Sugar Darling,

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Imagem: Karol Pacheco Montagem: Fernanda Maia

Bem que poderia ser um cigarro Hollywood, aquele branquinho que pedi a você assim que sentamos no chão, no backstage do Rec-Beat, para conversar. A tarde tinha acabado de começar e você havia acabado de sair da passagem de som. Estávamos lá, ao invés das ladeiras e suores e amores de Olinda, numa segunda-feira de Carnaval. Nós, a banda e um punhado de seus fãs. Punhado vem de mão, de punho (contava-se nos dedos os destemidos dos raios ultravioletas). O Recife Antigo, sob a rachante luz do sol, era paz e alguma sujeira restante do domingo carnavalesco. Digo que bem que podia ser um Hollywood, mas o cigarro era todo branquinho, sem aquela bituca amarelo-pro-marrom dos fortes ­– fortes não, lisos; o cigarro dos fortes combina mais com o Derby ou o Dallas. Digo bem que podia ser um Hollywood, para que eu pudesse citar Raul Seixas, um verso da canção “É fim do mês”, ainda no primeiro parágrafo. Antes tarde: “Eu procurei fumar cigarro Hollywood, que a televisão me diz que é o cigarro do sucesso.” – por sinal, o doce (e o) sucesso estavam nos poros dos brincantes das Olindas. Hollywood lembra Los Angeles, templo de Rock’n’roll Sugar Darling, terceiro e açucarado disco seu, Thiago Pethit.

A curta canção “De trago em trago” cabe em um tempo no qual se fuma com um colega de trabalho entre a apuração e o fechamento; ou com uma amante, pós ou pré-sexo, dividindo a mesma nicotina, o mesmo filtro, tragando junto a umidade da saliva do outro. Se enchendo da mesma fumaça. Do mesmo fogo e do mesmo fôlego. Ah, o cigarro e seus encorajamentos rasos. A música tem pouco mais de um minuto. O cigarro é seu parceiro, companheiro mais antigo que o rock, que agora você desbrava. Trago sua fumaça de volta em quatro dias de Carnaval, Pethit. Ao passo que cigarro encoraja e mete os olhos da gente bem dentro dos olhos do outro, ele ensaia o sucesso. O sucesso que é para os fortes, não só para os fortes que encaram o Derby ou o Dallas, mas para quem tem paixão e coragem no realizar(-se), mesmo que seja coragem de nicotina. Seja lá qual for o cigarro que fumamos naquele dia, não era um cigarro dos fortes nem, exatamente, do olhar dentro do olho, mas paixão tinha. Tinha paixão, coragem e nicotina. O rock tem um pouco mais do que isso, tem a proatividade que há muito chamam de atitude. Era apenas o quarto show da turnê, e onde você quer chegar, criativamente, só descobre quando entra no palco e o jogo começa.

Decadente rock, star

Raul Seixas, bem entendido de rock que é, só não pensou em ir a Los Angeles. Pethit Pensou. Foi pra Los Angeles, cidade estelar. Ainda há espaço para as estrelas da decadência no novo álbum de Pethit. O divo Joe D’Alessandro, diretamente de Andy Warhol, Serge Gainsbourg, Louis Malle, John Walters e Francis Ford Coppola.  “Passei a juventude ouvindo fotógrafos me mandarem tirar as calças, agora tenho uma mulher que passa o dia me mandando abotoar a camisa”, brinca aquele que tem seu vozeirão na abertura de RnR Sugar Darling.

Joe já foi o homem mais bonito do mundo – em 1971, conta Pethit, a revista Rolling Stone o estampou em sua capa para dizer que ele era “a estrela da revolução sexual”. Hoje, aos 65 anos de idade, “é um senhor com rugas e uma certa barriga, mas tem o cabelo mais sedoso do que o meu e o mesmo olhar poderoso”. Foi. Era. A estrela da revolução sexual. Agora, com a doçura que a idade confere ao galã de outrora, dá boas vindas ao sugar darling: “People need it. They really need it. A down to earth rock’n’roll superstar. A rockstar thats hustles. On the same street´s they do. They need a street angel. An angel with a cowboy mouth.”

Em “Walk on the Wild Side”, do disco Transformer (1972), produzido por David Bowie e Mick Ronson, Lou Reed sugeriu que D’Alessandro desse “uma volta pelo lado selvagem”. Ele, por sua vez, agora convida o mais novo roqueiro paulista: “Hey pethit, why don´t you show us. Some rock’n’roll sugar, my darling.” Os versos que abrem o show e o disco RnR Sugar Darling foram escritos por Thiago Pethit e gravados pelo astro na música de Lou Reed. Pethit bebeu toda a energia da glicose do candy darling. Energia ultrassexual, talvez caminhando para a trans e bissexualidade presente nas obras de Reed e Bowie.

“Sou tão infeliz / Amando assim ao meu Johnny / Que não chora por mim”, seu flerte com os boyzinhos vem desde Estrela Decadente, esboço do que viria a se tornar Sugar Darling (evolução natural do anterior – que, por sua vez, fortifica as raízes do iniciado em Berlim, Texas, de 2010).

Mangue Bitch, thudo é permithido

“Recife, minha fanthasia de Mangue Bitch não ficou prontha a thempo. Vou fazer o show nua e purpurinada. Carnaval é para se despir; o rock também. Thire, thire os thudos e os thanthos!”

Thire as fantasias às Segundas de Carnaval;
elimine os bbbrothers da THIV Globo às therças;
rethire o que disse no Facebook sem likes às quarthas;
thire uma boyzinha para encoxar no Xinxim às quinthas (“Thoca Gonzaga”, pai do rock e rei do baião, onde o primeiro é bastião do segundo);
desnude e desbunde betodélico às SexThas;
tire o látex sugado para o engenho de dentro no sábado (o rito de cultura copular se legitima ao alvorecer);
tire o despertador no domingo (não o domingo caótico que antecedeu o show de Thiago Pethit, o próximo, católico)

O cantor realizou os ritos-repetitivos-criativos de toda uma semana (de carnaval) –, ou de toda uma turnê, durante 40 minutos de show no Cais do Alfândega, no festival Rec-beat. O Carnaval tem outro tempo, o rock também. Não, nem isso, o rock não consulta calendário. Outro tempo e outros modos. Nenhum tempo, nenhum modo. Não fossem as instituições, o Carnaval, primitivo, seria o Éden. Nas costas de Deus, muitas cobras entrando dançando interpretando cantando sendo colhendo plantando comendo entorpecendo chupando (dudus descongelantes tang maçã e pitú) e saindo das Evas de muque e make também nos outros 360 dias pela frente, numa atitude Bowie in The Next Day. pope on vacation in las vegas!

Mary, Mangue Bitch, Mary. risofloras anas júlias natachas, esqueça-as.

Um travesti foi assassinado na Segunda-feira de Carnaval, dia 17 de fevereiro. Segundo a única câmera de vigilância que conseguiu captar a ocorrência, o prostituto e travesti João Roberto Pereira de Souza, vulgo Mary, urinava entre os banheiros químicos feminino e masculino no Cais da Alfândega quando foi atacada naquela Segunda-feira engordando pra Terça-feira Gorda (o rito de cultura copular se legitima ao alvorecer). “boa noite. meu nome é luana. o que eu tenho pra falar é que o preconceito aqui em recife é muito grande. eu mesma já levei um coco verde na avenida antônio falcão que desmaiei. a gente vem trabalhar, mas vai passar por tudo isso.”

Enquanto isso, “I’ll be a rock and rollin’ bitch for you! I wanna be your dog. Eu quero ser seu cão.” FWD: Eu quero ser seu cao. Assunto do e-mail do fã J, com fotos e vídeos desde a fila do gargarejo, onde os fãs enlouqueciam com a performance provocante e sensual do cantor paulista Thiago Pethit, em sua vertente mais rockeira. Thiago Pethit subia em um dos grides do palco, numa demonstração Carnaval Heroes; Mary, travesti e prostituta, 32 anos, pediu um baseado e levou bônus-cacetes de todo os tipos de dores e tamanhos. Tratada como Mangue Bitch, tratou de torar a genitália que não reconhecia. Urina ureia flora bacteriana sangue zigotos e coliformes do Recife. Mutação. Nascem três travestis e um embrião de thravesthículo rock’n’rollin’bitch sugar darling.

“Não pela música thípica ou qualquer coisa do thipo, mas a themática. Uma festha em que homens possam se vestir de mulheres, se fantasiar daquilo que gostariam de ser, por um ou 4 dias, sair, beijar todo mundo e lidar com a sexualidade de forma abertha e explícitha, nada disso faz muito senthido pra minha vida. Eu sempre pude fazer essas coisas. Me fantasiar de mulher sempre que quisesse, pude beijar thodo mundo ou brincar de ser as minhas fanthasias, seja Bowie, Carmen Miranda ou Super-herói, sempre que subo ao palco é carnaval pra mim. ao palco, é carnaval. outro tempo, outros modos. Se posso fazer isso sempre, não preciso desses 4 dias em que thudo isso é permithido.”

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Foto: Flora Pimentel

Beijaço: abram aspas

Foi muito surreal!!! tipo eu tava super empolgado lá na grade, delirando com cada música. Parecia que o mundo ia acabar depois da próxima haha Acho que ele curtiu ver a galera que tava ali na frente, cantando todas as músicas, se jogando demais! Ai na última música ele desceu do palco e foi cantar no mosh pit. Quando ele chegou na minha frente, eu segurei o braço dele e fiquei cantando junto com ele hahaha ai foi então que ele me agarrou e deu um beijo depois beijou uma menina e outro menino que estavam perto de mim, e do outro lado do palco ele deve ter beijado mais umas 3 pessoas também!!! Detalhe que meu namorado tava do meu lado e não gostou nada disso. Quase que a gente termina mas ai tudo se resolveu. No outro dia, uma amiga veio me mostrar uma notícia que saiu no blog da Roberta jungmann sobre o show e o beijaço. E postaram a foto exatamente do momento em que a gente estava se beijando!  kkkkkk

Há boatos de que no final do show eu desci pro mosh pit e beijei vários meninos… mentira gente!!! beijei meninas também haha 🙂

Semideus, adeus

“O palco resume tudo que eu gostaria de ser. Não tudo que eu sou, mas o que eu gostaria de ser. Eu consigo virar um semideus assim: tudo que eu sonhei ser, eu sou quando eu estou no palco. Quando eu não tÔ no palco, eu não sou isso, eu não consigo ser isso. É um mistério. Nem quando eu faço videoclipes. Na passagem de som, fico sem graça. O pÚblico, a troca, é um jogo. Eu preciso que as pessoas acreditem que eu sou um semideus – gosto da ideia meio grega de um deus Dionísio chegando em seu carro naval para tomar a cidade com festas, mas não sou a pessoa mais carnavalesca que conheço. Quando elas olham pra mim como um semideus, eu viro um semideus. E eu dou mais. Pq semi? ah, sei lá, pq eu sou meio humano, meio de carne e osso. Estar no palco pra mim é sobre transformação.”

Sugar Darling, o carnaval é sobre transformação, o rock também. As suas turnês de são transformações. Eu vou te dizer, um mais do mesmo do que eu disse antes: “toca, Gonzaga, as metamorfoses ambulantes”. Coisa dos encorajamentos nicotinhosos.

Foto: Flora Pimentel
Publicado originalmente no e-book passagens performances processos (2015).

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Jornalista e repórter da revista Outros Críticos. Diretora da Fundação de Cultura de Camaragibe. Roteirista e performer.

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