Thriller, ventos, noites e todo o resto lá fora

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Foto: Victor Jucá

por Rafael de Queiroz.

No clima tenso das eleições, a programação do domingo dentro do Festival Janela começou com uma película que ajudou a acirrar os nervos do público. O longa sueco Turista (Force Majeure) é um thriller que provocou risadas nervosas durante sua projeção e conta a história de uma família aparentemente perfeita que vai passar as férias num luxuoso hotel localizado nos Alpes Franceses. Tomas e Ebba formam um par atraente e junto com seu belo casal de filhos, devidamente indumentados para a prática do ski, são “dirigidos” por um fotógrafo que sugere as melhores poses em uma estonteante paisagem.

Tudo vai mudar no segundo dia, quando vão almoçar na parte externa do restaurante do hotel e percebem uma avalanche numa montanha próxima. As crianças ficam apreensivas, mas o pai as encoraja a observá-la por ser controlada e, sendo assim, segura. Em poucos segundos, a admiração pelo espetáculo torna-se algo amedrontador já que a avalanche “domada” chega muito próxima do local onde estavam e enquanto Ebba se desespera e abraça os filhos, chamando desesperadamente por Tomas, esse salva seu Iphone e suas luvas e sai correndo, abandonando-os.

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A nuvem branca e o silêncio que tomaram conta do local logo são dissipados, quando Ebba reaparece nas imagens se limpando do pó branco e os que tinham fugido retornam, rindo do susto que acabaram de passar. Tomas é um deles e com sorrisos desconcertantes finge nada ter acontecido, fato que é acompanhado de um silêncio sepulcral por parte de sua família. A partir daí a aparência da perfeita família nuclear burguesa dá sinais de uma eminente erosão e em doses homeopáticas vai influenciando o comportamento de cada um deles.

Mesmo que Ebba se mostre irritada com o acontecimento, numa conversa breve com Tomas na porta da suíte, ambos fazem um pacto de silêncio, varrendo a sujeira para debaixo do tapete, o que não é sustentado pelas crianças que se mostram sinceramente abaladas e evitam a companhia dos pais. O pacto dura pouco e é quebrado quando jantam com pessoas que conheceram no hotel numa cena constrangedora, em que Ebba se abre com estranhos e Tomas segue negando o que acontecera mais cedo.

O machismo é posto em cena e é assimilado por ambos, afinal, Ebba está frustrada pela performance do marido que não assumiu o papel de protetor, de herói, e se mostrou covarde e egoísta, ao mesmo tempo que ele nega até ficar insustentável, ora levantando que tem outra versão da história, ora sugerindo, suavemente, uma histeria injustificável de Ebba. No terceiro dia, a mãe e esposa exemplar decidem esquiar sozinhas e a pretensa liberdade é questionada nas cenas subsequentes: ela chora ao ver Tomas e as crianças passando em um lugar próximo de onde estava e, mais tarde, em um diálogo com a estranha do jantar, se mostra extremamente irritada, até agressiva, ao questionar sua conduta, sua escolha por um relacionamento aberto, pois ela era mãe e casada, como Ebba, mas estava sozinha no hotel e se relacionando com homens diferentes.

“O filme segue mostrando a fragilidade dos sentimentos e como eles são postos à prova a todo instante, se revelando extremamente instáveis”

O filme segue mostrando a fragilidade dos sentimentos e como eles são postos à prova a todo instante, se revelando extremamente instáveis para seguirem estáticos num molde social extremamente engessado, onde os papéis arcaicos de gênero e de família talvez tenham cada vez menos espaço atualmente. Aqui, a imagem da natureza totalmente controlada pelo homem, através da avalanche controlada ao redor de um mega complexo de lazer num lugar de frio agressivo é irônica ao mostrar que as pessoas não conseguem controlar sua própria natureza.

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Foto: Victor Jucá

O outro longa em competição da noite foi o pernambucano Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro. O diretor que fez sua carreira no documentário, apresentou sua primeira ficção, um drama com pitadas de humor. O filme se passa numa cidadezinha no litoral de Alagoas, e conta a história de Shirley (Dandara de Morais), uma jovem da cidade grande que se vê obrigada a ir morar lá para cuidar de sua avó. Ela trabalha dirigindo um trator numa plantação de coqueiros junto com seu namorado, Jeison (Geová dos Santos), um garoto local que também faz pesca subaquática nas horas vagas.

O filme tem uma direção muito segura, uma fotografia primorosa e opta por não se aprofundar no psicológico das personagens. Na pacata vila de pescadores a rotina é quebrada quando um metereologista (o próprio Mascaro), chega para gravar o som dos ventos. Talvez o papel desse profissional no filme venha a sugerir a tentativa de prever o próximo passo da natureza, o que vai vir a se mostrar inútil. Uma cena noturna onde esse personagem grava o som dos ventos em meio ao mar, o ambiente hostil provoca um acidente e não tornaremos a vê-lo no filme.

Dias depois, Jeison acha um cadáver boiando no mar e passa a cuidar dele de maneira obsessiva, não ficando claro se seria o metereologista ou qualquer outra pessoa. Esse novo comportamento de Jeison é questionado por Shirley e repreendido por seu pai autoritário. A atitude humana diante da vida e da morte, da ação do tempo e da natureza sobre os nossos corpos permeia a narrativa: temos uma conversa sobre juventude e velhice entre Shirley e sua avó, onde a velha senhora a ensina que o tempo não perdoa; o mar violento, que avança continuamente a cada ano, está invadindo um cemitério e clamando para si os restos dos que já se foram, onde Jeison e seu pai tentam erguer uma barreira, aparentemente sem sucesso, para tentar conter sua ação.

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Foto: Victor Jucá

Mesmo naquele lugar remoto, onde o tempo parece se arrastar, a única certeza é que ele chega para todos e a ideia da perenidade da vida e sua linha tênue com a morte mexe com a normalidade daquele pequeno pedaço de mundo e seus habitantes. O diretor torna cômico o difícil acesso ao local que não tem nem endereço, quando policiais são chamados para levar o corpo, mas nunca aparecem ou quando as personagens escutam sucessos estrangeiros pelo rádio. A forma como a globalização chega a lugares como esse (na redução do tempo-espaço da informação e encurtamento das distâncias), como é sua recepção e ressignificação, é questionado inclusive com a bela cena em que Shirley usa uma lata de Coca-Cola como bronzeador.

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Foto: Victor Jucá

O aspecto cômico também se fez presente no curta Noites Traiçoeiras, do pernambucano João Lucas. O filme de um dos integrantes do coletivo Jacaré foi um dos destaques da mostra competitiva e fez a plateia gargalhar. O curta apresentou diálogos divertidos carregados de pernambuquês, ótimas atuações e uma grande montagem, que conseguiu dar um ritmo instigante [coisa que não é muito comum no cinema local]. Ele conta a história de Dôri, uma quase sexagenária que ainda procura um grande amor, mas que vai se frustrar diante dos parceiros que conhece na noite. O filme ganhou o público, mesmo sendo exibido no meio do calor das apurações, onde a plateia quase toda de vermelho roía unhas e comemorava a cada vitória anunciada. Confesso que essa angústia também atrapalhou meu trabalho e não consegui prestar muita atenção nos outros curtas da noite. Finalizo o texto usando esse espaço para fazer uma mea culpa com os leitores e os realizadores prejudicados. Meu mais sincero, “foi mal”.

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Doutorando em Comunicação pela UFPE e repórter da MI (Música Independente).

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