Taquicardia, uma novela de Tania Mendoza

  1. O tempo para mim significa esticar os braços o mais distante possível e sentir como cada um dos meus músculos me parte em mil pedaços, ficam dormentes, e deixar que eles apenas se movam e me joguem na cama, e me deixem sozinha, até que acabe o dia.
  2. Minha conexão com o mundo me animaliza, meu único semelhante é um cachorro preto, que late toda noite junto a seu prato, por um pouco de comida.
  3. Quando estou sozinha deixo que a lentidão me invada, movo um prato, coloco um disco, troco por outro, escrevo a metade de uma frase em uma folha que já estava meio escrita, o mundo se esconde, e eu o deixo cair lentamente como a chuva na cozinha quente da minha casa.
  4. Algumas vezes enquanto durmo, escuto as vozes dos meninos de minhas outras vidas trocando experiências vãs e me acordam os risos de meus pais, convencendo-me (prematuramente) de verdades incômodas. DESDE MENINA APRENDI EM MEUS SONHOS O LENTO TRABALHO DA MORTE.
  5. Um grupo de homens que me amou, corre de dois em dois com os peitos nus e fingem parar o tempo maquiando meu cadáver com cosméticos que eles roubaram de suas avós. Ninguém achou melhor esperança do que fazer seus corpos desaparecerem de mim com um quase simultâneo orgasmo.
  6. De um dia importante – para o bem ou para o mal – há poucas coisas que chegam intactas ao amanhecer, quando deixo que a última gota de álcool chegue ao ponto imprevisto da minha cabeça. Meu amigo morre; Aí há um dia importante, os nascimentos e a morte prolongam a jornada e fazem de vários dias somente um, ainda no verão.
  7. Na beira do mar, um pedaço de cimento bate na cabeça das sereias, as crianças olham-nas com medo e inventam contos para peixes mortos.
  8. Eu os vi desnudando-se no chuveiro enquanto acertavam seus peitos com sabão, e meus olhos se encheram de nus por tanto chorar, ao trem perdido, quisera poder matar todos eles.
  9. Se eu pudesse contar todas as vezes que me masturbei atrás da minha janela esperando encontrar alguém, meu caderno estaria cheio de linhas que seriam arranhões nas nádegas, ou pequenas decepções.

Tania Mendoza (1996) é uma poeta mexicana. Fundou e dirige a editora Atún de Sirena na Cidade do México.

Tradução de José Juva.

Arte de Herbert Baglione.

Share Button

José Juva (1984) é um poeta brasileiro. Publicou os livros “Deixe a visão chegar – a poética xamânica de Roberto Piva”, “vupa”, “Breve Breu – escritos sobre cinema e literatura” e "Watsu".

Seja o primeiro a comentar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.