sertões, paisagens e poéticas em ‘Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo’

No lugar de fazer uma mera adaptação do cinema para a literatura, os cineastas Marcelo Gomes e Karim Aïnouz criaram uma nova obra ao transportar para o papel o conteúdo do filme Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo. O livro homônimo é um objeto dotado de linguagem própria, que combina fotografias (e “frames”), palavras e um projeto gráfico editorial bastante original para transmitir as ideias, sensações e emoções sobre as relações entre afeto, distância e paisagens já expressas no longa-metragem.

Ninguém precisa ter visto o filme para absorver plenamente o conteúdo do livro. É até melhor não, para que a surpresa das reviravoltas do roteiro sejam mantidas. Folhear as páginas é uma experiência sinestésica e, pelo menos do ponto de vista narrativo, cinematográfica.

170131-viajo_pag190-191

O projeto gráfico (assinado pelo escultor Artur Lescher) chega a experimentar recursos que sugerem efeitos de montagem e trilha sonora, ao mesclar folhas com tamanhos, cores e tipos de papel diferentes. As letras das músicas “Morango do Nordeste” (Walter de Afogados e Fernando Alves), “Sonhos” (Peninha) e “O Último Desejo” (Noel Rosa) são reproduzidas, por exemplo, em pequenas páginas metálicas que intercalam o livro transversalmente.

A variação na forma de apresentação das informações visuais e textuais (com experimentos de poesia visual) também indica um ritmo ou uma sugestão de montagem cinematográfica.

Trata-se de um objeto de arte que pode ser apreciado inclusive fechado. Como cada capítulo tem diferentes cores e formas de preenchimento espacial, a observação lateral das páginas também revela um trabalho de composição visual, enquanto a capa dura simula o caderno de anotações do personagem-narrador.

A ausência de imagens em movimento é compensada pela maneira como a fotografia é trabalhada com sequências, sobreposições (fusões) e texturas de vídeo ou grãos de película. A natureza do “frame” é assumida como recurso de fluidez visual.

Na ficha técnica, há a informação de que o livro foi inspirado no clássico Os Sertões, de Euclides da Cunha. As duas obras têm em comum a paisagem do semiárido, a busca por um significado para aquele lugar e a tentativa de compreensão dos seres que ali habitam ou transitam. O Sertão, em ambas, não é apenas uma referência física e geográfica, mas também sentimental e interior. São relatos de um Sertão enquanto experiência.

170131-viajo_pag194-195

Assim como o filme utilizava imagens documentais na construção de uma história de ficção em primeira pessoa, o livro é costurado por um texto escrito por um personagem fictício e situa-se nas fronteiras entre gêneros e formatos. Com fotos, desenhos e palavras que se equilibram sem hierarquias, pode ser interpretado como um romance, apesar de não seguir padronizações literárias de prosa ou poesia. O relato textual atravessa estilos diferentes, com trechos parecidos com relatório geológico, descrições de situações e pessoas, testemunho, carta de amor, elucubração, devaneio e mentira. São anotações, rascunhos e registros de pensamentos. Existe um trajeto, mas não é uma narração.

No contexto da literatura diretamente relacionada ao cinema pernambucano, Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo aproxima-se do livro Olinda, de Mariana Lacerda (com desenhos de Clara Moreira e projeto gráfico de Joana Amador), que é inspirado no curta-metragem A Vida Noturna das Igrejas de Olinda, dirigido pela autora. Ambos priorizam a construção poética no processo de adaptação, enquanto outras publicações têm perfil mais didático, ensaístico, jornalístico, histórico ou documental.

15 LIVROS SOBRE O CINEMA PERNAMBUCANO

O Documentário em Pernambuco no Século XX, de Alexandre Figueirôa e Cláudio Bezerra
Direções, de Alice Gouveia
A Aventura do Baile Perfumado: 20 Anos Depois, de Amanda Mansur e Paulo Cunha
Cinema Pernambucano: Uma História em Ciclos, de Alexandre Figueirôa
O Cinema Super 8 em Pernambuco, de Alexandre Figueirôa
Guel Arraes: Um Inventor no Audiovisual Brasileiro, de Alexandre Figueiroa e Yvana Fechine
A Imagem e Seus Labirintos, de Paulo Cunha
A Utopia Provinciana: Recife, Cinema, Melancolia, de Paulo Cunha
Relembrando o Cinema Pernambucano, com 59 crônicas de Jota Soares (organização de Paulo Cunha)
O Novo Ciclo do Cinema em Pernambuco: A Questão do Estilo, de Amanda Mansur
A Luneta do Tempo, de Júlio Moura (com fotos de Antônio Melcop)
Doméstica, o Livro, coletânea com 13 artigos sobre o filme de Gabriel Mascaro
Ary: Um Bandeirante do Cinema Brasileiro, de Nelson Sampaio Júnior
Olinda, de Mariana Lacerda
Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz

Share Button

Dirigiu os premiados curta-metragens História Natural (DCP, ficção, 2014) e Deixem Diana em Paz (35mm, animação, 2013), selecionados para mais de 50 festivais, incluindo os de Brasília, Gramado e Clermont-Ferrand, entre outras mostras de cinema nacionais e internacionais. Atualmente é jornalista do Diario de Pernambuco, repórter, redator e crítico de arte, com experiência em coberturas no Brasil e no exterior. Atua como funcionário contratado da empresa desde fevereiro de 2003. Finalista do Prêmio Imprensa Embratel 2007, na categoria nacional Jornalismo Cultural, e no Prêmio Cristina Tavares de Jornalismo em 2014. Atualmente é também curador do festival de cinema de animação Animage. Como crítico e repórter, colaborou também para revistas como Outros Críticos, Coquetel Molotov, Billboard, Noize, Continente e DasArtes.

Seja o primeiro a comentar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *