Semente da Terra, do rio, das gentes

Milton Nascimento se apresentou no Teatro Guararapes, em Recife/PE, na noite de 24 de agosto de 2017. A turnê Semente da Terra continua na estrada.

1. Agora é hora de luta! Pressione os senadores e deputados pela aprovação do Decreto Legislativo 160/2017, protocolado por nosso mandato na Mesa Diretora do Senado, pedindo a suspensão do decreto de Michel Temer que extingue a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca), área de 4 milhões de hectares que abrange unidades de conservação e terras indígenas. O Projeto ainda tem que passar pela Câmara e pelo Senado. Precisamos de mobilização total! Cobre os parlamentares pela aprovação! Não podemos permitir que a nossa Amazônia seja dizimada pelos atos desse governo ilegítimo! #SOSAmazonia #SalveAmazonia #Amazonia #RencaResiste

2. Semente da Terra é uma dobra. É o nome de batismo que Milton recebeu das lideranças espirituais da Nação Guarani Kaiowá e também o título do show com o qual o músico circula atualmente. Mas não só.

3. Suas canções alçam novas posições com o passar do tempo, das lutas.

4. A voz-artista encorpada por sonoridade predominantemente acústica, em que um duo de violões conduz os arranjos por onde essas novas canções se movimentam, transformam os arranjos de nossa memória em pontos de partida para a reconstrução dessas canções e de seu significado nos dias de hoje.

5. A terra, o rio, as gentes, o país; para onde estamos indo?, o artista nos indaga.

6. Quando canta “gente, gente, gente” em “Clube da Esquina 2”, com os braços abertos evoca a multidão a mover-se; passamos da metade do show e a narrativa de semente da terra vai se transformando; primeiro, a terra, segundo, as gentes,

7. A voz que dialoga com Milton durante o show é apresentada por ele como “representante direta dos índios Guarani Kaiowá”. Barbara Barcellos é uma dessas gentes; seu canto se mantém a par dos demais músicos, como um elemento de conexão entre as músicas, os arranjos calcados em violões, sopros, piano, baixo e bateria; uma voz grave de afeto que se destaca nas alturas deslizantes de “Canoa Canoa”, seus peixes rítmicos, seu movimento, sua dicção “peixe-mulher”.

8. A canção brasileira está em movimento.

9. “Travessia” é preâmbulo no roteiro de canções de Semente da Terra. O show começa na presença dessa canção e dos músicos e numa ausência-presença de Milton, que só entra no palco depois da plateia e músicos terem a cantado por um bom tempo. É de fato a música “A terceira margem do rio” que inaugura a narrativa de Semente da Terra. Estamos nós nesse rio, nessa margem, o pai, o filho; a fé de Milton é na palavra, na canção – um foco de resistência.

10. O presente pode não ser muito promissor, ainda mais na mão de quem hoje controla céus, seja em Brasília, na Avenida Paulista, em Washington ou no Rio. Mas ainda existe uma força, um lapso de ânimo que conduz os homens de coragem antes da “Queda do Céu”, como profetiza Davi Kopenawa, caso ambições de uma minoria usurpadora continue espalhando cartas bomba e genocídios: “A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor. Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os Xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar”.

Nota nº 1- Postagem na página do Facebook Milton “Bituca” Nascimento.
Nota nº 10 -Trecho que a vocalista Bárbara Barcellos lê durante o show.
Foto: João Couto @jcouto_foto

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor e curador dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE, com estudo comparado do tropicalismo e manguebeat, e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012) e dos livros de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016).

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