RESISTÊNCIA: corpo, repetição e sentido

Esse texto emerge de alguns acontecimentos que estão me atravessando nos últimos tempos: o atual momento político no Brasil, minhas vivencias no mestrado na UFBA, a experiência como espectadora do espetáculo “Resistir”. O que tange todas elas? O corpo como política. Uma discussão sobre repetição e sentido. E a resistência como movimento, atuando diante de um sentimento de mal estar.

Na minha última coluna no site Outros Críticos falei de improviso. Escrevi a um só tempo.  Em um fluxo contínuo, no período de três horas. Nesse texto me encontro em resistência. Uma escrita que teve início há 20 dias. Eu desisto e retomo. As palavras travam. Os dedos escrevem e apagam. A voz engasga.

FORA! FORA! FORA! FORA! FORA! FORA! FORA! FORA! FORA! ORA! ORA! ORA! ORA! ORA!
ORA! ORA! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

Repetir, repetir, repetir, até que esvaindo de tão saturado.

O facebook, as televisões, as conversas políticas, as vozes internas soam saturadas. Procuro fendas para estar. Me deparo com modelos falidos e guerras esvaziadas. Vou em busca de Pelbart, e encontro o texto Oito perguntas sobre resistência e criação. “… como evitar que a guerra torne obsoleta a luta, saturando seu espaço?” (PELBART, 2011, p.135).

Nesse capítulo Pelbart traz discussões que aconteceram no II Fórum Social Mundial, que aconteceu em Porto Alegre (2002) e ‘a força do imaginário como invenção de uma realidade por vir’ era um dos pontos de debate. Se o imaginário é invenção, como criar um outro imaginário de guerra? Fica a pergunta. Se repetindo, repetindo, repetindo.

A guerra é hastag no facebook? A guerra é ir para rua? A guerra é fazer greve? A guerra é promover CPIs? Como criar um outro imaginário de guerra? Como criar um outro imaginário de guerra?

O mestrado me apresenta outros espaços de batalha, onde o saber é o ponto de disputa.  Coletivamente vivencio discussões sobre hierarquias, descolonizações, diásporas. Pessoalmente, vivo uma tensão constante entre o saber e não saber.

Meu encontro com Salvador me leva a pensar muito sobre identidade. Eu, que já estava convencida de me situar dentro do conceito de ‘identidades fluidas’ (HALL, 2006), me revi diante de tantos movimentos identitários: movimento feminista, movimento negro, discussões sobre gênero. Uma cidade de resistência cultural, social e política. Assim, quando estou em Salvador, me defronto com o passado como ponto de tensão constante com o presente. Me deslocando por novas existências.

Como criar um outro imaginário de guerra? Como criar um outro imaginário de guerra? Como criar um outro imaginário de guerra? Fica a pergunta. Se repetindo, repetindo, repetindo. Assim como a História.

Um novo encontro acontece. O espetáculo “Resistir” do grupo Perro Rabioso do Uruguai, apresentado no FIAC, em Salvador. “Resistir é uma obra que faz parte Trilogia Antropofágica, e traz a resistência como uma potência e ampliação do campo do possível, como um ponto fixo que se volta resistente / resistido a tudo. Resistência como vetor de força transformadora, como adaptação e auto-organização. O projeto da Trilogia se organiza como uma prática política onde o verbo vai buscando caminhos para existir contra a hegemonia. O desejo de outro, o desejo de encontrar o outro e ser modificado por ele, o desejo como energia vibracional não-submissa à razão, o desejo como coisa que sucede, onde as formas se fazem indistinguíveis, mas as forças perceptíveis. Elaborando seu pensamento a partir da metáfora da devoração carnal, a antropofagia reativa o mito de devoração dos índios para adotar e adaptar a fórmula ética da relação com o outro, sua cultura, sua experiência, suas políticas e estéticas.” (texto retirado do site do FIAC)

Cinco artistas em cena se movimentavam em um chão de tábuas de madeira. A repetição de gestos era o tom do trabalho. Repetir, repetir, repetir, até esvaziar, e assim nascer outro pulso. Foram 45 minutos de “Resistência” em que meu corpo espectador se moveu tanto quanto os artistas em cena. Era um pulso interno, impossível de controlar, pois parecia que ia explodir se eu pensasse em reter. Repetir, repetir, repetir, até esvaziar, e assim nascer outro pulso. E foi na repetição desse pulso que encontrei sustentação diante de tantas desestabilizações.

Espetáculo “Resistir”, do grupo Perro Rabioso (Uruguai)

Repetir, repetir, repetir, até preencher novamente.

E então sou presenteada com o cordel “A Hora da micropolítica” de Suely Rolnik, que compilou um trecho de uma entrevista da autora. E me deparo com uma discussão sobre o mal estar em lidar com o paradoxo entre a ‘experiência do sujeito’ e a ‘experiência extra pessoal’ no atual momento social e político do país. A autora explica que a ‘’experiência do sujeito é imediata, e apreende formas atuais do mundo, contornos já estabelecidos, com códigos e representações que já dispomos. Já a ‘experiência extra pessoal’ (fora do sujeito) é a experiência das forças que agitam o mundo enquanto corpo vivo e que produzem efeitos em nosso corpo em sua condição de vivente. É a apreensão do mundo de forma diferente: por meio de percepto (que não é percepção, pois é irrepresentável) e afecto (afecção, no sentido de tocar, contaminar, perturbar). É o germe do mundo que nos habita.

E nessa leitura me vi refletindo sobre o fazer artístico e outras maneiras de criar dentro desse sentimento de mal estar. Rolnik nos provoca a invocar a ação do desejo:

“A ação desejante, neste caso, consistirá num processo de criação que orientado pelo poder de avaliação dos afectos (o saber-do-corpo), irá materializá-los em imagem, palavra, gesto, obra de arte, modo de existência ou outra forma de expressão qualquer. E se essa operação conseguir se realizar plenamente, ela dará uma consistência existencial ao mundo de que tal germe é portador, ao dotá-lo de um corpo sensível. Por não ser um representante da experiência que lhe deu origem, mas sim um transmissor de sua pulsação, tal corpo terá um poder de contaminação do seu entorno. É que sua presença viva convoca ressonância nas subjetividades que o encontram, abrindo a possibilidade de que elas também se sustentem na desestabilização” (ROLNIK, 2015, p.14)

E o corpo esvaziado se preenche de novos sentidos. A arte como potência. A vida enquanto arte. E a resistência que permanece, diferente. Me recordo então de uma interessante discussão de Francis Wilker, no Teatro Jornal, sobre “movimentos sociais (práticas políticas) e as artes da cena na contemporaneidade (práticas artísticas) levando em consideração dois aspectos: dimensão performativa e especificidade do espaço”. Ele evidencia o entrelaçamento de movimentos artísticos e políticos brasileiros numa estreita de relação entre vida e arte, e que tece mundos possíveis.

E assim retorno ao diálogo com Pelbart e seus questionamentos sobre Redes de Vida. “Num capitalismo conexionista, que funciona na base de projetos em rede, como se viabilizam outras redes de vida que não as comandadas pelo capital, redes autônomas, que eventualmente cruzam, se deslocam, infletem ou rivalizam com as redes dominantes? (p.139)

Resistir, resistir, resistir, rexistir, rexistir, rexistir, existir, existir, existir, existir, ir, ir, ir, ir, ir…

O sentimento de mal estar permanece, sustentado. E acionando sempre esse corpo de resistência. Resistência como movimento que não libera, tensiona. Que repete, retorna, mas segue. Uma escrita de sensação internas, buscando frestas de reflexão de mundos: buscando sentidos de estar.

Referências

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomáz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. Rio de Janeiro: DP &A. 2003. 7ª ed. ou reimpressão.

PELBART, Peter Pál. Vida Capital: ensaios de biopolítica. São Paulo: Ilumiaras, 2011.
ROLNIK, Suely. A Hora da Micropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2015.

Imagem de capa: Ju Brainer no Contato Coletivo.

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Mestranda em Dança pela Universidade Federal da Bahia, é especialista em Dança pela Faculdade Angel Vianna (RJ/PE) e bacharel em Comunicação Social pela Universidade Católica de Pernambuco. É artista integrante do Coletivo Lugar Comum e pesquisadora do Acervo RecorDança. Atua como coordenadora pedagógica da Mostra Brasileira de Dança e coordenadora artística do Contato Coletivo – Encontro de Contato Improvisação de PE.

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