Rec-Beat 2016: que essa ilha não seja tomada

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Lira apresentou o show ‘o labirinto e o desmantelo’. Foto: Ariel Martini

Parte I

– Isso é o mais próximo que eu estive de Ivete Sangalo (risos).

– (risos) É ela, cantando ali?

O que deverá pensar a cantora estando tão próxima e, ao mesmo tempo, tão distante do Carnaval de Pernambuco, enquanto canta dentro de um camarote, no bairro do Recife? A distância de uma caminhada separa este camarote do carnaval de rua, nas imediações do mesmo bairro, ou mesmo nos polos-palcos, aqueles registrados como oficiais.

No entanto, o que pensarão os que durante muitos anos convivem com o festival Rec-Beat, ali, à margem do Capibaribe, durante o carnaval, naturalmente de rua, ao ver que este carnaval, aos poucos, parece estar se tornando, infelizmente, uma ilha, também cercada. Mesmo que escondido num lugar bem escuro do pensamento, fico com receio de que aquele carnaval acabe cerceando e sufocando o modo como se constrói este carnaval.

Parte II

Por coincidência, nesses últimos anos, pude ver no Rec-Beat os últimos três shows de José Paes de Lira. A “volta” do Cordel do Fogo Encantando ao Rec-Beat, que acabou se tornando a última apresentação deles no festival, em 2009; a estreia de Lira, disco-solo, em 2012, e, por último, o show O labirinto e o desmantelo, neste ano.

Ao cantar-performar cordel, poemas, lira, labirinto/desmantelo, ou mesmo na reverência a Chico Science, em “Sangue de Bairro”, o músico construiu nesta apresentação uma narrativa concisa de toda a sua trajetória. Essa construção magnetiza o público, o põe sob atenção, tensão e reverência. Há espaço para a concentração naquela canção nova, naquele arranjo novo, ao mesmo tempo em que a palavra nua, restrita à voz e ao corpo de Lirinha, incide todos os olhos e ouvidos para aquele único lugar, o da palavra, mínimo e infinito, como poesia total. À reverência, todas as narrativas do sertão-fantástico-imagético que fizeram parte do Cordel do Fogo Encantado, agora sob novos prismas.

É preciso perder-se por um tempo no labirinto, entre as canções e desmantelos que firmam a narrativa de Lira – sonoridade, arranjos, estética, performance, luz, timbre, palavra, silêncios –, ali, diante de nós, enquanto carnaval.

Parte III

A performance, os corpos, os deslocamentos, a voz incisiva, o coletivo, essas foram algumas das principais referências desta edição do festival.

A canção que se encontra na irmandade Areia, Isadora Melo, Juliano Holanda e Zé Manoel, a celebração de Naná Vasconcelos com sua orquestra de batuques, a dança que é o suingue da guitarra de Moh kouyaté (Guiné), as vozes que se manifestam em Karina Buhr, o experimento solitário e corajoso de Sofia Freire, os corpos deslocados de Almério, Liniker e Johnny Hooker, muito diferentes entre si, mas que reverberam outras possibilidades de canto e performance. O que pude e o que não pude presenciar, mas que para mim foram alguns dos destaques desse ano.

Não vimos a mulher do fim do mundo – seria incrível, é verdade –, mas talvez tenha sido melhor assim, pois diante dessa ausência, os quatro dias do festival se conectaram com forças relativas, dando mais sentido ao que torna forte o Rec-Beat, ou seja, sua marca autoral.

Parte final

Que essa ilha não seja tomada.

Foto de capa: Ariel Martini

A revista Outros Críticos apoiou esta edição do Rec-Beat, cedendo 100 revistas para a campanha de financiamento coletivo do festival.

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Escritor, pesquisador e crítico. É editor dos projetos do Outros Críticos, mestre em Comunicação pela UFPE e autor do livro de contos "corto por um atalho em terras estrangeiras" (2012), de poesia "êxodo," (CEPE, 2016) e "canto primeiro (ou desterrados)" (2016), e do livro "Canções iluminadas de sol" (2018), um estudo comparado das canções do tropicalismo e manguebeat.

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