aberta, horizontal, cooperativa, compartilhadora e nômade, em “territórios artísticos temporários”, públicos, utilizando instrumentos de baixo custo, fácil confecção e alta tocabilidade, desenvolvendo e aplicando técnicas e estilos voltados ao amadorismo (ou seja, que não exigem dedicação exclusiva, sendo comunicáveis gestual e oralmente), notações gráficas facilmente assimiláveis, modos “expandidos” de condução (como “rotativa” e soundpainting), performances improvisatórias (estruturalmente indeterminadas) etc. numa perspectiva ecomusicológica, abordagens acessibilizantes em relação às ferramentas compositivas podem favorecer uma maior participação popular na construção dos repertórios musicais, das paisagens sonoras, dos territórios artísticos, das convenções poéticas, estéticas e éticas, dos meios de produção, circulação, valorização e legitimação, das maneiras de conviver. vêm a atuar, portanto, no sentido de uma ampla “diversificação” e de uma “homeostasia” cultural, ambiental e convivencial.

  1. à guisa de conclusão

a escrita como montagem desestabiliza a autoria. a obra sonora aberta é sensível às máquinas, ao gesto, ao canto, ao corpo performatizado. a voz como algaravia faz do som incompreensível sua própria comunicação. coletivos, ocupações, ruas, resistências, canções, ruídos, gritaria, artesanatos, tecnologias, micropolíticas: evóe, jovem artista, meta um grelo na geopolítica.

1. preparação: por carlos gomes; 2. delivered in voices: por equipe tunga; 3. novas frequências, diálogos: por chico dub; 4. bate-boca: por lucas santtana; 5. canto de amor: por ava rocha;  6. coletivos, outras vozes: por carlos gomes e marcelo campello; 7. gambiarra: por marcelo campello; 8. à guisa de conclusão: por carlos gomes (sample: chico buarque e negro leo).

Foto de capa: delivered in voices no Festival Novas Frequências por Coletivo Clap.

Publicado originalmente na edição #11 da revista Outros Críticos.

Share Button

Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

Seja o primeiro a comentar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *