Somos um terreno permeado de

Eu pensei em propor um diálogo aberto com este texto; e, por isso, eu o entendo como uma continuidade de conversas que venho tendo com diversas pessoas e a possibilidade das reflexões serem desdobradas no futuro – inclusive, repensando pontos e abrindo a alma para recuar em alguma coisa dita. Contudo, como conversa que a gente pega pelo caminho, engata um fio e segue articulando junto, este texto tem a proposta de compartilhar um pouco das vivências colaborativas que tenho acompanhado em Pernambuco.

Estamos encarando um enfraquecimento das políticas públicas de cultura há uns seis anos. As diversas regiões do estado possuem uma produção cultural, cuja influência transborda o campo da arte, em seu aspecto mais institucional (museus, galerias, feiras de arte etc), e tem impactos até na sobrevivência cotidiana de diversas comunidades – pensei no Alto do Moura, mas pode ser igualmente o Morro da Conceição, entre outros. Diante de gestores que administram as cidades – e o estado – como se fossem uma empresa privada e acreditam que a função da arte é apenas prover entretenimento, todo um rico sistema de articulação cultural começou a ser desmontado. Projetos e instituições fecharam, importantes polos esmoreceram na capital e no interior e, no âmbito do poder público, a cultura passou a ser filtrada pelas regras do turismo comercial e do mecenato, como uma tentativa de tirar de cena um legado cultural que não é feito com intuito primeiro de venda. Este legado inclui exemplos nos mais variados circuitos: da música erudita a comunidades tradicionais quilombolas, de agremiações carnavalescas à produção de arte contemporânea, dos artistas de rua a pesquisas com (e sobre) saberes indígenas… e assim por diante. O que não é rentável vai para a pasta “outros” da cultura. Ou é varrido para fora dos orçamentos públicos, a exemplo de uma das primeiras decisões de Michel (Fora!) Temer, que foi fechar o MinC, depois retomado, de forma inadequada, por meio de muita pressão dos setores culturais. Mas, sempre existe chance de termos um aspecto luminoso no meio deste percurso. Ele se apresenta quando os setores afetados por estas escolhas políticas e econômicas conseguem sair da fase de inércia e a criar estratégias para recompor seus modos de atuação. A trajetória de redes e colaborações desenvolvidas por diversos grupos, espaços e comunidades, há décadas, nos situa tanto como um polo de resistência, mas também como território aglutinador de táticas de sobrevivência em tempos sombrios nos campos da arte e da cultura.

“Artistas ativaram de vez a potência das redes tanto de produção e pesquisa, quanto de circulação de seus trabalhos”.

Em Recife, o setor das artes visuais e das artes gráficas, que sempre atuou muito na rua, vive um de seus momentos mais bonitos, apesar da imensa crise de financiamento de projetos e do fechamento de diversas instituições que apoiavam iniciativas das respectivas áreas. Artistas ativaram de vez a potência das redes tanto de produção e pesquisa, quanto de circulação de seus trabalhos. A produção inclui muitos projetos de rápida circulação, como lambe-lambe, pôsteres, folhetos, stencils, adesivos, zines, performances, ativações de rua e muito conteúdo de circulação on-line. Além disso, editoras independentes, como a Aplicação, foram as primeiras a sugerir que os artistas olhassem para as gráficas obsoletas do centro do Recife como possibilidade de experimentação de linguagens visuais em um maquinário que, possivelmente, seria descartado. Ociosas por causa da implantação das notas fiscais eletrônicas, as gráficas estão fechando aos poucos porque a quantidade de serviços não consegue suprir a perda causada pela suspensão dos talões de notas impressas. O maquinário e os tipos de papéis que elas trabalhavam, contudo, são muito interessantes para os campos de pesquisa visual. Se antes estes impressores não topavam fazer serviços artísticos porque estavam abarrotados de encomendas de notas fiscais, agora as negociações para produções e parcerias ocorrem em novo patamar, porque os dois lados precisam. Assim, as paredes da cidade e as feiras independentes começaram a receber uma produção cultural – que respinga na arte política – produzida nas gráficas do centrão e nos bairros da periferia da Região Metropolitana do Recife. Este movimento alterou, ainda, não apenas o percurso de alguns artistas, como também criou uma outra rede, baseada em trocas de referências sobre impressores e sistemas de impressão; o que consequentemente fez com que mais gente soubesse dos trabalhos uns dos outros, desdobrando em mais uma camada de processos colaborativos.

Este cenário, que eu exemplifiquei com os impressores, mas que também pode ser visto nos setores do audiovisual, da música, da literatura, entre outros. Ele fez com que Recife, nos últimos três anos, tivesse um número muito maior de mostras, festivais e exposições individuais e coletivas, feiras como a Publique-se e a Independente Disso, apesar dos diagnósticos cada vez mais sérios de desmonte na cultura. É que, diante de tamanha retração, ou se reagia ou iríamos todos sucumbir. É claro que houve perdas e diversos espaços importantes fecharam tanto na Região Metropolitana quanto no interior do estado – e outros continuam fechando. Porém, se percebe que alguns destes fechamentos são rearranjos de novas parcerias que permitam uma continuidade dos trabalhos, uma vez que se sabe que o cenário pode não mudar nem tão cedo – principalmente se os perfis dos gestores continuarem os mesmos. Deste modo, enquanto perdemos museus e grandes centros culturais, novos espaços independentes, muitas vezes montados nas casas de artistas, coletivos de artistas, curadores etc, aparecem como que desafiando os prognósticos da falência das políticas públicas culturais. Aparecem financiados por vontade própria, contando com apoios coletivos e com a vontade de artistas de continuar expondo e movimentando a cidade, sobretudo para provocar discussão. Os coletivos do Edifício Pernambuco, A Casa do Cachorro Preto, o Texas, a Caverna Lunar, a MauMau, o CCJ, a 33Crew, as experiências no entorno do Magiluth, entre outros, vêm seguindo as trilhas de iniciativas anteriores. Grupos que aprenderam, na guerrilha cotidiana, a sobreviver (e, alguns, continuam) e deixaram um legado vivencial simbólico para futuras articulações. Entre eles estão o Movimento Boca do Lixo, a Rede Resistência, a Rádio Alto Falante, o Ventilador Cultural, as experiências coletivas que habitavam a casa de Evandro Q, onde hoje funciona o Iraq, os movimentos da poesia popular no Sertão do Pajeú, entre muitas outras. Iniciativas que, se não estavam envolvidas diretamente com produção de arte, em especial de arte política, movimentavam um sistema de difusão e circulação destas produções. Pensando bem, valeria uma retrospectiva.

“Se todos estes movimentos organizaram, em suas respectivas épocas, debates sobre novas abordagens e oportunidades para os diversos setores artísticos, o atual cenário puxou novamente uma rotina de discussões sobre política pública”.

Se todos estes movimentos organizaram, em suas respectivas épocas, debates sobre novas abordagens e oportunidades para os diversos setores artísticos, o atual cenário puxou novamente uma rotina de discussões sobre política pública. Reuniões, participações em rodas abertas, brigas diretas com os governantes, movimentações via redes sociais, audiências públicas, intervenções nas paredes e atos na rua. Parece que todo dia tem algo intenso para dar conta. Os artistas articulam, constroem grupos enormes, dividem grupos de trabalho. Exigem que outras regiões sejam ouvidas. Uns cansam, outros voltam na semana ou no mês seguinte. Em episódio recente, enquanto se discutia o projeto de alteração do Plano Estadual de Cultura, artistas fizeram grupos para viajar pelo interior com o intuito de fiscalizar a maneira como os governantes apresentavam os projetos em cidades onde debates anteriores não haviam ocorrido. Em outro movimento, saem das caixinhas e agora dialogam com outros atores públicos: movimentos sociais, advogados, contadores, designers, produtores. Envolvem fornecedores de materiais nos debates, puxam a universidade, os pesquisadores das instituições públicas que ainda funcionavam e representações de outras regiões do estado. Discutem valores e planilhas, entendem escolhas políticas, observam movimentos mais amplos e levam os desafios para a própria produção. Dançam em um universo que não estavam acostumados. É difícil, mas é bonito participar.

Esta lida cotidiana, é claro, se transforma em projetos artísticos, como as músicas de Helder Vasconcelos, Karina Buhr, entre outros, que circulam para o público por meio de ações como o Som na Rural. Outro exemplo é o Recifusion, organizado por artistas de diversos coletivos que dialogam com a 33Crew, inclusive de outros estados e países. Nos últimos seis anos, eles têm vindo a Recife para grafitar coletivamente os muros de regiões escolhidas pela cidade. Esses projetos se posicionam politicamente no espaço público e têm uma dinâmica que permite uma circulação mais fácil pela cidade. Outras ações artísticas requerem estratégias diferentes porque, à primeira vista, não são vistas por possíveis apoiadores como arte pública. É nesta brecha que atua Lia Letícia produzindo o Cinecão, produzido na MauMau. Ela tem exibido uma produção que raramente seria financiada pelos setores normativos de produção cultural, mas que provocam belas rupturas no sentido convencional de cineclubes. O trabalho de Biarritzz, por exemplo, situado em um contexto recente de webarte, debatendo questões como o desmonte das estratégias de controle do corpo e a liberdade de circulação, está entre as produções exibidas no evento, bem como as sempre inspiradoras obras musicais de Thelmo Cristovam, que possuem uma delicada atitude política e quase nenhum apelo de venda direta. As produções de ambos não são necessariamente distantes do grande público, mas ficam ainda mais sem estas participações no Cinecão. Biarritzz, por exemplo, poderia ter uma fácil inserção em lan house das periferias de Recife, porque lida com linguagens, programas de internet e jogos que os frequentadores dominam bem e ofereçam outros usos. Porém, as discussões que ela e tantos outros jovens poderiam agregar nestes locais são negligenciadas por uma histórica negação da periferia como produtora de arte e tecnologia. A experiência da Kabum Recife, fechada recentemente, é uma prova contundente disso, embora as periferias brasileiras sejam, historicamente, espaços de produção e circulação de arte política.

“[…] um dos papéis do artista, no atual contexto, é produzir e incentivar refabulações“.

É neste circuito, por exemplo, que o CCJ Recife desenvolve um processo de desmonte dos preconceitos contra a inserção da periferia no campo da arte. Para eles, brodagem – no sentido positivo da expressão, que significa estar junto por afinidade – é essencial. Vocabulário cotidiano do coletivo. Desde 2015, contudo, por conta da crise do sistema prisional, em Pernambuco, que entrou diretamente nas casas dos artistas (o Presídio Aníbal Bruno fica na região), os debates internos do bairro intensificaram nos trabalhos produzidos pelo grupo. Este ano, eles iniciaram um projeto de formação cujo subtítulo trazia a seguinte frase: só a ficção pode salvar a realidade. Eu recordei diretamente de um texto da pesquisadora Renata Marquez, que sempre releio, chamado Arte Como Prática de Fronteira. Ela fala que a desfabulação dos territórios é uma das consequências perversas da globalização no sul sociológico do mundo; e coloca que um dos papéis do artista, no atual contexto, é produzir e incentivar refabulações. Pensando na atuação do CCJ Recife, a fabulação é, sim, uma chave-mestra. O esforço de articular parcerias para alguém ser artista, onde o meio social vê a população apenas como mediadores do presídio ou futuros presos, é um ato de resistência radical. Imagina, a brodagem não é para que a moçada simplesmente arrume uma carteira assinada e salário mínimo. Para eles, a finalidade de uma vida é muito mais do que pagar as contas. Isto é apenas um meio de organizar as coisas para que a ativação da existência artística aconteça. Mais político, impossível.

um coletivo cidade que resiste

Quando se fala deste contexto de criar novos lugares para existir, eu não posso deixar de pensar as vivências em torno do Direitos Urbanos. Desde 2012, há uma intensa produção de cartazes, colagens, livretos, folders, ilustrações, ensaios fotográficos, arte digital, filmes, músicas e manifestos produzidos pelo circuito cultural e por pessoas que não estavam no meio, mas se sentiram ativadas a colaborar. Enviados por e-mails e redes, de forma espontânea, os materiais foram feitos para divulgação dos ocupes ou em reação às questões levantadas no Facebook.

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As obras do acervo inspirado nas ações do #OcupeEstelita, que vieram tanto por meio das ações do Direitos Urbanos quanto, mais tarde, também pela articulação do Movimento Ocupe Estelita (eles são grupos diferentes) circulou, durante muito tempo, pelas redes sociais, em intervenções urbanas e exposições ao ar livre no Estelita e no centrão do Recife. Estas ações quase sempre eram autônomas e organizadas por grupos independentes. Indivíduos unidos pela empatia entre si, pelas temáticas, pelos trabalhos e pelo que o período está movimentando.

Se pensarmos em cenário de produção de arte política, o #OcupeEstelita talvez tenha sido uma das maiores ações de intervenção artística coletiva autogestionada, em Recife, em tempos recentes. O acervo é um mapeamento simbólico de como um grupo social, formado por artistas ou não, reagiu a uma situação de desmonte do patrimônio histórico e das políticas urbanas por meio de uma intensa produção de arte política.

A temática das cidades, contudo, já vinha sendo trabalhada no audiovisual há vários anos. Porém, as produções caminharam para um outro patamar de realização a partir de 2010. Filmes como [projetotorresgêmeas] e Eleições: crise de representação – este último não finalizado –, foram articulados a partir de convocatórias públicas, com licença para uso livre de materiais e assinatura coletiva. O primeiro chegou a ter cerca de cinquenta nomes em seus créditos finais.

Esta experiência somou a projetos que começaram a ser produzidos por coletivos temporários de artistas e outros setores da sociedade civil, que se organizavam em torno de um filme, e depois se desfaziam, podendo rearticular outros agentes no futuro para novas ações. Desta leva surgiram filmes como Velho Recife Novo e a plataforma Vurto. Elas ativaram, também, a necessidade de produzir novos espaços de discussão e o festival Janela Internacional de Cinema do Recife foi abrindo espaços específicos, como as mostras “O Cinema e o Espaço Urbano”, “Cinema e Cidade”, entre outros, em que os filmes eram seguidos por intensos debates com diversos setores sociais.

Deste percurso nasceram outras coisas instigantes, como a Troça Carnavalesca Empatando Tua Vista, que assinou com o Movimento Ocupe Estelita a coautoria do clipe recifense mais comentado de 2015, o Novo Apocalipse Recife. Blogues políticos estimaram um custo de produção de 200 mil a 300 mil reais. Ainda disseram que os realizadores certamente foram financiados por partido.

Nos bastidores, os envolvidos gargalhavam. O custo de produção todo não passou de 2 mil reais, divididos por todos os participantes, que foram muitos. Diversos cineastas amigos cederam imagens de arquivo, produzidas em filmes anteriores feitos sobre a cidade, e a equipe principal produziu e editou todo o resto com o que tinha em mãos. Contaram, ainda, com consultorias colaborativas e todo figurino produzido no set pelos próprios participantes.

O recente circuito da arte política produzida por estas bandas aflora estas influências, o que é maravilhoso, e nos revela a capacidade de mudar cenários, independente das gestões. Contudo, não creio que devemos estagnar as lutas por uma política pública de arte e cultura decente. Nossos circuitos culturais não respondem somente pelo entretenimento, e têm, na produção articulada e crítica um de seus caminhos historicamente mais simbólicos.

Fotos: Movimento Ocupe Estelita. Disponível na Fanpage do grupo.

Publicada originalmente na ed. 12 da revista Outros Críticos.

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Ana Lira Por:

Nasceu em Caruaru (1977), mas vive e trabalha em Recife como fotógrafa independente e pesquisadora. Há quatro anos também desenvolve projetos nos campos da educação, curadoria e edição de narrativas visuais. Pesquisa relações de poder e canais independentes de comunicação. É especialista em Teoria e Crítica de Cultura e integrante do Direitos Urbanos. Participou dos coletivos 7Fotografia, Trotamundos, Boivoador, Paspatu e Vacatussa. Editou durante cinco anos a extinta Revista Rabisco e participou de diversos festivais e projetos independentes on line e impressos espalhados pelo país.

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